O nascimento de uma mãe — um olhar sobre Mother

Luana Marino
Jul 16 · 6 min read

Atenção: este texto contém revelações sobre o desfecho da trama

“Tem gente que pensa que só se pode ser mãe se você gerar uma criança no seu ventre. Mas uma mulher se torna mãe quando ela dá tudo de si e se dedica completamente a uma criatura menor.” — Cha Young Shin

Mother e sua fotografia incrível

O que significa ser mãe?

Há um ditado que diz que toda mulher nasce para ser mãe, pois é um instinto natural feminino e que, mais cedo ou mais tarde, o relógio biológico cobra um filho. Dependendo do país, política ou religião, não é exatamente o corpo quem cobra, mas a sociedade num todo, sempre pronta a atirar pedras em quem vai contra o padrão imposto.

A verdade é que, na teoria, a maternidade é algo lindo. Mulheres que ainda não são mães — e homens também, sejamos francos — se encantam com aquelas gracinhas típicas de um bebê, como as palavras trocadas, os passos desengonçados, a interação com os bichos de estimação, as caretas ao provar algo novo. Mas como isso é algo muito natural, se uma mulher sem filhos começa a brincar com um bebê e recebe um sorriso de volta, ouve em seguida a pergunta “e quando virá o seu?”.

A sociedade ainda pressiona de forma absurda a mulher quando o assunto é a maternidade. Mulheres que escolhem não ser mães são julgadas como egoístas, enquanto aquelas que têm, mas se arrependem, são ditas insensíveis. A verdade é que nem todas as mulheres estão prontas para serem mães. E as que se tornam, nunca serão iguais as outras. O conceito de mãe vai muito além de colocar um filho no mundo.

Quanto a isso, o drama Mother (2018) é magistral, pois seu texto aborda de maneira sensível todos os possíveis tipos de mães, incluindo aquelas que se arrependeram.

A atriz Ko Sung-Hee (Ja Young)

“Me inocentar não é o que importa. O importante é que as pessoas me entendam.” — Ja Young

A desilusão, então, se transforma em ódio, e é descontado na filha. As atitudes de violência contra a criança não se justificam, é claro. Muitos pensariam, assim como eu pensei “então por que não deu a menina para a adoção?”. Ou talvez, aos que concordam, “por que não abortou?”. Trazer um inocente à vida e tratá-lo de forma desumana é muito mais cruel, e não se pode amenizar em nenhum momento o crime cometido por ela.

Mas ali, naquela maternidade, me permiti ser Ja Young e entender o sentimento de alguém que se vê obrigada a ser mãe e não possui instinto nenhum. Entendam, o SENTIMENTO, não o crime. As atitudes dela foram as mais baixas possíveis. Ela nunca foi mãe de Hye Na e nunca seria mãe de criança nenhuma. Cadeia foi o fim óbvio e merecido.

“Antes de perceber, eu me tornei uma mãe, e Hye Na se tornou minha filha.” — Soo Jin

Soo Jin (Lee Bo Young) e seu nascimento como mãe ao encontrar Hye Na

Se Ja Young não tinha vocação para ser mãe, Soo Jin se descobriu mãe no momento em que conheceu Hye Na. Porque mãe de verdade tem instinto! E ela teve quando a conheceu. A conexão das duas foi natural, instintiva. Ali, ela pressentiu o perigo. Se viu na menina. Ficou por perto, observou, sempre atenta ao “seu” filhote. Suas atitudes nunca foram guiadas por impulso, mas pelo tal do instinto materno.

Ela, Soo Jin, que nunca pensou em ser mãe, sempre foi. Só não tinha descoberto isso. Desde o primeiro instante, agiu como uma legítima genitora. Sim, foi ela quem deu vida a Hye Na, ela quem deu à vida Hye Na. A menina “nasce” quando a encontra, e Soo Jin também vive o nascimento da maternidade em si.

Justo ela, que havia sido abandonada pela mãe verdadeira…

“Depois de engravidar, nunca mais me senti sozinha, nem mesmo uma vez.” — Nam Hong Hee

Nam Gi Ae como Nam Hong Hee

Há uma passagem bíblica que conta a história de duas mulheres que chegaram diante do rei Salomão reclamando a maternidade de uma criança. Ambas diziam ser a verdadeira mãe do bebê, e nenhuma parecia querer abrir mão disso. Até que o rei decidiu que o certo seria partir a criança ao meio e dar uma metade para cada. Uma loucura, não?

Foi quando a mãe verdadeira, numa atitude de puro amor, abriu mão de seu filho por preferir vê-lo vivo com outra do que morto.

Vejo essa mãe da história acima na verdadeira mãe de Soo Jin, Nam Hong Hee. Vítima de violência doméstica, foi obrigada a fazer uma dura escolha: escolheu ver a filha viva, e isso significou deixá-la. Foi um ato de sacrifício. De todas as mães que Mother mostrou, a que mais me emocionou foi ela, e isso é mérito da ótima atriz Nam Gi Ae.

E Soo Jin viveu. Sua mãe a entregou para a vida, e a vida a presenteou com Cha Young Shin, que sentiu o mesmo que a ornitóloga vivenciaria anos depois: o seu nascimento como mãe.

Young Shin, atriz, viveu este papel, o seu melhor, até o fim da vida. A frase que abre este artigo foi dita por ela quando decide gravar uma entrevista para a defesa de sua primogênita. De fato, ninguém melhor do que ela poderia dizer tais palavras, pois foi a verdadeira mãe de suas três filhas, uma leoa pronta a defender cada um dos filhotes a qualquer preço.

A atriz Lee Hye Young (Chae Young Shin)

E cada uma das três foi um pouco da mãe. Ye Jin, de início, parecia só se importar com a herança. Mas ela também tinha filhos. Também zelava por eles e pelo que era deles. Não se pode acusá-la de injusta. Era uma leoa, como a mãe.

De todas as personagens apresentadas no drama, Hyun Jin, a caçula, era a única que não tinha filhos. Talvez fosse mãe, mesmo sem viver ainda seu nascimento como tal. Mas ali, naquele momento, ela era uma mulher, com seus sonhos, suas lutas, suas conquistas. A maior de todas foi ter dado voz a todas as mães da história, numa linda cena ao final do drama.

A mensagem que Mother quer passar para cada um dos espectadores é esta, a de que não existe um padrão de mãe a ser seguido, e muito menos que a maternidade é algo que nasce com a mulher. Ser mãe é um dom, e como todo dom deve ser aperfeiçoado. Mas nunca ensinado.

Homenagem a este drama maravilhoso ❤ (preciso mudar a assinatura das artes)

Luana Marino é jornalista há dez anos e fã de dramas asiáticos, sobretudo coreanos. Mas também é apaixonada por esportes (principalmente Fórmula 1), Bon Jovi e Game of Thrones.


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Blog que busca uma crítica além do óbvio da cultura pop asiática.

Luana Marino

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Jornalista, revisora de textos, fã de dramas asiáticos, Bon Jovi, Game of Thrones e Fórmula 1!

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