Conversando com a Editora Javali. Mais uma independente na área da Blooks!

Batemos um ótimo papo com Assis Benevenuto e Vinícius Souza, da Editora Javali, e o resultado da conversa está aqui! A Javali é mais uma editora que se soma aos esforços de produzir livro e literatura fora do mercado dito tradicional, com uma nova criatividade e postura diante do leitor e do autor. Vamos lá com a Javali!


Como vê a visibilidade dos Indie (editoras independentes) no Brasil?

Sinto que o movimento Indie é muito diverso. São lugares muito diferentes: de editoras, edições independentes, publicações etc. Vejo surgir cada vez mais feiras, agrupamentos, que possibilitam a visibilidade desses trabalhos. Existe um universo de cultura que não está nas vitrines das grades livrarias. E para conhecê-lo a gente precisa ir atrás de feiras (e isso dá trabalho!), espaços alternativos, ou encontrar livrarias que dedicam espaços para essas publicações. E são poucas, como a Blooks.

Como vê o posicionamento dos Indie hoje no mercado?

Indie é uma forma de resistência. É uma estratégia. É uma escolha. É um modo de estar, de existir, de comunicar. Os indie têm ganhado cada vez mais seus espaços. Tem muitos textos incríveis que foram publicados por editoras independentes, menores. Textos de dar inveja a grandes editoras! Eu acho isso incrível.

O que é Indie o que não é?

Acho difícil estabelecer um parâmetro certeiro, um limite, para poder classificar o que é ou não Indie. Mas acredito que ser indie tem a ver com modos e meios de produção. No caso da Javali, nós, Vinícius e eu, pensamos em tudo, lemos todos os textos, participamos de todos os processos de elaboração do livro. Ser indie tem a ver com um posicionamento político. Não me refiro a uma política partidária, mas, sim, a todo um contexto histórico cultural no qual vivemos. Se fôssemos esperar alguma grande editora publicar os textos de teatro que produzimos ou que gostaríamos de ler, nem sei quando isso poderia acontecer. Por isso criamos a Editora Javali, para criar espaço. Acho que Indie tem a ver com isso, criar espaços. Também tem a ver com uma preocupação de criar uma rede de leitores para algo específico, criar outras formas dos livros circularem que não seja apenas nas grandíssimas livrarias, que são muito burocráticas, perdem os livros e as editoras de vista…

Como vê o posicionamento da Blooks como livraria independente?

É incrivelmente animador ver e poder participar de projetos como a Blooks: uma livraria que se destaca por um pensamento que propicia a tantas editoras e edições Indies um espaço verdadeiro para existirmos, para que nossos textos possam ser encontrados por diversos leitores. Temos visto o fechamento de várias livrarias pelo país e é muito fácil uma livraria render-se aos best-sellers da economia cultural. A Blooks, na contramão disso, abre um outro espaço!

Como foi a escolha de trabalhar com as publicações de teatro?

A Editora Javali foi criada por mim, Assis Benevenuto, e pelo Vinícius Souza. Nós somos do teatro, somos atores, diretores e dramaturgos, de Belo Horizonte. Ter acesso a livros de teatro sempre foi algo difícil. O teatro, diferentemente da literatura, poesia, cinema, é uma arte do presente. Não dá pra levar pra casa, para assistir quando quisermos ou tivermos tempo. Teatro é o encontro presencial entre artistas e público, o encontro da literatura dramática, dramaturgia, espaço, cenário, figurinos, trilha, luz e o tempo. Teatro é o encontro com o tempo. Ouvi essa expressão de um amigo dia desses. E teatro dá trabalho (o que pode ser imensamente prazeroso)! Uma peça de teatro publicada não é Teatro. Mas tem algo no Teatro que é de grande importância para todos nós, inclusive para a sua história mundial: os registros, os textos. Até existe teatro sem texto mas sem dramaturgia, não! Tudo o que sabemos das Tragédias e Comédias Gregas devemos às publicações daqueles textos. Mas muito tempo se passou desde a Grécia Antiga, não é? Mesmo assim, na seção de TEATRO de muitas livrarias do Brasil o que encontramos é apenas o cânone: Tragédias e Comédias da Grécia Antiga, Shakespeare, Molière, e pouquíssimas publicações nacionais, geralmente textos de teatro do século passado que viraram filme, e quase nada de teatro contemporâneo. Tudo o que foi publicado é muito importante, mas não podemos parar naquelas referências! Quem estuda ou estudou teatro sabe o quanto é difícil ter acesso aos textos das peças de teatro. Quem dirá o público de leitores em geral, que muitas vezes nem sabem que é possível ler teatro. Quando foi que você leu teatro na escola? … Foi vivendo e conversando sobre todo este contexto que nós resolvemos criar uma editora para publicar teatro. Um projeto para abrir espaço, discutir, questionar, inventar. Nos últimos anos temos visto algumas editoras publicando peças de teatro e isso tem sido muito animador!

Por quê Javali ?

É um bicho que carrega em sua simbologia a bravura e a coragem. Era o que precisávamos para criar uma editora de teatro. Nosso Javali é um Porco que lê. (risos)

Como foi no início, quais os desafios?

Os desafios existem! Ainda! Desde o início. Todo o dia. Não tínhamos nenhum conhecimento sobre o universo das editoras. Livros e leituras sempre foram gostos em comum, mas daí a publicar livros… Eu já havia publicado de forma independente dois livros de poesia e isso foi algo que nos impulsionou a pensar a publicação de textos de teatro. O desafio inicial é sempre o dinheiro. Depois pensar projetos, contatos, textos, formas de financiamento, pensar os livros, papel, capas, pensar o público leitor!!! Isso é algo muito importante pra gente e muito desafiador: pensar o público!

Quais os momentos mais marcantes?

Eu acho tudo que passamos até hoje muito marcante… Mas vou citar alguns momentos:

1_ O primeiro livro! Foi o texto da peça Humor, do Grupo Quatroloscinco Teatro do Comum. Grupo do qual faço parte e deu apoio fundamental para a Javali existir! O Quatroloscinco é um grupo de teatro contemporâneo e tem todos os textos de suas peças publicados. E o segundo livro Teuda Bara: Comunista demais para ser chacrete, de João Santos. Uma incrível biografia da atriz Teuda Bara, do grupo Galpão.

2 _ Publicar a Coletânea Eid Ribeiro com praticamente todas as peças que ele havia escrito até aquele momento. Eid é um diretor e dramaturgo com cinquenta anos de estrada e de extrema importância para Belo Horizonte e nacionalmente também.

3 _ Nós publicamos o livro Dramaturgia de Belo Horizonte: primeira antologia. A história do teatro brasileiro está contata e registrada basicamente a partir de São Paulo e Rio de Janeiro. Esta história é muito importante, mas existem outras narrativas do teatro no Brasil. Chamamos essa antologia de “Primeira” porque queremos que venham outras! Nessa Antologia estão dramaturgos e dramaturgas muito importantes para a história do teatro de Belo Horizonte e do Brasil.

4 _ Acabamos de publicar o livro com o texto da peça Vaga Carne, de Grace Passô. Grace é uma artista de teatro fenomenal, de Belo Horizonte.

E os próximos projetos?

Temos muitas ideias e desejos!

Vou falar das próximas publicações que faremos em agosto e setembro deste ano:

Nós, do Grupo Galpão, com dramaturgia de Eduardo Moreira e Márcio Abreu; Teatro Negro, uma coletânea de textos contemporâneos de dramaturgxs negrxs de Belo Horizonte; Teatro de Rua, uma coletânea de textos contemporâneos de teatro de rua de Belo Horizonte.

Também publicaremos o primeiro texto de uma Coleção de Traduções!!! Será o texto da peça Escola, do dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calderón.