Mr. Sunshine: o épico sobre a busca da identidade

Luana Marino
Aug 10 · 10 min read

Não é exagero nenhum dizer que Mr. Sunshine é um dos melhores dramas já feitos no mercado asiático. O épico de guerra da tvN protagonizado por Lee Byung Hun e Kim Tae Ri chegou até o público no Brasil por meio da Netflix — o que acabou se tornando uma oportunidade para que pessoas que não estão familiarizadas com dramas coreanos conhecessem mais essa forma tão única de se contar uma história.

E a Netflix investiu pesado para ter exclusividade: os direitos de transmissão foram adquiridos pela plataforma de streaming por cerca de R$ 10 milhões.

Mas o que faz de Mr. Sunshine tão incrível a ponto de arrebatar até mesmo pessoas que nunca viram um drama asiático sequer na vida?

Eugene e Ae Shin ❤

Mr. Sunshine (2018)
Emissora: tvN
Transmissão: 7 de julho a 30 de setembro (24 episódios)
Gênero: épico, melodrama, romance
Elenco principal: Lee Byung Hun, Kim Tae Ri, Yoo Yeon Seok, Kim Min Jung, Byun Yo Han

Não há muito mistério nesta resposta. Primeiro, o espectador é conquistado de cara pela fotografia deslumbrante. O episódio piloto, por exemplo, é uma pancadaria visual de deixar qualquer fã de diretores do calibre de Yimou Zhang enlouquecido (esta que vos escreve, por exemplo). E a série mantém a mesma pegada do início ao fim.

A alta qualidade técnica de Mr. Sunshine, aliás, justifica o orçamento de cerca de 36 milhões de dólares em toda a produção. É o que pode se chamar de dinheiro muito bem investido, pois o resultado final foi perfeito. Direção, edição, fotografia, trilha sonora, tudo foi muito bem construído, e a história flui de um jeito que você não sente os mais de 70 minutos que cada episódio possui.

Mas Mr. Sunshine é muito mais que um belo pacote. Aliás, devo dizer que o que mais envolve no drama é aquilo que nós, dorameiros, já estamos mais do que acostumados: a qualidade do seu texto somado às interpretações dos atores.

A história de Mr. Sunshine se sustenta muito bem ao longo dos seus 24 episódios graças a cada um dos cinco personagens principais: Eugene Choi/Choi Yu Jin (Lee Byung Hun), Go Ae Shin (Kim Tae Ri), Gu Dong Mae (Yoo Yeon Seok), Kudo Hina/Lee Yang Hwa (Kim Min Jung) e Kim Hee Sung (Byun Yo Han). Cada um possui a sua trajetória de dor em meio a uma Joseon (antigo nome da Coreia) que sonhava com a sua independência. E essas trajetórias vão se cruzar de várias maneiras diante dos nossos olhos e nos deixar com o coração na mão por cada um.

Mr. Sunshine vai muito além de sua arrebatadora fotografia

Há muita coisa para se falar, então vamos por partes para que nada fique muito cansativo.

Uma Joseon ferida que luta até o fim

Não que seja necessário entender o período histórico para acompanhar a trama de Mr. Sunshine. O roteiro de Kim Eun Sook, rico em detalhes, é muito claro e de fácil assimilação, e além do mais, o estilo narrativo coreano, recheado de flashbacks, contribui e muito para que o espectador não fique perdido em meio a tantos personagens importantes.

Contudo, preparei uma breve linha do tempo para auxiliar na cronologia dos fatos (fiquem tranquilos que não há spoilers).

Primeiro, uma coisa importante: a série vai mostrar de maneira muito clara como se deu a época do imperialismo na Ásia (Imperialismo é quando uma nação mais poderosa quer tomar o controle e exercer influência, seja cultural, por exemplo, sobre uma menor. Neste contexto, o ocidente, no embalo da 2ª Revolução Industrial, expandia suas fronteiras e estava de olho no mercado asiático).

Mas o que este fato tem a ver com a Coreia nessa história? Simples: o Japão, que na chamada Era Meiji, em 1867, começou a sofrer profundas mudanças econômicas e políticas por conta do capitalismo vindo do ocidente, àquela altura era a nação mais desenvolvida da Ásia, e também adotou a política imperialista. Quem passou a ser o seu principal alvo de dominação por uma série de razões (entre elas, ter carvão e minério em suas terras)? Sim, Joseon.

Cena da Batalha de Caney

1871 — É aqui que a série começa. Este ano marca a expedição americana na Coreia, e a série mostra cenas da batalha travada nas Ilhas Ganghwa (que apresenta o artilheiro Jang ainda jovem). É quando o pequeno Eugene foge para os Estados Unidos.

1894 — Reforma Gabo (série de reformas sugeridas ao governo da Coreia, entre elas, o fim da escravidão). Este fato também é bem demonstrado no drama com os personagens Il Sik (Kim Hyung Chul) e Choon Sik (Bae Jung Nam), caçadores de escravos.

1898 — A Batalha de Caney, durante a guerra hispano-americana, onde Eugene salva seu amigo Kyle. Nos é mostrado um trecho deste fato histórico, pois é justamente por este ato que o nosso protagonista será enviado para sua terra natal, Joseon.

1902 — O ano em que Eugene retorna para Joseon como membro da legação americana (legação é uma missão mantida por um determinado governo em um país onde ele não possui embaixada).

Pesquisando sobre este período histórico, pude compreender melhor a mágoa que ainda existe no povo coreano com respeito aos japoneses. Este capítulo da ocupação japonesa é terrível, como toda guerra é. Como disse uma vez no Twitter, Mr. Sunshine é um épico de guerra, e a guerra mata. Sem dó.

A complexidade de cada personagem: o ponto alto de Mr. Sunshine

Tenho de rasgar seda para a Eun Sook, porque esta mulher tem o dom de escrever personagens densos e cativantes. Dos protagonistas, passando pelos coadjuvantes e até as participações (mais que) especiais no primeiro capítulo (refiro-me a Kim Ji Won e Jin Goo, fazendo os fãs de DOTS surtarem!), cada um que passou pela tela foi marcante a sua maneira.

O que mais chamou a minha atenção, porém, foi como a identidade de cada um foi desenvolvida. No protagonista Eugene Choi, por exemplo, o conflito com a sua identidade foi muito bem trabalhado. Filho de escravos, fugiu para a América ainda menino, mas foi vítima da xenofobia durante sua infância e adolescência. Ele só consegue superar o bullying quando decide ser como um americano (uma cena cheia de significado, aliás).

A jornada de Eugene em busca de sua identidade é maravilhosamente desenvolvida

Agora, perceba: COMO, pois ele será confrontado o tempo inteiro sobre sua verdadeira nacionalidade — os de Joseon sempre vão se referir a ele “como um de nós”, pela sua aparência física asiática. Ele, no entanto, se apresentará como americano, embora a repetição em tal fala possa sugerir que o próprio Eugene sempre tentava convencer a si próprio da nacionalidade do país que o acolheu. Mas ele sabia quem era, um coreano.

O conflito de identidade fará Eugene questionar os seus próprios interesses na legação americana em Joseon em vários momentos, sobretudo quando conhece Ae Shin. Ela é o seu completo oposto, nobre e patriota a ponto de pegar numa arma e matar o inimigo sem pena para defender seu país — país este que Eugene despreza, pois nasceu escravo nele.

Eugene e Ae Shin viverão, em meio a todos estes conflitos, o que considero uma das mais belas histórias de amor que já vi em dramas. E quero também enaltecer o trabalho dos atores, que em poucas expressões conseguiam passar para nós todo o sentimento que transbordava em cada um dos seus personagens. Os olhares eram mais intensos que qualquer cena de beijo, e isso também é mérito da direção do drama.

Kim Tae Ri e Lee Byung Hun em cena

Também compondo o quinteto principal, temos Kudo Hina. Ela também tem sua identidade em conflito, pois nasceu coreana (seu verdadeiro nome era Lee Yang Hwa) e foi forçada a se casar com um japonês. Dona do Glory Hotel, é do tipo que sempre defende seus próprios interesses em primeiro lugar, mas isso não faz dela uma egoísta insensível, pelo contrário. É puro instinto de sobrevivência. Hina destaca-se por sua inteligência e audácia, sendo uma das personagens mais cativantes do drama.

Aqui podemos citar também a sororidade e o senso de justiça de sua personagem, que em vários momentos se colocará como protetora das mulheres que estarão ao seu redor. Hina, te amarei eternamente!

Hee Sung começou tímido, com jeitão de bon vivant, mas foi, sem dúvida, o personagem que mais cresceu e com quem eu mais me identifiquei na reta final. Em muitos momentos, representou a veia cômica, mas esteve longe, muito longe de ser um bobo de frases de efeito. Assim como os demais, ele também possuía os seus próprios conflitos, e aqui se leia o passado de seus pais e que envolvia Eugene. Sua virada começará no momento em que descobrir a sua própria — ela novamente — identidade e missão em meio a toda tensão em que Joseon vivia. Eun Sook, parabéns pelo desenvolvimento dele!

Hee Sung e Hina

E agora, falemos do meu personagem favorito: Dong Mae. Se Mr. Sunshine teve personagens ricos e complexos, o de Yeon Seok puxou a fila. Assim como Eugene, Dong Mae nasce numa realidade cruel na Coreia: filho de açougueiros (naquela época, os açougueiros eram do mesmo nível social dos escravos, pois este era um ofício considerado degradante). Vendo os pais serem humilhados de todas as formas, o jovem Dong Mae cresce e torna-se um homem cujas atitudes responderão os interesses de quem lhe pagar mais, e isto de certa forma lhe dava poder.

Dong Mae é empurrado para um destino que ele sabe que não pode mudar. Torna-se líder da Sociedade Musin, parte da máfia japonesa — e aqui cabe uma ressalva, pois o personagem gerou muita polêmica entre os coreanos (até petição contra o drama foi feita), já que a sinopse original o apresentava como pró-japonês, e a produção foi acusada de romantizar tal fato.

De fato, o personagem foi mudado, e só posso dizer muito obrigada por isso, porque sofremos junto com Dong Mae em cada episódio todas as lutas que ele travou contra seus próprios demônios. Por mais que seu destino já estivesse traçado, a sua jornada na série nos permitiu acompanhar um homem extremamente machucado em busca de sua verdadeira identidade.

Sim, na guerra, há de se escolher um lado. E, ao final, a folha ao vento finalmente encontrou o seu lugar. Dong Mae, meu coração é todo seu!

Yoo Yeon Seok roubou a cena (e o coração de TODAS as dorameiras nesse drama!)

Agora quero dedicar algumas linhas ao Exército dos Justos, este grupo maravilhoso liderado por Hwang Eun San (Kim Kap Soo), que ajudou o jovem Eugene a fugir para os EUA. O exército existiu, de fato: durante o longo período de invasão e ocupação japonesa, de 1890 a 1945, integrantes da guarda imperial, estudiosos confucionistas e até pessoas simples do campo formaram mais de 60 sucessivos exércitos para lutar pela liberdade coreana em Joseon.

Apenas uma coisa os movia: a esperança de ver sua pátria livre, e não importava se isso custaria a própria vida. O Exército dos Justos pode ser definido por uma única frase de Ae Shin: “Eu quero queimar brilhantemente e depois apagar como uma chama”.

A jornada deste grupo foi, sem dúvida, a mais emocionante. Não poderia deixar também de citar o artilheiro Jang (Choi Moo Sung), mestre de Ae Shin, que nos presenteou com cenas belíssimas em todo o drama. Outro também marcado profundamente pela guerra, e que achou a sua identidade naquilo que mais o machucava. Que trabalho primoroso na construção deste personagem!

ESSA CENA!

Mr. Sunshine registrou a maior audiência de um drama de estreia na tvN, uma emissora paga. O primeiro episódio acumulou uma média de 8,9% a 10,6%, ficando em primeiro lugar em seu horário, incluindo os programas da emissora pública. O último EP marcou impressionantes 18,1% e 21,8%.

Considerações finais

Mr. Sunshine é um drama para ser apreciado sem pressa nenhuma, e isso não é pela sua longa duração. Tudo é tão intenso e tão bem produzido que merece ser visto com calma. Acredito que até os que não são fãs de dramas épicos irão se apaixonar pela jornada de autodescoberta de Eugene e por cada um dos maravilhosos personagens que passaram por sua vida.

Quem quiser assistir, tem na Netflix, Kingdom fansub, Fighting fansub (se eu souber de mais algum, atualizarei).

E muito, muito obrigada a você que chegou até aqui. Foi um prazer escrever sobre esse drama maravilhoso!

Deixo de bônus a trilha sonora, encantadora!


(Os direitos autorais sobre essa obra pertencem à emissora coreana tvN e Netflix)

Fontes:
Las Tetas Furiosas
Korea Post
Korea Post 2
Mundo Educação
WikiPedia

Luana Marino é jornalista há dez anos e fã de dramas asiáticos, sobretudo coreanos. Mas também é apaixonada por esportes (principalmente Fórmula 1), Bon Jovi e Game of Thrones.


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Blog que busca uma crítica além do óbvio da cultura pop asiática.

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Jornalista, revisora de textos, fã de dramas asiáticos, Bon Jovi, Game of Thrones e Fórmula 1!

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