Miss Hammurabi e o homem em desconstrução

Jéssica Oliveira
Oct 20 · 12 min read

Imagine minha surpresa quando vi o primeiro episódio de Miss Hammurabi (2018) e a história começa sendo narrada pelo jovem juiz Im Ba Reun (Kim Myung Soo), o que continua durante todo o episódio piloto. Algo que me deixou confusa, já que, todos os comentários, prints e memes que vi nas redes sociais sobre esse drama focaram na protagonista Park Cha Oh Reum (Go Ara).

Eu achei que isso mudaria ao longo da história, ou que os outros personagens viriam a dividir a narração, mas não é o que acontece — até o fim Miss Hammurabi é contado sob o ponto de vista do juiz Im. Há motivos para isso e não é um problema, pelo contrário: é um aspecto fundamental para este k-drama ser o que é. E é sobre isso que vou falar neste ensaio sobre o drama coreano de 2018 da emissora jTBC. Esse texto também terá trechos de conversas que tive com amigos e leitores do blog sobre aspectos abordados no drama. {Alerta para possíveis spoilers neste post}

Sinopse: Park Cha Oh Reum (Go Ara) é uma juíza recém nomeada designada para o 44º Departamento de Assuntos Civis no Distrito Central de Seul. Ela está sempre à procura de injustiça e é muito empática com os outros. Comparado a ela, Im Ba Reun (Kim Myung Soo) é um homem de princípios e cabeça fria, com o credo de que o ‘Tribunal é igual para todos’. Ele está descontente com a novata Park Cha Oh Reum, que abertamente se envolve emocionalmente com os casos civis. (Fonte: JTBC)

Moon Yoo Seok

O roteirista juiz

A maioria dos k-dramas são roteirizados por mulheres e o primeiro pensamento é de que isso não seria diferente com Miss Hammurabi tendo a protagonista que tem, certo? Entretanto, curiosamente, esse drama foi escrito por um homem, o roteirista estreante e juiz Moon Yoo Seok. Miss Hammurabi é a adaptação do livro de Moon Yoo Seok de mesmo nome, publicado em 2016 e que antes foi uma série publicada em jornal.

Só ao saber disso, minha mente começou a clarear a respeito da narração do drama ser de Im Ba Reun. Se essa é uma história baseada na própria experiência de Moon Yoo Seok no sistema judiciário sul-coreano, faz todo sentido que ele tenha optado por contar parte de suas vivências sob o olhar de outro homem, semelhante a ele. Ele não poderia contar a história como a própria Park Cha Oh Reum, não com a mesma honestidade, mas pôde contar sobre ela e para ela.

Eu já contei antes sobre LIFE (2018) no texto “Quando você é o seu maior inimigo” e como a divisão em narrações influencia nas múltiplas visões que teremos de uma história. E falei também da relevância disso na direção de fotografia, com Strong Woman Do Bong Soon (2017) como exemplo, no post “O que os olhos veem, o coração sente”, sobre vermos Bong Soon várias vezes pelo olhar apaixonado de Min Hyuk e o impacto disso na narrativa de admiração à heroína.

Então, não se engane, a história ser contada por Im Ba Reun na verdade amplifica mais ainda a presença de Park Cha Oh Reum no drama, porque acompanhamos de dentro para fora as drásticas mudanças de pensamento e comportamento pelas quais o jovem juiz passará após a convivência com ela. A moça está no título, a tal senhorita Hammurabi mencionada, mas ela mesma não teria noção do quão transformadora pode ser na vida dos outros, precisamos ver a história por alguém que a observa.

Não por coincidência, o outro co-protagonista é um homem mais velho. É quase como se Im Ba Reun e Han Se Sang (Sung Dong Il) fossem alter egos (alguém considerado uma segunda versão de si próprio) do roteirista Moon Yoo Seok. E também a percepção do escritor do que um homem mais jovem pode fazer em relação às mudanças na sociedade atual coreana, por meio dos personagens Im Ba Reun e Jung Bo Wang (Ryu Deok Hwan).

Kim Myung Soo e Ryu Deok Hwan

Dá para perceber que Moon Yoo Seok é iniciante porque o roteiro é muito didático e direto, Miss Hammurabi muitas vezes vai direto ao ponto e “pesa a mão” no melodrama, talvez por uma certa ingenuidade do roteirista principiante. Mas ao mesmo tempo, isso também é seu “charme” e o autor criou personagens extremamente verossímeis, provavelmente fruto de seus muitos anos como juiz. Os personagens são tão realistas que pensei diversas vezes que Moon Yoo Seok conheceu pessoas exatamente como aquelas e o drama seria baseado na própria experiência de desconstrução do roteirista.

A dinâmica entre Im Ba Reun e Park Cha Oh Reum

No episódio 4 temos um das minhas sequências favoritas em todo o drama (e responsável em grande parte pela ideia desta pauta) e uma das cenas onde a direção de fotografia se destaca, porque não há sequer uma linha de diálogo do protagonista, apenas flashbacks e a imersão do personagem em seus sentimentos e frustrações. Ao lembrar de toda a sua trajetória até aquele momento, adolescência e conflitos recentes da trama, o juiz Im é obrigado a reconhecer sua enorme indiferença para pequenos problemas e corrupções cotidianas (ao contrário do que Park Cha Oh Reum jamais faria). E vai além: sua reflexão o força a perceber seus próprios privilégios como homem, e como alguém naturalmente bonito e inteligente que nunca teve dificuldades para aprender ou se destacar.

“Já passei por situações (ainda passo um pouco) em que meu discurso e a minha opinião é tomada como mais relevantes que as de colegas e amigas do mesmo ramo, sob as mesmas circunstâncias que eu.” — Leo

Filmado no topo do prédio em plano sem perspectiva, onde o olhar do personagem fica no limite do quadro em situações de angústia. Porém, com todo um horizonte de possibilidades (e poluição) ao seu redor, ele só precisava enxergar. Eu adoro a direção de fotografia dessa sequência.
Aqui ele teve que encarar a realidade e tirar os fones de ouvido

“Hoje em dia, como adulto, eu consigo perceber várias vezes que tive privilégios por ser homem, quando era mais novo, infelizmente, não se falava muito sobre isso e muitas vezes aconteceu e pareceu normal.” — @botamaiskimchi

Sendo a sociedade coreana tão patriarcal é um método muito eficaz mostrá-la do ponto de vista de um homem jovem, porque não há quem necessite mais de transformações de percepção e comportamento do que eles, os homens. A pauta progressista do canal jornalístico JTBC deixa isso sempre bem claro. A mudança é ainda mais notável se é brusca e grande. Juíza Park é a que transforma, Juiz Im é o afetado. A história se torna ainda mais poderosa quando contada por ele, que sofreu as ações e as converte em reações, que irão nos contemplar e fazer vibrar até o fim.

mood

Logo que somos apresentadas ao personagem, além de indiferente, ele tem um enorme desdém pelas convenções, ao observarmos sua resistência em encontros às cegas, por exemplo. Por mais indiferente que ele fosse, nunca duvide da capacidade de um episódio piloto nos entregar desde o princípio a predisposição que alguém pode ter para sofrer mudanças.

Vale ressaltar como é fundamental o fato dos protagonistas serem jovens adultos. É muito simbólica a maneira como, no final do drama, o mais velho deixa o ofício e age como se seu trabalho ali estivesse feito e ele precisasse deixar o “palco” para os mais jovens, ainda cheios de energia e ousadia para realizar grandes feitos (numa sequência que me emocionou e deixou com “gosto de quero mais”). Atitudes e mudanças essas que acompanhamos em Miss Hammurabi e notamos o quanto há bases difíceis de demolir.

As cores de Miss Hammurabi

Eu adoro como Miss Hammurabi mostrava desde seus pôsteres de divulgação quem eram os seus personagens e qual era o propósito da história. Um indiferente In Ba Reun com um olhar vazio e fones de ouvido, como está diversas vezes no início do drama. Uma Park Cha Oh Reum de olhos brilhantes e tão vivos quanto a sua compaixão e determinação. Han Se Sang com um olhar paternal e cuidadoso, apesar de sua aparência mais descuidada se comparado aos demais juízes. Temos também o carismático Jung Bo Wang com seu olhar curioso e a bela e focadíssima Lee Do Yeon (Elliya Lee).

Percebam também como TODOS os pôsteres de Miss Hammurabi, assim como a paleta de cores do drama, são em tons de verde. Quem já leu meu outro texto “Something in the Rain e a psicologia das cores” sabe que o verde é uma cor associada ao crescimento, aprendizado, evolução, transformação. Ou seja, tudo aquilo que Miss Hammurabi mais evoca para seus personagens.

Amo a maneira como os personagens se completam perfeitamente, como são tudo o que o outro precisava, tudo o que o outro não viveu — porque afinal, somos fruto das nossas experiências. Não é coincidência o protagonista narrador ser um homem indiferente e inteligente, mas pobre, com uma família humilde e afetuosa. A juíza Park é proativa, combativa, mas é de uma família rica que faliu, ela vem da elite. Não é por acaso o juiz sênior ser alguém excluído e visto como agressivo pelos demais, ou o melhor amigo de Im Ba Reun ser quase seu oposto, agitado e irreverente, se contrapondo também ao interesse romântico dele que foge do julgamento alheio usando da indiferença, a maravilhosa Lee Do Yeon (Elliya Lee).

Diferenças de gênero, idade, classe social, geração e comportamento rodeiam nosso elenco principal. Eles são como um grande quebra-cabeça num processo de evolução conjunto.

Um exemplo é a diferença entre Park e Im, sempre tão literalmente visível que isso está presente desde que começam a trabalhar juntos, quando conhecemos suas diferentes visões sobre justiça e os quadros que cada um tem na parede do escritório. O quadro dela colorido e vibrante, já a pintura dele apenas numa escala de cinzas. Suas telas dizem quem eles são. Cha Oh Reum vê o mundo numa grande paleta de cores, representando a maneira ampla como ela enxerga a vida em que nos damos as mãos, enquanto Ba Reun enxerga apenas a ganância dos demais e vê tudo mais simples, preto no branco, e é também como ele acreditava que a justiça deveria ser — sempre implacável, direta e objetiva.

No entanto, conseguirá a justiça ser invariavelmente tão firme quando se trata de lidar com algo tão subjetivo quanto as pessoas?

A importância de Park Cha Oh Reum

Um nome grande e fora dos padrões coreanos foi dado a esta mulher impetuosa. É uma afirmação forte, e até cruel, dizer que ela não poderia ser uma juíza, o que é abordado no k-drama em uma cena bastante simbólica em que a única pessoa capaz de confortá-la é a única juíza sênior dentre todos os departamentos.

“A juíza Park é uma mulher incrível! Destemida e muito corajosa, pois vive em uma sociedade em que o patriarcado e machismo é mais cultural do que em outros lugares. Mas mesmo assim, ela não tem medo de lutar pra ver as mudanças que ela tanto deseja.” — Ícaro

Juíza Park faz de Im um juíz com uma visão de mundo mais ampla ao tirá-lo da zona de conforto, ela é muito mais do que apenas um interesse romântico quando ele vê o que ela pode fazer pela sociedade. Im Ba Reum aqui é um homem que observa o mundo se metamorfosear pelas ações de uma mulher inconformada com o status quo. Além do fato de que, nesta história, a justiça não funcionava nem dentro do tribunal e ninguém se importava com isso. Hipocrisia? A arte imita a vida?

Um prédio imponente e, as vezes, visualmente opressor

“Srta. Park é um recorte muito inteligente da sociedade. O roteiro soube mostrar o poder do olhar dela para o mundo e os defeitos dele. Além disso, nos guiou para um percurso de amadurecimento onde ela VÊ e SENTE todas as dificuldades do machismo e sofre com elas, mas sem se dar como vencida. Creio que seja importante para as mulheres (e para homens que podem estar de olhos fechados) ter contato com um personagem que não é totalmente poderoso e que ‘derrota os inimigos um a um’.” — Leo

Um amigo uma vez me disse que precisam existir pessoas radicais para que as outras pessoas sejam ouvidas. Isso acontece em Miss Hammurabi, quando uma antes complacente juíza assistente e amiga de Park Cha Oh Reum, finalmente toma coragem e expõe os abusos que passou com seu juiz sênior e chefe, gerando uma reação em cadeia de denúncias. Ela não é a única, Park muda a vida de todos ao seu redor, por mais irracional que ela pareça diversas vezes e precise ser freada.

“Ela tem a garra, mas o muro social a ser vencido se mostra sempre maior do que ela consegue escalar sozinha. Todo mundo precisa de apoio, e ela entende isso durante o drama. Mesmo assim, esse processo de construção que ela se submete afeta TODOS ao redor. É importante mostrar como há pessoas que prezam pela zona de conforto, e COMO é especial para o ser humano perceber que sair dela gera crescimento pessoal.” — Leo

A história ser contada do ponto de vista de Ba Reun não diminui a força de Cha Oh Reum, pelo contrário, amplifica. Ao vermos a transformação de uma pessoa privilegiada e conformada em relação às leis e como funciona o mundo, percebemos melhor ainda as mudanças acontecendo. Mudanças que podem não ser tão significativas para todos, mas para um juiz são, e muito!

“Eu acho que pessoas iguais a Juíza Park precisam sim de visibilidade. Essas pessoas causam desconforto por pensar diferente e essa é a melhor agulha. Então, não enxergo como um problema. Mesmo que eu tente, eu nunca vou saber o que é precisar de representatividade, saca? Olha aí um privilégio” — Pedro

“Olho por olho, dente por dente” diz o código de Hamurabi. Não se espera que pessoas como a Park ocupem espaços jurídicos que pedem tanta racionalidade e imparcialidade. Você pode até pensar, como a própria Park pensou, que ela não era digna desse ofício. Mas não é por acaso que essa história é focada em pessoas com tanta responsabilidade nas costas. Em contraponto aos casos civis tão mundanos e frágeis com que esse drama lida, temos do lado oposto pessoas que podem fazer algo, basta querer e tentar. O fato de todos estarem no extremo limite da responsabilidade humana é o cenário perfeito para transformações, porque são pessoas altamente influentes nas decisões da sociedade.

Uma cena de apertar o coração e uma sequência de quadros que eu adoro, que termina com uma Park não mais sozinha e os dois lado a lado

Não acredito que homens como In Ba Reun sejam maioria em lugar nenhum, sendo sincera. Mas acredito em Park Cha Oh Reum. Ela precisa existir para que pessoas indiferentes com grandes responsabilidades se mexam mais. Precisamos que existam as Park para que tenhamos mais os Im Ba Reum.


Onde assistir “Miss Hammurabi”: Viki e Kingdom Fansubs.

Meus mais sinceros agradecimentos aos meus leitores, amigos e apoiadores do blog no Apoia.se, que colaboraram comigo neste post por meio de conversas, entrevistas e os trechos que estão espalhados pelo texto. Vocês foram os meus Im Ba Reun ❤


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Blog que busca uma crítica além do óbvio da cultura pop asiática.

Jéssica Oliveira

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Jornalista, fotógrafa, beatlemaníaca, fã de ficção científica e Sailor Moon. Escrevo sobre cultura pop asiática no medium.com/blogadqsv e no blog.kocowa.com

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