Entrevista com Ynaê Lopes dos Santos

Primeiro Ciclo Blooks Outras Histórias do Brasil: Resistências e Reparações

Leia a entrevista que fizemos com Ynaê Lopes, Bacharel e Licenciada (2003/2004) em História pela Universidade de São Paulo, mestre (2007) e doutora (2012) em História Social pelo programa de Pós Graduação em História Social da FFLCH/USP, Atualmente é Professora Adjunta do CPDOC/FGV. Tem experiência na área de História Social, com ênfase em História Atlântica e Ensino de História, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, Ensino de História da África, História da América, racismo nas Américas. É autora de “Além da Senzala. Arranjos escravos de moradia no Rio de Janeiro (1808–1850)” (São Paulo, HUCITEC, 2010) e História da África e do Brasil Afrodescendente (Rio de Janeiro, Pallas, 2017). Ynaê é convidada do Primeiro Ciclo Blooks Outras Histórias do Brasil: Resistências e Reparações, que acontece na Blooks de Botafogo, nesse mês de novembro. O ciclo inaugura uma homenagem ao mês da consciência negra e deseja ser espaço de diálogo e novos debates para uma reparação histórica com a população negra.


Poderia falar um pouco sobre o seu livro História da África e do Brasil Afrodescendente?

Esse livro foi escrito como uma das muitas tentativas de ajudar na implementação da LEI 10.639 que prevê a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura da África e dos Afrodescendentes no Brasil. Sendo assim, seu intuito era chegar ao grande público, sobretudo alunos e professores do ensino básico (fundamental e médio). A ideia era construir um material que fosse uma espécie de convite à história da África e do Brasil afrodescendente, com conteúdos que podem ser trabalhados em sala de aula, mas com dicas bibliográficas e filmográficas pra quem quiser se aprofundar nesse oceano que são as histórias africanas e negras no Brasil.

O Brasil está descobrindo a África ?

Sob alguns aspectos sim: existe uma iniciativa de diferentes profissionais em compreender de forma mais complexa o continente africano e fazer com que essas informações circulem no Brasil. No entanto, ainda existe um estereótipo arraigado no imaginário brasileiro sobre o continente africano que não só perpetua uma ideia muito equivocada sobre esse continente, mas também que reforça a ideia da África ser um local sem diversidade, sem dinâmica social, política e econômica, como se estivéssemos tratando de uma só cultura.

Poderia dar um panorama de quanto a sociedade brasileira avança, resiste e restitui depois de 130 anos da abolição da escravatura?

Os movimentos levados a cabo pela população negra desde 1888 (muitos dos quais começaram antes da abolição) foram importantes por uma série de avanços no Brasil: a criminalização do racismo (embora seja difícil conseguir dar queixa de um crime de racismo no Brasil), a implementação das cotas raciais, e a lei 10.639 são alguns exemplos disso. No entanto, o racismo é algo que estrutura a sociedade brasileira, anda que a maior vítima seja a população negra, pois é ela quem morre mais, que tem os piores salários, que não está representada na televisão, nos anúncios de jornal, no Congresso Nacional. Mas o racismo, justamente por ser estrutural, é um problema de todos. Cabe à população branca brasileira compreender os privilégios que a estrutura racista lhes garantiu para abraçar, de fato, a luta antirracista junto com os negros e negras do país.

A força jovem negra está provocando mudanças fortes.Há um futuro lindo pela frente, de luta e de resistência, concorda? O que tem observado nesse sentido na FGV, aonde leciona atualmente?

Acho que temos um futuro de muita luta, com uma juventude que tem consciência das questões raciais no Brasil e que está lutando para mudar essa realidade das mais diferentes formas, o que é bonito, saudável e transformador. Na FGV tenho observado tanto o crescimento do interesse pela temática das questões negras e do racismo no Brasil, como um número maior de alunos e alunas negros nas graduações e pós graduações (principalmente do CPDOC),mas uma mudança muito tímida perto daquela observada nas Universidades Públicas que aderiram à política das cotas raciais.

Houve um caso de racismo não muito recentemente na FGV de SP, o mesmo ocorre no Rio?

Na FGV do Rio não houve nenhum caso com a mesma proporção do que ocorreu em São Paulo

Sobre a 10.639, ainda há muitas resistências em aplicá-la nos currículos escolares de nível básico? Quais estratégias para os educadores?

Sim existem muitas resistências. Em muitos casos, tais resistências estão diretamente ligadas à falta de formação específica de professores, muitos dos quais foram formados sem esses conteúdos, o que dificulta que ele consigam repensar os currículos adicionando temáticas sobre história e cultura africanas. Mas também existe o preconceito puro e simples que ainda povoa o imaginário de boa parte da população brasileira, que é profundamente ignorante sobre a África e as questões negras do Brasil, sem contar a resistência de algumas religiões específicas que se recusam a lidar de forma respeitosa com a diversidade religiosa.

Você participará da programação do Primeiro Ciclo Outras Histórias do Brasil: Resistências e Reparações, na Blooks Rio. Qual a importância dessas iniciativas dentro de um projeto de educação antirracista num país como o Brasil?

Essa iniciativa é fundamental para visibilizar algo que já vem acontecendo há muito tempo: autores negros e negras estão produzindo material importante (histórico, literário, artístico, etc.) que falam não só sobre o negro no Brasil, mas que apontam a necessidade urgente de pensar a história brasileira a partir de novas bases.

Qual mensagem daria para o Brasil, um país negro porém racista.

Diria que a história do negro É a história do Brasil, não apenas um capítulo da história brasileira. E que se queremos lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e democrática temos que enfrentar o racismo que estrutura o Brasil de forma honesta: reconhecendo sua existência, mapeando suas origens e propondo ações reais que levem à transformações palpáveis.