Registros do encontro do dia 11 de março, realizado na Blooks da Praia de Botafogo

Blooks Livraria
Mar 12 · 7 min read

Abertura com Pallas Editora e a leitura de texto inédito
de Conceição Evaristo e Ludmila Lis para Marielle Franco.

Mesa: 1 A militarização da segurança pública e a banalização
do Estado de exceção no Rio de Janeiro.

Convidadas: Fátima Lima (UFRJ/PPRER, CEFET/RJ, Casa das Pretas) e Joana D’Arc Ferraz
Mediação: Clara Barzaghi

Confira aqui a programação completa


Leia a seguir o texto de Evaristo Conceição e Ludmilla Lis, escrito em homenagem a Marielle Franco. A leitura desse texto deu início aos trabalhos do Ciclo Outras Histórias do Feminismo — Vozes Plurais.

HOMENAGEM À MARIELLE

Texto de Conceição Evaristo e Ludmila Lis

Não há somente uma forma de ver a falta que faz Marielle. Há uma série de compreensões e entendimentos, concluídas ou não, que nos ensinam a considerar o que foi e o que é e representa Marielle.

Vou voltar um pouco para alguns dos momentos em que a vida era sim, difícil, mas sem dúvida, melhor do que é hoje…

Eram os primeiros anos do segundo milênio. Eu, Ludmilla, fazia pré-vestibular comunitário na Associação Mangueira Vestibulares, a AMV. Outros pré-vestibulares do mesmo gênero já tinham uma boa estrada em suas comunidades como o Vive, na região da Tijuca, e o CEASM, na Maré. Muitos dos professores desses “prés” (como chamávamos) se desdobravam entre os três, como voluntários, além das diversas escolas em que trabalhavam para conseguir manter uma boa renda. E entre nossas aulas de geografia, história, português, matemática…lá estava uma menina alta, meio esguia, magrinha, de cabelão, que falava pra caramba. Sempre questionadora e dona de uma voz que imperava quando falava. A menina sorria muito, tinha uma gargalhada frouxa e estava sempre presente nas atividades em conjunto que eram programadas pelos prés, fosse sábado, domingo, feriado…

Logo teve uma filha, a quem levava a tiracolo para vários desses eventos, enquanto sua mãe e pai trabalhavam muito pra manter sua família, seus estudos e o sonho da irmã mais nova de jogar voleibol profissionalmente. Mais tarde, conheceu uma mulher incrível com quem resolveu dividir a vida.

Ela estava nas aulas de geografia e história na Floresta da Tijuca, estava nas visitas aos acampamentos e assentamentos do MST, estava nas marchas do grito dos excluídos “nos 7 de setembro” que adentraram os anos 2000, estava na inauguração do “Porto Maravilha”, já em 2016, onde nos encontramos aos risos, comendo cachorro-quente de linguiça nos chamados “Food Trucks”, reclamando do preço da comida e gritando que estávamos no Boulevard Dilma Rousseff, e não na Orla Luiz Paulo Conde, como ficou batizado o espaço. Marchou pelas e com as mulheres negras nos “25 de julhos da vida”, e chegou, depois de dividir-se entre trabalho, uma graduação em Ciências Sociais e um mestrado em Administração Pública — à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, de onde empreendeu as tarefas mais ousadas para uma mulher negra. Homenageou o Babalorixá Adailton Moreira, filho de outra grande intelectual, Mãe Beata de Iemonjá, o Afoxé Filhos de Gandhi e Mãe Meninazinha numa celebração lindíssima contra o racismo religioso no Plenário da Câmara de Vereadores. Entregou a medalha Pedro Ernesto à grande intelectual e escritora Conceição Evaristo, em outra sessão que lotou a Câmara de mulheres negras como ela e a escritora. Presidiu diversas sessões, sempre lutando pelos direitos dos mais vulneráveis. Numa sessão que discutia dados chocantes sobre mortalidade materna, gritava como se sua voz tivesse o poder de “acordar o mundo”, que as mulheres negras eram descartáveis no nosso sistema público de saúde. Homenageou, contemplou e reconheceu diversas lideranças, as quais convidou para sessões na câmara: Mãe Meninazinha de Oxum, Pastor Henrique Vieira, Jurema Werneck, a economista e jornalista Flávia Oliveira, a atriz Ruth de Souza…e muitas outras personalidades a quem devolvia muito da emoção de ser representante eleita por grande parte da população.

A menina da voz alta e forte e do cabelão, estava em qualquer lugar. Em uma última conversa que tivemos, no instagram, perguntei como ela estava. Ela me respondeu: “Eu tô bem. Nessa luta… Com certeza de turbulências e muito afeto.” E me devolveu a pergunta.

No dia 14 de março de 2018, eu e Conceição Evaristo estávamos tentando dormir em meio a uma conversa que repassava as atividades do dia seguinte que começaria poucas horas depois. Eram 2:20 de uma madrugada bem gelada em Paris. Partiríamos para outra cidade por volta das 7 da manhã, deixando a casa de Suzete, outra companheira, que há anos acompanhava também a trajetória de Marielle. Meu telefone tocou. Uma amiga me dizia que Mariellle havia sido assassinada. Como dizer para Conceição a notícia que estava me sendo dada? Conceição conhecia Marielle, quando ela era ainda uma menina. Há anos uma tia de Marielle apontava a pequena militante do Rio de Janeiro, que se apresentava e falava da tia com a escritora todas as vezes que se encontravam. Como dizer que a menina que ela tinha visto crescer e que ousava ser líder numa casa de políticos no Rio de Janeiro, e que antes, poucos meses antes, lhe havia conferido uma homenagem, estava morta? Conceição Evaristo vem afirmando sempre que a luta das mais e dos mais jovens potencializa a vida dela.

Seguimos, Conceição e eu para a outra cidade. Olhávamos uma para a outra como se quiséssemos dizer toda a sorte de coisas, mas sem nenhuma força para fazê-lo. Eu me sentia cansada, aérea, com os olhos em permanente mar. Sentia como se me tivessem cortado algo.

Após uma provocação de uma jornalista da Rede Globo, ela decidiu oferecer o poema “Tantas são as estrelas” para Marielle. Era o que ela podia fazer, não conseguia falar da morte, do vazio que uma “mais nova” lhe deixava, principalmente porque tinha sido uma morte encomendada. Uma “mais nova” tão necessária para a continuidade da luta “das mais velhas” não podia ter sido covardemente escolhida pela morte. Marielle Franco não estaria “nadificando-se”. Para Conceição Evaristo, me disse ela mais tarde, era como experimentar um sentimento de orfandade. Era perder o prumo, perder o equilíbrio, já que Marielle era a encarnação da continuidade de uma luta. O poema, já escrito em homenagem a outras pessoas queridas que haviam partido, era o que falava por ela naquele momento. E assim, o novo-velho poema estampava um adeus no noticiário da noite no Brasil.

Uma maratona de entrevistas, matérias, falas, textos, encontros, debates, palestras e etc foram sendo solicitados à Conceição, enquanto a nossa esperança ia “nadificando-se” junto com a ausência de Marielle Franco.

A menina de fala forte e voz segura se foi. Junto a ela, Anderson, o motorista que a esperava na Casa das pretas após sua última aparição. Foi-se após uma reunião com algumas de suas companheiras de luta. A última das tantas que fez e participou. Desde então, seu nome estampa jornais, faixas, camisas… Virou música, virou manifesto, virou até boneca, quando empreenderam a comercialização de seu nome. Mas pra quem a conheceu, ela era a Marielle. A menina que sempre estava lá. Onde quer que esse “lá” fosse.

Eu e Conceição temos conversado ao longo desse um ano de ausência física. Conversamos sobre o desconhecimento de “seu” ou “seus” assassinos, da justiça que desejamos para sua mãe, Marinete… Uma mãe não deve passar por isso…

Luyara cresceu, Anielle também teve uma filha…Mônica cura seu coração partido recordando a luta de sua parceira, “Seu” Antônio segue com seu semblante um tanto vazio, e Marinete, sua mamãe, anda por entre nós vagando entre gritos de “Justiça!” e orações sem fim recebendo uma série de prêmios póstumos.

Temos dito, escrito e gritado em diversos países e cidades do todo o mundo, que queremos justiça à Marielle. E temos feito tanto, que já não há apenas uma Marielle. Ela é no mínimo, 46.020 pessoas que a escolheram como representante política. Ela virou semente, como dizem e como ela mesma sugeriu em diversas ocasiões, que se tornasse nossa luta. Sua morte nos enfraquece como amigos que somos, já que a saudade ainda nos é um sentimento incompreensível, porém nos fortalece como companheiros de luta.

“Ninguém solta a mão de ninguém!”, escreveu a artista.

Então aprendamos a segurar as nossas mãos. Aprendamos a exigir proteção para nossos representantes, porque Marielle não foi protegida. Vamos gritar até a voz acabar, até enrouquecermos diante das pautas que ela levantava. Vamos ser semente que cresce! Vamos ser flor, vamos ser água, que sabe sempre ultrapassar todos os obstáculos.

Vereadoras, já temos outras e serão cada vez mais. Sementes, lembram?

Nesse tempo de reflexão em que somos convidados à resistência e à disseminação dos afetos positivos, lembremos do maior lema já visto numa campanha política, e que traduz intensamente o que Marielle representa: “EU SOU PORQUE NÓS SOMOS.”

Nesse amargo um ano de sua ausência, estamos aqui. Juntos. Essa é a chave de nossa vitória como sociedade: A coletividade.

À família e aos amigos mais íntimos, desejamos a paz, a serenidade e o exercício não-doloroso da perda. A negona, faz falta. E como faz…

Clique aqui para download do texto em PDF.

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