Recife é pura poesia

Crônica de Toinho Castro

Foto: Toinho Castro

Recife, capital de Pernambuco, é uma cidade que tem uma forte tradição poética. A poesia anda pelas ruas, anda nos becos e botecos (parafraseando levemente Chico Buarque). É fácil no Recife identificar a cena poética e seus motores; as mulheres do Slam das Minas, a oralidade de Luna Vitrolira, a dicção inspirada, cheia de ironia, de Miró da Muribeca.

Isso tudo não saiu do nada; está tudo inserido numa linha histórica poderosa, marcada por nomes como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Lucila Nogueira, carioca de nascimento mas que encontra sua voz no recife, nessa torrente de vozes em que tantos beberam.

Ariano Suassuna mesmo, paraibano, tem no Recife seu pouso, seu encantamento. Escreve seu Canto Armorial ao Recife, Capital do Reino do Nordeste (Trecho final):

Ela era leve, e tinha os olhos 
Como o paudarco-âmbar da Acauhan, 
E os ouros das acácias do Recife 
Nos cabelos do sol-pela-manhã: 
Olhos-andrades, crespos, cor-de-ouro, 
Boca, vermelha flor de flamboiã!
E, misturando tudo, o mel do Engenho 
Mais o mel das abelhas do Sertão. 
Cana-caiana doce, olhos-estranjas, 
Tão bonita, tão boa e tão do chão! 
Era, mesmo, a Leoa-coroada, 
Flecha em meu sangue, anel da solidão!
E eu vi que minha Dama era o Recife, 
O engenho e o sertão do meu Sagrado. 
Os clarins já se calam e as Coroas 
Fulgiam pelo Reino-do-Escampado. 
O sol comia o cobre do horizonte: 
Terminava a viagem do sonhado!
Soltou-se a Onça-negra da estrelada 
E o meu Recife, ali, na escuridão, 
Era, agora, o Fortim-iluminado, 
O baluarte, a Nau, o bastião, 
Colocado entre o Reino-azul do mar 
E o meu Reino-castanho do Sertão!

Manuel Bandeira evoca Recife em sua poesia, viaja nostálgico à certa noite de São João:

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.

Junto ao rio Capibaribe, na rua da Aurora (Um nome de rua que é uma poesia em si) encontra-se uma escultura de João Cabral de Melo Neto, que escreveu o Cão sem plumas, longo poema que traduz o rio que agora contempla .

Recife é ainda a cidade de Carlos Pena Filho, o poeta do azul. Fale-se pouco hoje em Carlos Pena Filho; seus livros estão esgotados, e rareiam nos sebos da cidade. Cantou o Recife azulado, roubado ao mar, e cantou os 30 copos de chope de sua boemia. Morreu jovem num acidente de automóvel e não se pôde ver seu talento produzir mais poemas, mais livros, mais Recife.

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Recife tem uma ação institucional chamado Circuito da poesia, um passeio guiado pelos poetas da cidade, pela cidade desses poetas. Mas caminhar pelo Recife evoca uma atmosfera de poesia, dessa longa e fértil tradição que atravessa a cidade como rio Capibaribe e hoje alcança novas vozes, novas falas, espalha-se pela periferia e vibra com o poder da palavra, da palavra rimada, ritmada da poesia.