“Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças”

Toinho Castro lembrando Carlos Drummond de Andrade em seu aniversário

Blooks Livraria
Oct 31 · 3 min read
Foto: reprodução

Em 31 de outubro de 1902, nascia em Itabira, Minas Gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Na data de hoje celebramos o 117º aniversário desse nascimento, com direito a doodle do Google e menções nas timelines de livrarias, bibliotecas, editoras e de ente que aprecia literatura. De repente as redes sociais se enchem de poesia. Mas é como a explosão de uma Super-nova. Um brilho súbito, inesperado, que evapora… e ao olhar novamente pelo telescópio, lá está o vazio do brilho que sumiu. Nesses dias o desafio é manter a poesia na pauta e resgatar o aniversário de cada poeta que amamos. E celebrá-los indefinidade, fazendo durar o brilho da poesia.

Drummond está entre os poetas que me ensinaram não a a gostar de pesia, mas o era poesia. Lembram daquela coleção Primeiros Passos, da Brasiliense? O que isso, O que é aquilo… pois bem, Drummond foi pra como um daqueles daqueles livrinhos. Ensinou-me o que é poesia. Pôs-me de pé no longo corredor imaginário da poesia e foi abrindo cada porta. De novo comparando com a astronomia, Drummond me foi uma espécie de Big Bang, uma explosão inicial, a partir de algo muito concentrado, que parecia conter tudo que veio depois. Uma explosão que iluminou não só seus contemporâneos mas o passado e o futuro também. Poesia em todas as direções.

Dois dos seus poemas que me cativaram tanto,a té hoje, são Memória e Canção amiga, que a voz de Milton Nascimento transformou num cristal.

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Já quis ler tudo de Drummond. Comprei sua Poesia completa mas era tantio livro, tanto verso, que nunca dei conta. Hoje sou calmo com Drummond, não espero mais ler tudo e há tempos que não frequento seus livros, para dizer a verdade. É aquele sentimento de morar perto do mar e raramente ir a praia. O mar estar ali, pertinho, já é tanto, já nos tranquiliza tanto. Mas às vezes vem aquela ansiedade de correr e pular na água, e mergulhar. E por falar em mar, hoje o poeta, que veio lá do dentro das Minas Gerais, contempla hoje a beleza de Copacabana, em bronze, pernas cruzada, mãos no joelho, como certa vez fora flagrado numa fotografia. Um frame de poesia, uma estrada de ferro ligando Minas ao mar, como canta Milton, de novo Milton, em Ponta de Areia.

Drummond me conectou com Minas, com o Rio de janeiro, com os modernos, com as cidades do interior, com a terra e com o mar, com o Brasil. Com o ar, elemento do qual se dizia fazendeiro. se leio poesia hoje, se arrisco meus próprios versos, devo a Drummond. E fico feliz em celebrar esse aniversário de número quebrado, 117… implico com datas redondas. Não sei se estarei aqui para celebrar seus 150. Sabe-se lá. Amanhã é um dia qualquer e Drummond ainda estará à mão para ser lido, por mim, por você, por quem quer que tenha coragem de mudar o modo de ver o mundo, de falar sobre o mundo e pensá-lo. Quem lê sua poesia não será jamais abandonado por essa poesia.

Foto: Acervo CDA/Cosac Naify

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