A Sociedade Assombrada dos Leitores Fantasmas | Parte 1

Blooks Livraria
Nov 5 · 4 min read
Montagem sobre foto PXHere

Estávamos eu e Roberval no vagão do metrô que sacolejava no subterrâneo do Rio de Janeiro, em direção à Zona Norte, Tijuca. Era tarde e eu estava cansado e com sono, mas não com tanto sono a ponto de não perceber que lá do outro lado do vagão uma moça sacolejava no vazio daquela noite tanto quanto nós. Nem tão cansado para não reparar que algo de diferente acontecia diante os meus olhos pesados… Vi que ela olhou para os lados e abriu a bolsa que repousava no seu no colo. Depois de vasculhar lá por dentro sua mão voltou à tona segurando um objeto, que eu não reconheci imediatamente mas que eu sentia que era familiar, de alguma forma. Como se uma memória coletiva tivesse acendido dentro de mim como uma lâmpada.

Ela postou os olhos fixos naquele objeto, agora aberto em suas mãos, que o seguravam com uma delicada firmeza. Vi que ela o manipulava de alguma maneira e seus olhos pareciam acompanhar algo que acontecia ali, naquele objeto, nas suas mãos. Vi que ela se levantou apressada, ainda segurando o curioso objeto, quando percebeu que o trem estava parado na estação Afonso pena. Com o ruído dos freios, o apito da porta prestes a fechar, foi difícil acompanhar a rapidez com que tudo aconteceu. Quando me dei conta a composição já me movia rumo à próxima parada, São Francisco Xavier. A moça e suas tralhas, e seu objeto, foram ficando para trás. Assim, na verdade, deduzo… mal ela saiu do vagão e eu já não conseguia vê-la no vão da plataforma. Imaginei que tivesse rapidamente subido as escadas rumo à praça, onde talvez virasse uns copos de chope gelado com alguma amizade ou amante no bom e velho Caçador.

Olhei pra Roberval e falei:

— Viu aquela moça? O que será aquela parada que ela tava segurando?
— Que moça? — Respondeu Roberval. Sonolento mas acordado.
— A mulher que tava sentada ali na frente, cara… do outro lado. Ali! — Apontei para o banco onde ela estava até uma estação atrás.
— Vi não, meu irmão. Sei de mulher não. Tu tá doido. — Sentenciou sem dó. esse era Roberval.


Em vários dias diferentes peguei o metrô no mesmo horário para ver se encontrava outra vez aquela mulher, possuidora de um objeto peculiar, que brilhava na minha imaginação. descia na Afonso Pena, subias a escadaria e ia dar na Praça. As árvores, alguma feirinha eventual, a estátua dos cachorros… e nada dela. Nenhum sinal, nenhuma pista possível. Mas você sabe que as coisas só nos acontecem quando desistimos delas, ou pelo menos quando paramos de persegui-las. Dias depois vi um senhor com o mesmo tipo de objeto nas mãos. Era um pouco diferente, cores diferentes, mas o manuseio parecia o mesmo. Olhar atento que parecer acompanhar algo, era o mesmo. Os movimentos das mãos. Não era parecido com nada que eu já tivesse visto, com nenhum dos gadgets que usávamos cotidianamente. Ao ver que eu o observava ele levantou de sua mesinha na calçada de um restaurante praticamente vazio e enveredou pelas ruas ali do centro.

Perdi seu rastro, como perdi o da moça. Contei a história para Roberval, para alguns amigos. De repente tinha algo novo, uma nova tendência, que eu não estava sabendo. Mas não. Ninguém sabia do que eu falava e descrever era difícil.

Gente, fiquei muito bolado com isso e meio paranoico. Eu achava que os estava seguindo, mas e se eles é que estivessem atrás de mim? Quem eram aquelas pessoas, silenciosas, que aparentemente só eu enxergava? Sim,não contei… mas acontece que vi outros, em lugares diferentes, situações distintas, com os mesmos tipos de objetos nas mãos. Algumas pequenas variações mas o conceito básico parecia o mesmo. Que intrigante!

E realmente o meu temor se concretizou. Eu, que me acreditava um investigador sorrateiro, acabei por cair numa estranha teia que eu não poderia prever. Numa das minhas já cansada paradas na estação Afonso Pena, saí para a velha praça e ao passar meio sonâmbulo por um dos bancos ouvi alguém me chamar:

— Ei, moço!

Quando me virei tinha esse rapaz, sentado no banco, segurando o danado do objeto, para o qual, até então, eu não havia ainda inventado um nome. E isso nem seria mais necessário.

— Chega cá, sente aqui comigo e vamos conversar um pouco.

Hesitei. Sei lá, né? Para esquisito de vamos conversar. Mas aí ele tirou de uma sacola o objeto e acenou com ele para mim. Gelei! Fiquei pálido e com aquela sensação de que estava num filme.

— Não é moça nem velho que você procura. Você procura é isso aqui! — Ele falou enquanto sacudia o objeto sem nome no ar que parecia que estava ficando rarefeito.

— Você vem tentando dar um nome a ele, mas isso já tem nome, chama-se livro. Vem aqui, vou te mostrar.

— Quem é você? — perguntei de súbito, simplesmente porque não sabia o que perguntar, o que dizer ou pra onde ir.

— Eu? Bem, eu sou um fantasma…

Blooks

Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade.

    Blooks Livraria

    Written by

    Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade e que encara o livro não como produto comercial mas como fonte de cultura.

    Blooks

    Blooks

    Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade