Texto de Rosa Maria Martelo sobre a obra de Armando Silva Carvalho, “A Sombra do Mar”

Gostaria de felicitar vivamente Armando Silva Carvalho não apenas por este livro, A Sombra do Mar, agora muito justamente premiado, mas também por toda a sua obra; pela criação de uma poética muito singular, na qual a ironia sustenta uma atitude analítica e crítica que Armando Silva Carvalho soube articular com o intimismo, com a expressão da experiência sentimental e com a leitura da tradição poética, que lhe suscitou um diálogo criador. A Sombra do Mar representa um ponto muito alto numa poética sempre marcada pela coragem de ver — e de se ver a si mesmo — sem concessões ou facilitismos. Trata-se de um livro lúcido, às vezes duro, mas também terno e poderoso porque nos mostra desabridamente a nossa condição frágil, precária; um livro que nos confronta com a pobreza essencial da condição que é a nossa, inevitavelmente condenados de um modo ou de outro à perda e ao nada. Mas, por isso mesmo, este é também um livro que nos deixa uma profunda sensação de autenticidade. Foi Montaigne quem disse: “eu não pinto o ser, pinto o passar”. A sensação que nos deixa o livro de Armando Silva Carvalho é que nele se “pintam” rigorosamente as duas coisas.
Rosa Maria Martelo
29–11–2016

