A Moça do Livro

Diz a lenda… que ela dá dicas de livros!

Crônica tipo lenda urbana para o site da Blooks, por Toinho Castro

Já me perguntaram se a Moça do Livro seria um fantasma. Respondo, categoricamente, que não. Não é alguém que morreu e anda por aí assombrando as pessoas com um livro na mão. Acho que ela está mais para um entidade mágica, mística, sei lá. Uma figura ligada à vida. Algo assim, fora do círculo natural do mundo, ou seja, sobrenatural, mas nada a ver com os mortos. Talvez habite o mesmo limiar do Curupira ou Comadre Florzinha. Criaturas protetoras das matas, das florestas. No caso da Moça do Livro, a floresta da literatura.

Outros acreditam que ela seja como os Lamed Wufniks. Jorge Luis Borges escreveu sobre eles no seu Livro dos seres imaginários. Trinta e seis homens bons e pobres, cuja missão é justificar a existência do mundo perante Deus. Não fosse por eles e o Criador já teria descriado esse lugar onde, entre outras coisas, lemos livros. Talvez, veja bem, os Lamed Wifniks sejam mais que 36, entre homens e mulheres, justificando o mundo de vários modos, inclusive pela leitura. Sabe-se lá!

Fada, ente, criatura, reflexo, o que se sabe é que ela aparece no metrô e outros meios de transporte coletivos, em praias de verão, nos parque no outono e também sentada em bancos espalhados pela cidade, sempre de livro na mão. Pode ser vista, claro, em bibliotecas e livrarias, lugares propícios, mas também onde menos se espera, como uma fila de banco. Muitos alegam tê-la encontrado pessoalmente. Muitos tiveram uma vida inteira mudada, pra melhor, por conta de uma dica da Moça do Livro!

— Quer saber que livro eu estou lendo? — Ela pergunta.

É quase sempre assim que acontece. E respostas negativas não a abalam, não fazem ela desvanecer.Ela tenta, insiste, brinca, sempre de bom humor e vai cativando a vítima, que aceita pegar o livro para olhar ou ler um pequeno trecho. Resultado? Na hora de devolver o livro, ela sumiu! Sim, desapareceu! Em volta ninguém percebe, ninguém repara. Se você perguntar por ela, a mulher com o livro sentada ao seu lado… ninguém viu, ninguém saberá responder. Resta você de livro na mão, espantado.

Sei de um colega que largou o livro lá mesmo onde estava mas de nada adiantou. O livro aparecia novamente para ele, onde quer que ele fosse. Ali, esperando ser pego, ser lido. Bom, ele desistiu de resistir, se entregou, leu o livro e… se apaixonou pelo história e por quem a escreveu. Ele andava sem ler nos últimos tempos e o hábito foi retomado.

É assim que ela, a Moça do Livro, age.

Dizem, dizem… que sem as dicas da Moça do Livro não haveria mais leitores. De um jeito ou de outro, quando você resolve ler um livro, foi ela quem sussurrou no seu ouvido a ideia. Ou soprou para alguém que te recomendou um livro. Ou ainda para outro alguém e essa dica seguiu uma longa cadeia de amigos que se encontram e sugerem livros que parecem saídos do nada.

Ok, a verdade é que a Moça do Livro já me apareceu no caminho algumas vezes. Quando estou com preguiça de ler acabo por vê-la com um livro aberto no ônibus, ostentando a capa. Se eu faço de conta que não a vejo, ela aparece de novo. Não dá pra saber quem ela é, a memória não guarda seu rosto. Mas fique ligado, o próximo livro que você quiser ler, pode ser uma dica dela. Ou talvez ela sente ao seu lado na cafeteria do shopping e esqueça com você, quase sem querer, o livro que você jamais vai esquecer.


Você já viu a Moça do Livro? Há quem veja também o Moço do Livro, andando por aí com um livro na mão, de olho nos incautos. Faço o seu relato. Que livro te recomendou?