
Desafio Julho
por Carlúcio Vieira
Eu, 1,82, 100 quilos, barba, pelos pelo corpo. Um verdadeiro urso.
Ele, filho da Bahia, cabelo afro, sorriso largo, braços fortes.
Eu, à beira-mar, desejava nada menos um apetitoso baião-de-dois, daqueles feitos com feijão de corda e muita pimenta.
Ele, o garçon, dispensava o baião, me convidava à sua tenda e, com a leveza de uma pluma, pôs sua mão sobre a minha.
Eu, ainda recluso em meus sentimentos, desconfiado que só, me deixei levar pelo sujeito.
Ele, sem esperar muito, beijava o meu pescoço e, como primeiro prato da noite, apostou em uma sarrada indomável.
Eu, sobre a mesa em que a chama se acendia, derrubava a canequinha com pudim que ele degustava — antes mesmo de me transformar em sua sobremesa.
Ele, um homem de tatuagem sobre toda sua pele, tirava sua caralha para fora, o que mais parecia, devido às suas proporções, o Farol da Barra.
Eu, via o medo tomar conta de mim. Era demais para um jovem ainda discreto, de tão pouca experiência com outros homens.
Ele, com intrujice, disse que não iria penetrá-lo.
Eu, como Bethânia, me via atormentada pelos meus desejos mais ardentes, que ali se concretizavam. Era como tirar o peso de um hipopótamo das costas e defenestrar os sentimentos que até então impediam que eu me deixasse esvair nos braços daquele rapaz.
Ele, sobre meu bucho, fazia daquela noite de fevereiro um momento que ia muito além de qualquer expectativa ou apetite.
Eu, tórrido como o forninho de Dona Canô, beijava ardentemente os lábios daquele homem que me fez sentir à pele de Tieta.
Ele, dono do meu suor e dos arrepios que iam do cóccix até o pescoço, se tornara meu eterno amante.
Eu, um bom Mineiro.
Ele, um bom Baiano.
Esse texto foi escrito para o Desafio de Retadores que acontece todo mês com todos os redatores da Hotmart.

