Professor Ariano Suassuna

Em 1987 entrei no curso de jornalismo, na Universidade Federal de Pernambuco. Era o começo do primeiro semestre e teríamos aula de História do Teatro, mas aquela que seria nossa professora precisou se afastar por conta de um problema familiar. Seu substituto, já na aula seguinte, era um senhor calvo, magro, vestido em linho branco. À frente da turma começou a falar e ali começou nossa odisseia pelo teatro, pela literatura, mergulhados em poesia, vastas prosas, histórias pitorescas e picarescas! Era Ariano Suassuna.

Pois… Ariano Suassuna foi nosso professor. Dá aquela tentação de ser um pouquinho egoísta e dizer meu professor, mas afinal éramos uma turma boa, com uns 30 alunos. Então, Ariano foi nosso professor. O que aprendi dele, ainda mais, foi a vontade de ler. Contador de histórias que era, e conhecedor profundo da literatura, carregou a todos nós pelas terras da Ibéria, acompanhados dos mouros, dos negros, enveredando pelo Sertão, pelos tabuleiros pisados por cabras, pela vegetação hostil dos interiores do Nordeste. Que jornada!

Eu, que era fã de ficção científica e rock’n’roll sucumbi à longa tradição literária que ele carregava conosco. Era um Quixote, um sonhador, um provocador que queria o Brasil na linha de frente, nas mãos de quem lê. A comparação com o Quixote não é à toa e é recorrente. Na peça Auto do reino do Sol, de Braulio Tavares, ainda em circuito pelo Brasil, lá está o nosso Quixote, lutando contra os moinhos da globalização, do esmagamento das falas do povo, dos seus versos e histórias mínimas que são histórias de nações.

Hoje, 16 de junho, é dia do aniversário desse mestre enorme, que escreveu uma literatura definitiva, e que não termina com ele.

Na época mesmo da Universidade eu comprei o Auto da Compadecida, seu trabalho possivelmente mais conhecido; peça escrita em encenada pela primeira vez em 1956. Nela encontramos elementos-chave do trabalho de Ariano. O cordel, a oralidade, o circo, o mistério e a religiosidade. É uma história de revelação e perdão, em que o personagem principal, João Grilo, é tipo esperto, que usa da inteligência sagaz e astúcia trapaceira para superar a fome, a miséria do sertão.

Adaptado três vezes para o cinema, em 1969 por George Jonas e roteiro do próprio Suassuna, em 1987 pelos Trapalhões, chamando-se então Os trapalhões no Auto da Compadecida, um filme encantador e muito fiel aos diálogos originais. Em 1999 virou como minissérie pelas mãos de Guel Arraes. Em 2000 essa mesma minissérie foi adaptada para o cinema. Assista todas as versões, mas leia o livro. De preferência leia antes o livro, leitura deliciosa que te tomará uma tarde.

Soneto Iluminogravado que compõe a obra Vida Nova Brasileira

Ariano escreveu muitas outras peças e um romance, o Romance da Pedra do Reino ou o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Ou simplesmente A pedra do Reino, que também foi adaptado para a TV. Mas que livro esse. Que coisa grandiosa que desfia o Brasil profundo, como dizem, e o reimagina lírico, épico, e ao mesmo tempo, do tamanho de Taperoá, a Macondo de Suassuna.

Por fim, recentemente tivemos a alegria de ver mais um livro seu vir à tona. O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, em dois volumes, foi lançado. Um novo livro desafiador que ele vinha escrevendo ao longo de décadas, já nos tempos em que era meu professor; um livro que faz toda sua obra aspirar a um único grande livro, vasto, entranhado da voz do povo.

Na sua vida longa e produtiva nos legou peças de teatro, romances, poemas (Seu trabalho poético é injustamente pouco conhecido. Aguardo uma reedição da antologia Poemas, que reuniu boa parte de sua produção), histórias para contar e toda uma mitologia do Sertão brasileiro. Algo inesquecível. Guardo daquelas aulas, no já remoto ano de 1987, uma saudosa alegria. Ainda hoje me pego rindo de uma história ou de uma ternura que o mestre deixava fluir. Hoje, celebro seu aniversário lendo as páginas do Romance de Dom Pantero.

Naturalmente esse é um texto afetivo, em memória ao meu querido professor. Movido também pelo encanto de seu trabalho, que me transporta do Nordeste lúdico que ele ensina. E eu aprendo.

A Laurênio

(Poema de Ariano Suassuna)

A nós mesmos somos impenetráveis. E o melhor seria que nos calássemos, esperando que se viesse realizar, por sobre nossos erros e nossas ilusões,o insubstituível verso: a nossa transformação em nós mesmos a nossa definição pela eternidade.
Luiz Delgado

Laurênio, eu pouco sei dos homens
e de mim mesmo eu pouco ou nada sei.
Mas, se nossas palavras,
que passam sussurrando ao som do vento,
contêm algum sentido e algo revelam
da verdade escondida
na combustão ardente e solitária
daqueles que as proferem sob o sol,
entendo que vivemos
de verão a verão sem muito ver.
Somos seres terríveis, majestosos,
mas ainda incompletos,
soltos no seio áspero da terra
em que abrimos primeiro os parcos olhos.
A pedra e a erva ferem-nos
os vacilantes pés e o faro incerto
e o rebanho dos graves animais
parece a nosso grupo
um rebanho tranqüilo e condenado,
nosso igual por sentença e desventura.
E o tempo vai crescendo:
com ele a carne, unida aos ossos,
cantam sangue e desejo de saber.
Então, por entre as árvores,
que, ao sol do teu verão, deixam seus frutos,
procuremos, sem falha de esperança,
aquilo que é sem nome:
um fogo madurado, um zelo ardente
capaz ao mesmo tempo de conter
o som das águas mansas,
a pureza dos frutos e dos ares,
o amor — mas em sossego e duração -
e mesmo a voz dos anjos.
Enfim, aquilo que pudesse ser
um apoio, um padrão, um toque, um marco,
para aferir no tempoo dom desconhecido e temeroso.
E dura a busca: os dias se sucedem,
passa o verão e a chuva,
os frutos apodrecem sobre a terra
e dias e estações e frutos novos.
Um dia, enfim, parece
que é chegado o momento do desvelo,
que vai se desvendar todo o segredo:
tudo há de se aclarar,
é tempo de saber e de saciar-se.
Mas esse instante grave e definido
tem tanta força e ardência
que no mesmo instante em que se gera
- forte e temível, medo e descoberta -
o dom amadurece
e o tecido da morte que formava
como que a própria trama da existência,
nesse clarão exato
cumpre o fruto em que tudo se consuma.
Talvez — quem sabe? — só então se possa
ouvir a própria voz
sem ser a medo e clara à mesma carne:
“Eis a terra. A verdade de seu seio.
Seu som íntimo e puro”.
Assim, neste verão em que se cumpre
teu tempo — nascimento e voz da morte -
recebe este meu canto
e, juntos, aceitemos o que é nosso:
cegueira, sede, o cheiro dos roçados,
nosso quinhão de amor,
as pedras esculpidas, mas expostas
ao tempo, como deuses de ninguém,
os detritos dos vivos,
o convívio das bestas e dos homens,
seus muros arruinados, seus transportes,
a herança dos antigos
um toque de corneta, a brisa fresca,
a água do rio, peixes e metais.
E se esse testamento
parece, antes, legado de infortúnio,
saibamos nos conter que a própria vida
é, de si, sem apelo,
turva na sua luz pura e selvagem,
áspera e bela como a voz dos homens
ou o hálito das feras
e é mesmo nessa falha que consiste
seu cerne de promessa e conclusão.

(Esse poema consta do livro Poemas, editado em 1999, com seleção, organização e notas de Carlos Newton Junior, pela Editora da Universidade Federal de Pernambuco. Poemas reúne, segundo o próprio organizador, uma parte significativa da poesia de Ariano. Torço por uma justa reedição desse livro)

PS. usei uma foto de Ariano ainda jovem, um Quixote jovem , inquisitivo, em complemento à imagem que temos dele idoso, para dar uma dimensão dessa história que foi a vida dele.


Dedico esse texto a minha amiga Rita Vasconcelos, que compartilhou comigo, naquela turma, essa experiência e é, possivelmente, a grande fã de Ariano.