Vagner Amaro, da Editora Malê, fala sobre os independentes e projetos futuros

Mais um ótimo bate-papo com os independentes! Dessa vez com Vagner Amaro, que vem desenvolvendo um belo trabalho à frente da Malê, mais uma editora querida da Blooks. Aqui ele fala da questão dos independentes no mercado, do futuro e do legado da Malê.

Vamos às palavras do Vagner!

Vagner Amaro, editor da Malê

Como você vê a visibilidade das editoras independentes no Brasil?

Acredito que cada vez mais a visibilidade é ampliada como consequência de várias transformações sociais, a globalização da comunicação, que afeta os interesses de consumo, assim como, a luta das minorias sociais. No Brasil vivemos um período de mudanças ocorridas pela aplicação de leis e de políticas públicas que voltaram-se para reduzir as desigualdades sociais, além disso, os avanços nas tecnologias de comunicação e informação — com destaque para o fenômenos que é o uso das redes sociais no país, possibilitaram que os interesses de leitura fossem ampliados. Surgiram também inovações nas tecnologias de impressão, possibilitando pequenas tiragens, que proporcionaram o surgimento de pequenas editoras. Existe uma variedade de interesses artísticos e literários que as grandes editoras não conseguem contemplar, neste ponto, as ações das editoras independentes também se tornam visíveis. Quanto mais democrática for a nossa sociedade, maior o desejo e as possibilidades de expressar em livros, textos que contemplem nossa diversidade e, da parte dos leitores, maior o interesse em consumir livros que contemplem seus diversos interesses de leitura. No caso das independentes voltadas para as minorias sociais, para muitos leitores consumidores, comprar livros que apresentem os discursos, as ficções e os pensamentos de grupos tradicionalmente invisibilizados, além de satisfazer uma necessidade de leitura, faz mais sentido, alimenta o desejo de representatividade e, mesmo que minimamente, contribui para uma transformação de um cenário de injustiça social, melhora o mundo.

Como vê o posicionamento dos Indie hoje no mercado?

Percebo que ainda há espaço para uma maior participação coletiva na formulação das políticas públicas e planos do livro e da leitura, na formulação dos prêmios e de grandes eventos literários e nas negociações com livrarias e distribuidores. Existem empresas movidas por paixão, mas que naufragam ou ficam estagnadas em menos de 3 anos de existência. Há uma fragilidade financeira muito grande nos empreendimentos das editoras independentes e em uma situação de crise econômica como a que o Brasil vem passando são as indies que estão mais vulneráveis. Neste sentido que venho defendendo uma maior valorização das editoras independentes, considerando sua importância na renovação do repertório literário, promoção da pluralidade literária, e promoção da leitura, pois garantem que interesses de leitura sejam contemplados. Seria interessante a existência de um prêmio, por exemplo, para as editoras independentes, assim como, linhas de crédito e editais específicos, considerando a importância destas editoras para a promoção da bibliodiversidade e da democracia cultural. Neste sentido, vale destacar que a existência de uma associação como a LIBRE — Liga Brasileira de Editoras é importantíssima para o fortalecimento das editoras independentes.

O que é Indie o que não é?

Indie é liberdade, liberdade criativa, liberdade de escolhas, liberdade para investir e empreender em uma verdade artística, indie é democratizar a cultura, é produzir novos discursos. São diversas as motivações que movimentam as editoras independentes, desde escolher estar no mundo com uma atitude em que se considera a mudança deste mundo e da forma como a sociedade de consumo está estruturada, até motivações financeiras, ou artísticas. Conseguimos com muita clareza saber o que não é indie e pela contraposição identificamos o trabalho dos independentes.

Como vê o posicionamento da Blooks como livraria independente?

Há na Blooks um cuidado com o livro, um entendimento de como este objeto ainda gera fascínio nas pessoas, isso é perceptível na organização das livrarias, na disposição dos livros nas vitrines. E, sendo uma livraria independente, há também uma atenção para o que as editoras independentes vem produzindo, seja disponibilizando nossos livros para a venda nas lojas físicas, ou em ações inovadoras como a plataforma IndieBlooks. Além disso, há também um intenso trabalho de divulgação literária, com debates, lançamentos, encontros com o autor, que vai contemplar a literatura. Então, vejo a Blooks identificada pela força do trabalho na divulgação literária, pela Revista Blooks, pelo posicionamento interessado com as editoras independentes e pelo charme das suas lojas.

Como iniciou o trabalho com a literatura africana?

O Flipoços — Festival Literário de Poços de Caldas homenageou a literatura moçambicana em 2017, vi como oportunidade para conhecer mais os autores e editá-los, fiz uma pesquisa extensa e me encantei com a literatura de Dany Wambire, jovem contista de Moçambique, pela forma como ele se apropria das tradições e as coloca em diálogo com o pensamento contemporâneo. O Dany tem o trabalho elogiado por escritores como Mia Couto e Paulina Chiziane. Editamos do Dany Wambire, A adubada fecundidade e outros contos, em 2017 e, este ano, editamos A mulher sobressalente. Também em 2017, fomos comtemplados pelo Programa de Apoio à Publicação, do Escritório do Livro, da Embaixada da França, e assim editamos o livro Memórias de Porco-espinho, do escritor congolês, Alain Mabanckou. O autor está na programação deste ano (2018) da FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty, onde vamos lançar um segundo livro dele, Copo quebrado (Verre Cassé). Como todo editor, estou sempre pesquisando, lendo originais, fazendo contatos, hoje já temos vários outros autores dos países africanos que temos a intenção de editar nos próximos anos.

Qual o legado das edições da Malê sobre o tema?

Os efeitos do racismo são tão variados que ainda conhecemos mais escritores brancos dos países africanos que os escritores negros. Muitos leitores no Brasil ainda não tem referências de autores negros africanos, quando pensam em escritores estrangeiros negros, pensam nos afro-americanos, ou imaginam que escritores negros dos países africanos são afro-americanos. Então o legado está em proporcionar o acesso para estas obras, ampliar a representatividade negra africana na literatura e, de maneira geral, aproximar a literatura africana dos nossos leitores, como diz a canção do Gonzaguinha “O Brasil não conhece a África, mas a África sabe bem do Brasil”. O objetivo é o mesmo que nos motivou abrir a editora, que foi ampliar a visibilidade dos autores que estavam em uma certa margem e melhorar o acesso para as suas obras.

Quais os próximos projetos?

Daremos continuidade ao selo Malê Mirim, editando escritores como O Daniel Munduruku e Eliane Potiguara, ao selo Mediações & Leituras, com textos sobre letramentos, mediações da leitura e da informação e lançaremos a terceira edição do Prêmio Malê de Literatura. Ainda em julho lançamos o novo livro de contos de Cidinha da Silva, O homem azul do deserto e reeditamos o livro Pedagoginga da Autonomia e Mocambagem, de Allan da Rosa. Temos em vista a edição de Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de Jesus e de um livro de estudos sobre a obra de Maria Firmina dos Reis. Um projeto bem especial para o segundo semestre é a coletânea de contos com autores brasileiros e moçambicanos, serão seis contos de cada país, lançado simultaneamente no Brasil e em Moçambique, um projeto com vocação de ser um início de ações voltadas para o intercâmbio destes autores, para que a literatura contemporânea brasileira seja mais conhecida em Moçambique e a moçambicana no Brasil.

Quais os momentos mais marcantes da Malê?

O lançamento do nosso primeiro livro, Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo, no Centro Cultural da Justiça Federal, em junho de 2016. O lançamento do livro Letra e tinta, com contos dos jovens premiados no Prêmio Malê de Literatura, quando pudemos ouvir dos jovens a importância do prêmio como uma ação transformadora, os prêmios APCA 2017 em poesia e literatura infantil e a abertura da Casa Malê, durante a Flip 2017, com a participação da escritora Conceição Evaristo. Porém, ter completado dois anos de publicações em junho deste ano, poder analisar esta trajetória, pensar o nosso tempo atual e lançar um olhar afetuoso, harmonizado com este passado e cheio de aspirações para o futuro vem sendo o nosso momento mais marcante.