50 anos desde que Jack Kerouac morreu

Um texto de Toinho Castro

Blooks Livraria
Oct 21 · 4 min read

Jack Kerouac morreu há exatos 50 anos. O autor de On the road morreu da bebida alcoólica que já o consumia. Morreu solitário, amargurado e reacionário, cada vez mais para a direita e afastado dos antigos companheiros Beats… negando mesmo a linhagem Beat.

Vagou atravessando a América para lá e para cá, buscando alguma iluminação. Alimentou o mito de uma América movida a Jazz e automóveis. Nova York sobrenatural dos apartamentos sem calefação, como no verso de Allen Ginsberg em Uivo, seu amigo que escreveu no final do seu Sutra do Girassol:

E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro, e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.

– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latadas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

Berkeley, 1955


Escreveu atormentadamente, alucinadamente, como Dean Moriarty (ou neal Cassidy…) dirigiu nas estradas empoeiradas. No fluxo da consciência. Ler On the road é ouvir o barulho de trens, da falta de rumo, de norte, na grande noite americana.

Recordo de mim mesmo, na areia de uma praia no Nordeste do Brasil, mergulhado na leitura de On the road, numa edição da Brasiliense, coleção Circo de Letras… quantos livros incríveis li dessa coleção! Lembro dessa porta do universo Beat que me levou às estradas que o novo Buda da prosa americana, nas palavras da dedicatória de Ginsberg (novamente) à Kerouac em Uivo, trilhou mas também ao próprio Allen Ginsberg e sua poesia, a Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e outros nomes espalhados e misturados, como numa história em quadrinhos.

E a fonte Beat que jorrou de Kerouac e sua prosa não cessou, jamais. Outro dia esbarrei num livro sobre a presença feminina no movimento e de como esta foi obscurecida, apagada. E realmente, lendo tudo que as mulheres são acessórias. Joan Burroughs, morta por William Burroughs numa “brincadeira” sem graça de atirar numa maça sobre a cabeça, é um fantasma num poema de Ginsberg. Em Kerouac elas estão pelas salas, pelas casas, ou a reboque, acessórias. Anote aí, Memórias de uma Beatnik“, da escritora e poeta Diane di Prima. Fim de uma injustiça.

Eram os tempos, o contexto, etc. Mas são outros os tempos e com isso descobrimos, nós, os de olhos vendados, um novo mundo descortinado sobre os beatniks.

Hoje, 21 de outubro, são 50 anos em que a voz atordoada de Jack Kerouac assombra livros e memórias, uma voz que acendeu muitas lâmpadas na noite de pessoas como eu. Lâmpadas que ainda seguem acesas. Talvez o velho fantasma de Jack vague ainda pelas estradas de uma América muito diferente daquela que ele conheceu. Ainda mais perdido. Não sei o que está gravado em sua lápide (ainda que pudesse agora mesmo procurar no Google. Prefiro não). On the road lhe cairia bem.


ALERTA DE SPOILER

Último parágrafo de On the road…

Assim na América quando o sol se põe e eu sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey e sinto toda aquela vastidão até a Costa Oeste, toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e no Iowa eu sei que agora a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos no oeste e oculta a derradeira e última praia e ninguém, simplesmente ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso em Dean Moriarty, penso até no Velho Dean Moriarty o pai que jamais encontramos, e penso em Dean Moriarty, eu penso em Dean Moriarty

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