Um livro é sempre muito mais que um livro

Crônica de Toinho Castro

Blooks Livraria
Oct 30 · 6 min read

Eu devia ter meus 12 pra 14 anos e o livro Zé Limeira, o poeta do absurdo, do paraibano Orlando Tejo, já circulava em nossa família. Era um livro mitológico. Nós, os primos, nos encantávamos com aqueles versos descabido que Tejo atribuía ao seu “biografado”, o cantador Zé Limeira. Figura tão mítica como o livro, há quem duvide de sua existência. Dizem que é invenção do próprio Tejo. Outros defendem que Limeira existiu sim nos caminhos empoeirados do Sertão, assombrando as feiras terreiros de fazendas e sítios com seu vozeirão e sua poesia que misturava tudo que ele escutava por aí. Coisas que iam de passagens da Bíblia à história de reis, Rainhas, mesmo a rudimentar ciência de que se tinha notícias, histórias populares e neologismos. Limeira era um inventa-línguas, criador de mundos.

Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e ao mundo,
O poeta Zé Raimundo
Começou a castrar jumento.
Teve um dia um pensamento:
Aquilo tudo é boato
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento.

Nas rodas de conversa da família, fosse m Natal ou Recife, o livro sempre aparecia na mão de alguém. Era mesmo uma aparição, algo fabuloso, das fábulas que Orlando Tejo teceu ao contar a história do negro Limeira, cantador da Serra do Teixeira. Nós, os primos, os pequenos, a gente se maravilhava com aquele recital surreal e não nos cansava repetir os desafios do poeta com outros cantadores da região. O cantador vinha com os versos todos arrumados, aprumados… e eis que Limeira respondia com sua torrente de palavras desconexas, ideias incoerentes, como se tudo que interessasse fosse a métrica e a rima. ia jogando nos versos o que lhe sugeria o juízo, abarrotado de imagens soltas, pescadas nas mais distintas origens…

O meu nome é Zé Limeira
De Lima, Limão , Limansa
As estradas de São Bento
Bezerro de Vaca Mansa
Valha-me, Nossa Senhora
Ai que eu me lembrei agora:
Tão bombardeando a França.

Ninguém faça pontaria
Onde o chumbo não alcança
E vou comprá quatro livro
Prá estudá leiturança
Bem que meu pai me dizia:
Jesus , José e Maria,
São João das Orelha mansa.

Depois de adulto adquiri minha própria edição, como se fosse uma tradição de família. Dessas coisas que há duzentos anos se faz e ninguém sabe mais a razão. Mas não fazia tanto tempo assim e eu sabia bem a razão. A poesia de Limeira que iluminava nossas noites, em que nos reuníamos para contar histórias, ler poesias, ouvir meu tio Wellington tocar gaita… noites serenas de Natal, ou da bagunça do quarto no Recife, onde nós, os primos, dormíamos todos juntos e ficávamos até tarde a ler o poeta do absurdo e rir de puro encantamento.

Certa vez, um desses meus primos, Wellington como o pai, visitou-me no Rio de Janeiro e ao partir lhe ofereci de presente o meu exemplar de Zé Limeira, o poeta do absurdo, em louvor à tudo que vivemos quando crianças.

Agora era somente eu comprar outro exemplar e manter acessa a tradição, certo? Bem… errado! Acontece que mal pus-me a procurá-lo, descobri que o livro estava esgotado. A partir daí enveredei por um labirinto de livrarias, sebos, estantes, em busca desse pequeno Graal familiar, sem sucesso. Em qualquer roda de conversa em que eu me metesse, e o tema livro ou literatura viesse à tona, eu tratava de perguntar pelo Poeta do Absurdo, sempre recomendando que se alguém o encontrasse, por favor, não deixasse de me avisar. Mobilizei muita gente por aí nessa caçada e não deixei revirar livrarias nas cidades por onde passava. Tudo em vão. Até que alguém, ou o bom senso, atentou-me para o óbvio: a Internet. De fato, encontrei o livro. Um único exemplar disponível, em todas as pesquisas que eu fiz, pela bagatela impagável de 300 reais.

E caso vocês esteja pensando nisso, a resposta é ‘não’. Não, eu não me arrependi de dar o meu exemplar para meu primo. Era um ritual necessário entre nós. Esse livro, o gosto pela poesia, pela poesia popular do Nordeste, as noites de conversa, são um elo entre nós, mesmo quando tudo parece distante. Se discordamos disso ou daquilo, seum mal-estar qualquer se interpõe, sabemos que temos Zé Limeira. Um vínculo poderoso.

Como diz minha mãe… O tempo passou e levou tudo!

Então, certo dia estava eu a vadear pelo centro do Rio de Janeiro, numa dessas tardes lindas de sol, dessas que só existem aqui. Caminhava por ali, pela avenida Passos, onde concentram-se alguns sebos tradicionais da cidade. Meio a esmo entrei num deles e perguntei sem esperança alguma: Sei que e difícil mas… Você teria aí o livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, de orlando Tejo. Tremi nas bases ao escutar um singelo “Acho que sim”. O moço subiu as a escadaria do velho casarão, empoeirado como as estradas por onde vagou Zé Limeira, e lá pelas tantas ressurgiu da busca sagrada com o livro na mão.

— Quanto é, moço?
— Hum… 30 reais.

Sem acreditar em quase nada do que estava acontecendo me agarrei com o livro, antes que ele tivesse tempo de se desmanchar, como nos sonhos. — Débito ou crédito? Perguntou o moço.

— Em dinheiro! Exclamei, pois queria que aquela operação fosse rápida para que não desse tempo de acontecer dessas coisas que acontecem quando a gente dá tempo ao acaso. Sequer pedi sacola (Até porque agora é errado!). Meti o livro na mochila e saí esbaforido do sebo, como se o tivesse roubado. Agi como se estivesse nesses filmes de espião e eu estivesse fugindo da KGB inteira, emburacando pelos becos e ruelas da cidade, num caminho improvável, que despistaria quem quer que estivesse atrás de mim e daquele livro mágico. Só sosseguei ao chegar na Carioca e sentar à mesa da Galeteria Cruzeiro, território seguro, de onde se vê o Rio de Janeiro passar, entrando e saindo do metrô. Eu havia vencido, o Graal era meu. Mas esse, para além do prazer da leitura, ainda me reservava uma última surpresa: a dedicatória.

Para minha princesa Bete
no absurdo dessa poesia
se livre do “Vento Leste” e se
encontre mais comigo… quem sabe,
numa feira de rapadura onde
certamente teremos muita
“doçura” em volta da gente
Fofura(?)!!
um beijo
Marcel ???
10.04.81


Toda essa história para dizer que… Gente, um livro nunca, nunca, é somente um livro. Um livro é um vetor de histórias, encontros, desencontros, reviravoltas. Um livro conecta pessoas, lugares, desejos, caminhos. Em torno de um livro as pessoas dançam, cantam, falam da vida, da morte, da vontade de realizar, crescer, sonhar. Um livro é uma fonte que alimenta tudo isso. Você um livro, lê, e pra você esse livro é uma coisa e pra outra pessoa que lê o mesmo livro, o livro já é outro. Porque o livro é muito mais que a história que ele conta; um livro é cada um de nós que o abre, que coloca um marcador entre suas páginas, que na folha de rosto a gente escreve uma dedicatória que com o passar dos anos se torna secreta, misteriosa, indecifrável. Será que Bete se livrou do “Vento leste”? Será que se encontraram numa “feira de rapadura”? Jamais saberemos. Sabemos que esses desejos estão escritos na folha de rosto de um livro, que saiu da mão de Marcel para a mão de Bete, em 1981, e que de alguma forma o mundo girou e passando de mão em mão, veio parar num sebo no Rio de Janeiro, para que eu o encontrasse e conjurasse todos esses passados, todas essas memórias.

Dê uma olhada nos seus livros e pense nas histórias que eles estão enredando pra você! Livros são coisas vivas, como a gente!

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Contemporânea e inovadora, a Blooks é uma livraria que aposta na diversidade.

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