O AO não vem apenas mudar a grafia

Nunca foi necessário uniformizar as pequenas marcas da diversidade da língua para que todos nos entendêssemos, como se sabe. À semelhança da diversidade existente entre as variantes do inglês, do espanhol, as diferenças que existem entre os países que falam o português são evidentes e reflectem a singularidade de cada cultura. Talvez o português do Brasil seja o que mais se diferencia do nosso, sobretudo pela sintaxe, mas nem essa característica nos impediu nunca de nos entendermos e de nos lermos prazenteiramente.

O AO não vem apenas mudar a grafia, como se diz, mas, ao «mutilar» a raiz latina da palavra (que no caso brasileiro, por exemplo, mantém bastante mais graças à fonética), torna difícil o reconhecimento de algumas palavras e a aprendizagem de línguas estrangeiras cuja raiz é comum.

Por outro lado, é bizarro que, mesmo após usarmos o AO na pretensão de facilitar a edição no Brasil, os livros continuem a ser «mudados», como é o caso, mostrando a irrelevância da aplicação do AO.

Compreende-se que a língua não seja uma estrutura fixa e imutável e que sejam incorporadas as suas mutações, como o têm sido ao longo da nossa história. O desaparecimento do «Ph», por exemplo, aproximando a língua da fonética, veio aparentemente simplificar a escrita. A ideia de uma simplificação deve estar na base, sempre, o que não é aqui o caso, pois só veio aumentar a confusão na forma como se escreve, havendo várias possibilidades para um mesmo caso. Os efeitos catastróficos fazem-se sentir sobretudo nas escolas, onde a imposição do seu uso (apressado) na avaliação tem gerado muita controvérsia, havendo, como se sabe, uma rejeição forte do AO, tanto entre os alunos como entre os docentes.

Por isso, a recente decisão de introduzir as correcções no AO pela parte de filólogos e linguistas, que já compreenderam as dificuldades suscitadas, parece-me bem-vinda. Como é bem-vinda a sugestão da não imposição obrigatória nas instituições enquanto o AO não estiver ratificado e implementado com propriedade (sabe-se que nos PALOP, por exemplo, houve países que ainda não ratificaram o AO). Já basta a confusão que grassa nas escolas e nos jornais, nos meios de comunicação, nas editoras portuguesas, etc.

A pergunta que podemos fazer aqui é: até onde se deve ir nas sugestões de alteração ao AO para acabar com o caos e a arbitrariedade? Associada a essa pergunta, surge outra: será o AO mesmo necessário? O debate sobre estas questões e outras subjacentes só poderá ser travado se houver a liberdade de pensamento e a lucidez para não se escamotear uma realidade problemática e sobretudo não a tornar refém de questões falaciosas como os hipotéticos traumas de alunos acostumados à actual imposição ortográfica.

Debater esta questão exige portanto disponibilidade para o diálogo de todas as partes.

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