O filme que você sempre viu como você nunca viu

Mais que uma resenha, um apelo: vão ver Asiáticos Podres de Ricos nos cinemas

Nem eu sabia que ia escrever essa resenha, é tão brinde de kinder ovo para mim quanto para vocês, leitores. Mas precisei dessa aparição relâmpago para fazer um apelo enquanto é tempo: vão assistir Podres de Ricos!

Sinopse:

Rachel Chu é uma professora de economia nos EUA e namora com Nick Young há algum tempo. Quando Nick convida Rachel para ir no casamento do melhor amigo, em Singapura, ele esquece de avisar à namorada que, como herdeiro de uma fortuna, ele é um dos solteiros mais cobiçados do local, colocando Rachel na mira de outras candidatas e da mãe de Nick, que desaprova o namoro.

Eu não precisaria de desespero para panfletar esse filme de norte a sul do meu país internet se não tivesse notado uma divulgação tão fraca da maior bilheteria do verão norte-americano. E se não tivesse lido tantos depoimentos nas redes sociais do blog, muitos de fãs do livro que originou o filme, que sequer tiveram a chance de tentar ver o longa porque não foi e provavelmente nem vai para a cidade deles. Como não veio para onde moro aproveitei uma viagem de feriado a capital e assisti, onde só tinha uma sessão às 22h num único cinema. Então o apelo é para aqueles que se têm a oportunidade, irem ver no cinema (me corta o coração escrever isso).

Trailer:

Motivos preliminares

Mas Jéssica, por que gastar meus golpinhos se posso usar a pirataria no conforto da minha casa? Talvez você me pergunte, mesmo que o filme esteja na sua cidade. E eu digo:

1) A sala de cinema é para mais do que assistir um filme, é uma experiência, sensorial e coletiva. Tenho certeza que se eu tivesse visto Dunkirk (2017) primeiro em casa, eu não sentiria como se estivesse levando um tiro na guerra ou recebendo na cara água do mar bombardeado. Ou não teria uma multidão para aplaudir comigo Bohemian Rhapsody (2018).

2) São raras as vezes que um filme totalmente de cunho asiático chega aos nossos cinemas e o meu leitor fã da cultura e do nicho poderá comprovar. Por isso temos que recorrer aos fansubs, porque esses produtos culturais não chegam para nós dos jeitos convencionais — esse filme veio. Inclusive, os produtores recusaram uma oferta milionária da Netflix em prol do impacto no cinema e na cultura.

3) Crazy Rich Asians é um filme bonito para caramba! Vale cada centavo do seu potinho de moedas ver no cinema, admirar todas aquelas cores, exuberância e riqueza cultura na telona. Eu fiquei boquiaberta. A adaptação do livro best-seller¹ de Kevin Kwan soube se moldar perfeitamente para uma mídia altamente visual, que te pega pelo que você vê e escuta (que trilha sonora maravilhosa), ao usar toda a beleza que a cultura asiática pode nos proporcionar.

Nunca mais vou ouvir Can’t help falling in love do Elvis do mesmo jeito depois dessa cena

A chegada do filme

Apesar de ainda não ser uma leitora da série de livros — pode ter certeza que agora vou ser — esperei ansiosamente o filme desde suas divulgações preliminares e até o trailer que saiu em abril! Foram meses aguardando e demorou tanto que confesso que quando vi a oportunidade de assistir fiquei surpresa pela chegada do filme.

Sobre a divulgação, a pergunta que me fica é se não souberam usar todo esse tempo a seu favor aqui no Brasil, só encontrei dezenas de resenhas do livro no YouTube, o qual tem um público alvo diferente do filme. Ou será que foi tanto tempo que o hype do filme esfriou? Mas acredito que tenha sido só descaso mesmo.

Mesmo que eu ainda não tenha lido o livro, algo é claro de imediato: se trata de uma história com bons personagens. Quando a base já é sólida e dá munição para um roteiro coeso, já é um passo e tanto para o sucesso. E em Crazy Rich Asians, no Brasil traduzido apenas como Podres de Ricos, além de uma boa história, é um marco representativo. Acho justo que o filme tenha sido um enorme sucesso nos Estados Unidos — Warner Bros Pictures Brasil ajuda a gente para ser sucesso aqui também, por favor.

Acompanhei um pouco o engajamento da equipe do longa e vi cada história linda. Chorei com o diretor Jon M. Chu que mandou uma carta emocionante para Chris Martin (Coldplay) pedindo os direitos da música Yellow para usar na trilha sonora da adaptação. Ou como admiro a intérprete da protagonista, Constance Wu, desde que traduzi uma matéria sobre asiáticos americanos em busca de visibilidade e descobri o quão ativista ela é de seus direitos de lugar de fala². Uma fada.

Constance Wu dona do meu coração sim

Sabe quando você ama aquele trabalho que fez e quer sair mostrando para todo mundo? Vejo isso em cada compartilhamento nas redes sociais da equipe do filme Podres de Ricos. Orgulho e determinação que fizeram comunidades inteiras de descendentes se organizar para fazer dele um sucesso ao comprarem e doarem ingressos do filme para jovens asiáticos assistirem. Algo que no Brasil só a igreja evangélica faz com os filmes do canal Record do Edir Macedo.

É uma comédia romântica, mas não somente

Mesmo com a grande ênfase a questão de representatividade étnica, esse não é o único apelo da obra, de forma nenhuma. A adaptação consegue se moldar ao que há de mais massificado em produto hollywoodiano que busca uma linguagem o mais universal possível. Em essência é a história de comédia romântica de Cinderela que assistimos várias vezes ao longo de nossas vidas. Mas em Podres de Ricos o contexto é tudo, ele renova um gênero que em Hollywood está em baixa atualmente, a partir do pacote cultural diferente de tudo que vimos antes no cinema norte-americano.

Em outros aspectos, Podres de Ricos conquista facilmente quem ama doramas asiáticos, já que vemos muitos clichês dos quais estamos acostumados e alguns, amamos! Como apresentar um personagem masculino galã numa cena de banho — ótima introdução aliás, porque será só isso que se salva nele, o corpinho, já que é um embuste. Embuste bonito, outro clichê dos doramas, é bem comum assistirmos um dorama xingando um personagem enquanto admiramos sua aparência, rs.

Um meme de Cinderella and the four knights (2016) meramente ilustrativo

Muito me encantou a trama secundária da prima de Nick, Astrid (Gemma Chan). Recomendo que prestem muita atenção na primeira cena dela e numa das últimas, e toda a simbologia no final por meio de uma simples cena sem falas com um par de brincos. Não sei como é no livro, mas no filme souberam usar bem o bastante o poder da imagem para nos dizer só por nos mostrar. Mostrar uma mulher incrível que vemos logo no início ser mais valorizada por um desconhecido que lhe vende joias do que pelo próprio marido. Uma mulher que irá recuperar seu amor próprio e vamos aplaudir com orgulho.

Astrid bem bonequinha de luxo

O conto da Cinderela está entre nós, mas não exatamente porque Rachel Chu é muito pobre, ela é uma professora bem-sucedida de economia. Acontece que nosso príncipe da Ásia, Nicholas Young, é rico demais! O título já entrega isso.

Mas claro, nossa protagonista irá sofrer por ser a “pobre Cinderela”, já que outro clichê recorrente em doramas e vezes deplorável é o da mãe rica megera, que na adaptação até aceito como colocam porque ao meu ver o comportamento de Eleanor Sung-Young (Michelle Yeoh) é humanizado dentro do que o filme permite em duas horas.

Eleanor Sung-Young (Michelle Yeoh), Nick (Henry Golding) e Rachel (Constance Wu)

Não achei Eleanor uma pessoa puramente má, mas fruto das circunstâncias. Situações essas que já pincelei no meu texto sobre mães nos doramas e animes, de como na cultura asiática o matriarcado é forte, mas para servir o patriarcado e manter suas estruturas funcionando. São relações complexas de uma cultura tão machista quanto a ocidental, mas com suas próprias “regras”. Esse código de conduta não escrito rege mulheres que comandam famílias e tradições com mãos de ferro, o que eu não acho que faça delas mulheres menos fortes (alô sororidade e empatia).

A avó matriarca Shang Su Yi (Lisa Lu)

É tão bacana como contrastam a estrutura familiar tradicional do Nick com a de Rachel, criada por uma mãe solteira na América e que mesmo sozinha fez da filha a pessoa forte e carismática que amamos na história.

Aliás, a diversidade não está só para nós termos agora a comédia romântica fazendo sucesso com outros rostos que não brancos, está na variedade de histórias, de vivências, de tipos de famílias, de personalidades e sexualidades, de aparências! Se tem uma coisa que esse filme faz é acabar com a impressão equivocada de que asiático é tudo igual. Vemos toda uma cartela de possibilidades de corpos, traços e tons de amarelo. Viva a melanina asiática! Meus seguidores no Twitter sabem como eu amo exaltar uma.

O elenco de Podres de Ricos é composto por pessoas de Taiwan, Reino Unido, Japão, China, Malásia, Filipinas, Estados Unidos, Austrália e Singapura.

Identidade étnica

Asiáticos Podres de Ricos não é uma história que represente todos os asiáticos, exibe uma minoria muito rica e chineses de Singapura e Taiwan, mas é um bom começo. O turismo de Singapura agradece, tenho certeza. Fiquei com vontade de conhecer aquele lugar deslumbrante depois de ver na telona. Como até descendentes brasileiros confirmam nessa matéria do Buzzfeed, há detalhes comuns a toda comunidade asiática, desde preparar a comida juntos, até o fato de que asiáticos não vão curtir muito se você mal o conhece e chegar abraçando — essa uma observação minha, tem uma mancada dessas da Rachel que já vai abraçando a sogra na primeira vez que a vê.

Vivemos escutando por aí dos que querem minimizar o discurso de minorias menos representadas de que isso não é necessário porque somos todos iguais. Balela. Exaltarmos nossa identidade étnica e diferenças não é se dizer melhor que o outro, é só sobre nos sentirmos mais completos e confiantes sobre quem somos no mundo, ao afirmarmos todas as peculiaridades que nos fazem únicos, não melhores.

Eu me identifiquei com as questões enfrentadas pela sino-americana Rachel Chu, só pela experiência que tive de crescer numa região do país diferente de onde nasci e depois adulta retornar a minha região de origem. O choque cultural inicial que tive dentro do mesmo país assim como a Rachel teve em diferentes continentes do globo pode ser um processo dolorido de primeira, mas te garanto que não há nada mais libertador do que a chance de descobrirmos os pormenores que fazem de nós quem somos e encontrar aquilo que nos preenche.

É como montar finalmente um quebra-cabeças que sempre esteve com peças faltando. Que com todas as diferenças e dificuldades, eu encontrei e Rachel encontra, ao se apaixonar por Nick e enfrentar o mundo que parece de outros, mas que por direito, também é o dela.

E assistirmos juntos esse desbravando de identidades e lugares de fala não é chato, na verdade tem sido um sucesso, e de bilheteria. Super heroínas femininas não dão dinheiro? Caô. Todas as quebras de recordes que Mulher Maravilha (2017) e Star Wars: O Despertar da Força (2015) obtiveram, comprovam que as mulheres arrasam sim. Pantera Negra enaltece toda a beleza e força que a cultura afro tem e foi outro sucesso estrondoso — e um dos melhores filmes da Marvel na minha humilde opinião, não é sempre que choro por um vilão num blockbuster fantasioso de heróis, na verdade é bem raro acontecer (aí, Killmonger).

Representatividade por traz das telas. Da esquerda para direita: o diretor de Podres de Ricos, Jon M. Chu. Patty Jenkins, diretora de Mulher Maravilha. Ryan Coogler, diretor de Pantera Negra.

Contudo, Podres de Ricos não precisou de lugares vindos de sonhos utópicos como Themyscira e Wakanda. Por mais exagerada que seja a Singapura podre de rica, é o mundo real e acho muito pertinente que o filme que exalta asiáticos nos cinemas seja uma comédia romântica, combina perfeitamente com o atual momento de popularidade da cultura asiática com os doramas, por exemplo. Sem falar que é uma ótima maneira de fugir daquele estereótipo de chineses em filmes de artes marciais e kung-fu, já estava mais do que na hora de irmos além do Jet Li e Jackie Chan, adoro seus filmes e tantos outros clássicos como O Clã das Adagas Voadoras (2005) e O Tigre e o Dragão (2001), mas a China é plural, a Ásia é plural.

Ah, e o filme é muito divertido, porque, bem, é uma comédia romântica. VLW FLW!


Glossário
1. Best-seller: livro que é sucesso de vendas.
2. Lugar de fala: conceito que representa a busca pelo fim da mediação. A pessoa que sofre preconceito fala por si, como protagonista da própria luta e movimento. É um mecanismo que surgiu como contraponto ao silenciamento da voz de minorias sociais por grupos privilegiados em espaços de debate público.


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