Crônica de Toinho Castro, numa madrugada de sábado, para a Blooks

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Apr 6 · 3 min read
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E quando a gente fala em autor ou autora predileta, ainda nos vem à mente Guimarães Rosa, Jorge Amado ou Clarice Lispector? Ou já começam a surgir nomes de novas gerações, gente jovem que surgiu nos últimos anos, ou na última década?

Quanto tempo leva pra gente considerar um livro clássico?Recentemente recordamos, nós que amamos a literatura, a morte do escritor Victor Heringer, que nos deixou muito jovem e com muito ainda a produzir. Victor era um grande talento, que talvez não tenha tido tempo de ir além com seu trabalho, mas ainda assim escreveu belos livros. Como leremos seu Glória daqui a 50 anos? Espero que ainda com justiça e entusiasmo. Talvez O amor dos homens avulsos torne-se um desses clássicos obrigatórios.

No ano passado li As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek, e tive essa sensação incrível do muito bom. É um livro pequeno e imagino os do futuro se debruçando sobre ele, seja á em que suporte ele puder ainda existir. Sua estranha busca pela vida no fundo do mar, perdurará como um livro de Ray Bradbury?

Ler é inventar clássicos, criar gigantes. O clássico começa com um leitor, e lentamente vai se sedimentando para os dias futuros. Uma cadeia enorme de pessoas validando e passando adiante um livro, até que um dia alguém fale: Você não pode deixar de ler. É um clássico.

Ítalo Calvino, escritor italiano, escreveu um livro chamado Por que ler os clássicos. Ele diz o seguinte: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca ‘’Estou lendo…”. Talvez porque quando a gente lê um livro assim pela primeira vez tantas pessoas já o leram, tantas vezes, que é possível que qualquer leitura, mesmo na primeira vez, seja uma releitura. Porque já se inscreveu poderosamente naquilo que todos, enquanto humanidade, compartilhamos.

Os clássicos tem esse jeito meio oficial, de coisas que serão enviadas a Marte ou dadas de presente nos primeiros contatos com alienígenas. Os clássicos nos desafiam da vitrine da livraria. Muitas vezes mentimos, dizendo que lemos aquele volume de Machado de Assis que ninguém pode deixar de ler. Mas o fato, é que talvez estejamos já lendo clássicos sem saber, e silenciosamente os construindo com espanto e dedicação. Livros que só mais adiante exercerão uma marca nos leitores. E talvez não se fale tanto nos clássicos que conhecemos hoje como tal.

Mas certamente, a despeito do que quer que seja, livros clássicos são como aquelas cidade cobertas por lagos de represas… quando o nível da água baixa, lá estão ela a nos assombrar. daqui a 100, 150 anos, quando os livros de hoje forem clássicos, parece que vejo alguém reencontrando um Dostoiévski como se estivesse se reconectando a algo muito importante. Um sentimento quase arqueológico. E vai pensar: Será que o Victor Heringer lia essas coisas?


Especulações sobre os livros, autores e leituras. Quem saberá? Vai que não haverá livros mas somente as histórias. Será que voltaremos a ser contadores de histórias, reunidos em círculos? E aí nem clássicos haverá, nem páginas obrigatórias. E cada vez que uma história for contada será um pouco diferente, com o sabor de cada um que a conte. E as histórias serão de todos.

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Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade.

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    Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade e que encara o livro não como produto comercial mas como fonte de cultura.

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