A assinatura do cinema sul-coreano

Luana Marino
Jun 3 · 8 min read

No embalo da pré-indicação de Burning ao Oscar 2019, preparei um textinho sobre cinema coreano — também produto da cultura local — , abordando sua popularidade atual não só entre o público, como também entre os críticos. Segue comigo!

Yoo Ah In, Jeon Jong Seo e Steven Yeun em cena do filme “Burning”

Geralmente, quem está acostumado apenas com a Dramaland toma um choque quando resolve assistir a um filme coreano. A diferença de linguagem é um abismo, e isso não apenas na forma de se contar a história: o texto é adulto, os atores ficam mais soltos e a censura é totalmente jogada de lado.

Sim, há muitas diferenças, porém tem-se percebido uma proximidade maior entre sétima arte e dramaturgia, ainda que tenhamos dois produtos muito bem definidos. A fotografia tem se destacado como ingrediente fundamental para o desenvolvimento da trama, e até profissionais que são “de cinema” estão se envolvendo com os dramas — vide as roteiristas de “Mother” e “Encounter”, como me lembrou a Jéssica Oliveira, do blog Além Do Que Se Vê. Chung Seo Kyung, que assina o texto do drama protagonizado por Lee Bo Young, por exemplo, tem no currículo nada menos do que vários filmes dirigidos por Park Chan Wook.

Essa aproximação entre cinema e TV, aliás, vem acontecendo desde a década de 1990, quando o diretor americano David Lynch revolucionou o formato com a série Twin Peaks, trazendo a linguagem cinematográfica para as telinhas. É uma tendência que vem sendo observada até mesmo nas produções brasileiras, e é claro que o mercado asiático não ficaria de fora (crédito pra Jéssica, que estudou cinema e me explicou a história!).

Vale ressaltar ainda que drama e cinema fazem parte da mesma cultura, e, na Coreia do Sul, suas popularizações também são reflexo da Hallyu que provocou esse boom coreano na Ásia e, depois, no resto do mundo.

A Hallyu e o início da popularização

Se fôssemos julgar apenas pela repercussão internacional, diríamos que o cinema coreano é relativamente novo. Na verdade, a visibilidade começou a partir dos anos 1990, sobretudo com o lançamento do filme Shiri (1999), longa de ação que traz o tema terrorismo e a guerra entre as duas Coreias. Para se ter uma ideia da popularidade do filme entre os coreanos, ele conseguiu desbancar nas bilheterias locais nada menos que o poderoso Titanic!

Shiri — Missão Terrorista (1999)

Mas por que o cinema sul-coreano demorou tanto para ter o devido reconhecimento, já que estamos falando de uma indústria que, na prática, existe desde 1919 (data do lançamento do filme “A detective’s great pain”)?

Não é uma resposta muito difícil quando se olha para a história do país. A Coreia sofreu uma grande repressão cultural durante a ocupação japonesa, período que durou 35 anos e só terminou com o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945. Ainda que o cinema local tenha vivido sua primeira Era de Ouro nos anos 50, o país ainda enfrentou a divisão de seu território em Norte e Sul e mais uma guerra, desta vez caseira. Foi preciso tempo até os então sul-coreanos finalmente se reerguerem e resgatarem a sua identidade através de suas representações artísticas — e aqui se leia música, literatura, artes cênicas e a sétima arte, claro.

Isso vai acontecer para valer no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Para quem chegou neste texto por causa do cinema, apenas, a Hallyu nada mais é do que a onda coreana que atingiu a Ásia e, depois, Europa e América nesta época. O investimento pesado na indústria de entretenimento foi uma estratégia do governo para reafirmar esses valores culturais e fazer o povo se orgulhar de sua própria história.

Na televisão, o marco desta onda foi a novela Winter Sonata (2002); no cinema, além do filme Shiri, “My Sassy Girl” (2001) é considerado o fio condutor do filão das comédias românticas.

My Sassy Girl (2001)

Esta segunda era de ouro do cinema coreano é marcada pela renovação dessa indústria cinematográfica, como explica Luiz Carlos Oliveira Junior em artigo publicado no livro “Cinema Mundial Contemporâneo” (PAPIRUS). Os fatores que contribuíram para esse boom foram: investimento de capital privado, a chegada de uma nova geração de cineastas, o estímulo aos festivais locais, cota para exibição de filmes americanos e o estabelecimento de um período mínimo de dias de exibição dos filmes nacionais nas salas de cinema do país.

Isso tudo fortalece a identidade do cinema coreano, sobretudo para sua própria população. O cinema local é um dos mais fortes do mundo, tanto que em território sul-coreano, os filmes nacionais costumam ser mais vistos até que os filmes americanos. Train to Busan (2016), por exemplo, contabilizou 75% da bilheteria local, ficando à frente de filmes como “Procurando Dory” (2016), da Disney Pixar.

A safra de diretores surgida neste período é uma das mais talentosas do cinema mundial, tanto que os filmes coreanos costumam ser destaques nos principais festivais internacionais de cinema, como Cannes, Berlim e Veneza. Park Chan Wook e seu clássico cult Oldboy (2003) trouxeram de vez as atenções para a Coreia do Sul. Em 2004, o filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, que só perde para a Palma de Ouro em importância. Ano passado, Burning (2018), de Lee Chang Dong, abocanhou o Fipresci no mesmo festival, que é o prêmio da crítica internacional; Pietá (2012), de Kim Ki Duk, ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Apenas alguns exemplos que ilustram o quão primoroso é o cinema sul-coreano.

Pietá (2012)

Que assinatura é essa?

Quem estuda cinema sabe que cada país possui uma, digamos, assinatura na sua forma de contar uma história. Temos, por exemplo, a Itália e o seu neorrealismo, a nouvelle vague francesa, o cinema Hollywoodiano, entre outras escolas cinematográficas, e cada uma trouxe para a sétima arte características que acabam, de certa forma, influenciando outras produções.

A escola coreana de cinema também possui a sua marca, ainda que seja formada pela mistura de gêneros já existentes. No geral, diante das produções que marcaram o cinema no final dos anos 90 e início dos anos 2000, podemos apontar alguns elementos como característicos do cinema da Coreia do Sul. Primeiro, estudiosos destacam a própria história marcada pela guerra civil como a força motriz da sétima arte, já que muitos filmes do gênero surgiram nesta segunda Era de Ouro. Há ainda um toque do característico exagero asiático, seja no gênero que for. Oldboy (2003), por exemplo, apresenta uma violência tão crua, tão gráfica em tela que choca, ao mesmo tempo em que traz em meio a todos aqueles símbolos reflexão sobre o lado obscuro do ser humano, tal como um filme de Quentin Tarantino.

Muitos filmes coreanos de sucesso de crítica, aliás, dão à violência certo protagonismo, e não é nada que se assemelhe ao que é visto em filmes americanos. Se em Hollywood estamos acostumados ao famoso “tiro, porrada e bomba”, a Coreia apela para outros métodos, de facas a martelos! Mas isso é explicado pelo fato de o país ser extremamente rigoroso com o porte de armas, portanto não faria muito sentido resolver tudo em um tiroteio.

Oldboy (2003)

No artigo “O protagonismo da violência no atual cinema sul coreano em 7 bons exemplos”, publicado no site “Obvious”, Gustavo Silva cita ainda a ausência de heróis ou de um tipo idealizado de ser humano. “Os protagonistas geralmente questionam e batem de frente com as questões da moral e dos bons costumes, ocupando lugares sociais extremamente marginalizados tanto no ocidente como no oriente”, diz o texto.

Jessica Gonzatto destaca em seu artigo “O cinema sul-coreano contemporâneo” que o cinema atual na Coreia do Sul é marcado pela preocupação com o realismo social. Os personagens desenvolvidos ocupam as classes trabalhadoras ou são estudantes radicais, e problemas como a urbanização, inquietação industrial e colapsos familiares compõem as tramas.

Conflitos atuais e que retratam o que é a Coreia do Sul nos dias de hoje estão sendo apresentados nos longas. Burning, por exemplo, aborda a questão do desemprego por meio de seu protagonista. Secret Sunshine (2007), também de Lee Chang Dong, usa a religião evangélica — que cresce a cada ano no país — para falar do luto. E outras tantas questões pessoais que são debatidas através da sétima arte, seja num filme dramático ou mesmo no terror “O Hospedeiro” (2006), de Bong Joon Ho, que parte de um fato real para, no fim, alfinetar o poderio norte-americano.

Secret Sunshine (2007)

A sétima arte é isso, um sem-número de possibilidades e formas de se contar uma história. Burning chegar entre os semifinalistas do Oscar 2019 só veio fazer justiça não apenas a Lee Chang Dong (era a terceira vez que um filme seu era escolhido para disputar uma vaga no Academy Awards), mas a todos os diretores que transformaram o cinema sul-coreano em um dos mais autorais já vistos atualmente.

E é apenas o início.

Onde assistir alguns filmes sul-coreanos citados no artigo:

Movie Asian Fansub: há vários títulos disponíveis para download, entre eles Burning e o clássico My Sassy Girl.

Subarashiis Fansub: também tem um catálogo bom de filmes. Train to Busan está lá!

Netflix Brasil: tem adicionado cada vez mais filmes coreanos (), lá é possível encontrar agora Invasão Zumbi (Train to Busan), Pandora, Flu, A Criada, dentre muitos outros.

Uma curiosidade sobre a escolha do longa para disputar o Oscar de melhor Filme Estrangeiro: quem escolhe é o governo de cada país (no Brasil, por exemplo, quem coordena é o Ministério da Cultura, por meio da Secretaria Audiovisual e da Agência Nacional de Cinema).

As indicações, porém, nem sempre agradam os críticos e cinéfilos. Em 2017, por questões políticas, o aclamado “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, perdeu a vez para “Pequeno Segredo” (David Schurmann). Na Coreia do Sul, a surpresa foi a não indicação do polêmico — e super elogiado — “A Criada”, de Chan Wook, à disputa do Oscar no mesmo ano. The Age of Shadows foi o representante sul-coreano, porém não ficou entre os selecionados.

Espero que tenham gostado! Até!


Atualização: Este texto foi publicado no antigo “Lu na Dramaland” na véspera das nomeações ao Oscar 2019. Burning, infelizmente, não ficou entre os indicados. Contudo, o cinema coreano segue entre os protagonistas da Sétima Arte, e na edição de Cannes deste mesmo ano, Bong Joon Ho conquistou a Palma de Ouro com o aclamado “Parasite”.


Fontes:






“De volta para o futuro: a nova era do cinema sul-coreano”, por Luiz Carlos Oliveira Junior — artigo do livro Cinema Mundial Contemporâneo

Luana Marino é jornalista há dez anos e fã de dramas asiáticos, sobretudo coreanos. Mas também é apaixonada por esportes (principalmente Fórmula 1), Bon Jovi e Game of Thrones.


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Blog que busca uma crítica além do óbvio da cultura pop asiática.

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Jornalista, revisora de textos, fã de dramas asiáticos, Bon Jovi, Game of Thrones e Fórmula 1!

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