70 anos de Caio Fernando Abreu

Morangos mofados, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu foi o livro de uma geração. Lançado em 1982 pela Brasiliense, o livro integrava a mítica coleção Cantadas Literárias; mítica por trazer uma série de livros que falavam de certa contracultura, juventude, drogas, música, amor, poesia, vanguarda. Éramos ousados só ter esses livros na bolsa. Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva), Caprichos & relaxos (Paulo Leminski), A teus pés (Ana Cristina César), Folhas das folhas de relva (Walt Whitman) são apenas alguns desses título que, junto com o livro de Caio, faziam a cabeça da juventude nos anos 80.

Desses todos, Morangos mofados, quase um oxímoro, tinha algo de mais especial, porque como nenhum outro equilibrava as dores urbanas e as promessas noturnas, das baladas, das drogas e do sonho, Seus personagens tão complexos e suas temáticas sem temor; o amor gay, a solidão, o numa janela, olhando o céu… tipos urbanos, dirão. Caio Fernando Abreu era precisão e sua precisão dura ainda na solidez dos seus contos.

Caio Fernando Abreu, que hoje completaria 70 anos se vivo estivesse, não está somente nesse livro, que ao longo dos anos ganhou muitas edições. Ele é bem mais, ele é maior e convidamos você a mergulhar no mundo tortuoso e terno que ele construiu a partir do seu primeiro livro, o romance Limite branco. Com muita justiça seus contos, que totalizam seis livros , foram agora editados num único volume, Contos completos, pela Companhia das Letras. São eles: Inventário do ir-remediável (1970), O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1982), Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e Ovelhas negras(1995), e mais dez contos avulsos, três deles inéditos em livro.

A melhor maneira de celebrar o aniversário de um escritor é lendo seu trabalho. Então, vamos À leitura de CAio Fernando BAreu, porque lá está ele nas suas histórias, como a luz de mercúrio da avenida.

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. A noite clara lá fora estendida sobre a Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodca tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se tensa ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.
Trecho de O dia em que Júpiter encontrou Saturno (Nova história colorida)