Bolsa Família e o ganho de votos de Dilma no 2o turno

Dilma conquistou votos independentemente da maior ou menor proporção de beneficiários do Bolsa Família

Já leram meu post anterior sobre como o Bolsa Família (BF) influenciou a votação do primeiro turno? Pois é requisito para este, já que falaremos aqui do diferencial entre os dois turnos. Pra quem não quer ler, faço um resumo: existe correspondência, mas nenhuma causalidade pode ser imputada à relação. Qualquer tentativa de fazê-lo é pura falácia (ecológica, como chamamos, comum para análises de grupos e não de indivíduos). Pra mostrar como outros fatores influenciam nessa correlação, mostrei alguns casos lá, que por não estarem na linha de tendência, são bem relevantes para se entender esse processo.

Daí agora O Globo publicou um artigo fantástico, que além de jornalismo, traz um inédito tratamento de dados (muito bem feito, no meu entender) e uma boa entrevista com Marcus André Melo (cientista político com um CV invejável). Então deixa eu resumir aqui, e adicionar algumas observações da minha própria pesquisa.


O artigo confirma a correlação que indiquei para o segundo turno: “a votação de Dilma cresceu conforme a maior proporção de cidades beneficiadas pelo Bolsa Família”. Porém, admitem que trata-se apenas de indícios, e não explica como o eleitor decidiu o seu voto. Outro problema é que a análise utiliza apenas uma variável (BF), sem considerar outras que sabemos também ter influência na hora de decidir o voto.

Um exemplo, que havia prometido mostrar antes, é o IDH. Olhem esse post no facebook que mostra essa relação, apontando que Dilma recebeu mais votos naqueles municípios onde a variação do IDH foi maior entre 2000 e 2010.

Mais uma vez, claro, não podemos imputar causalidade, mas sim aceitar que existe uma série de fatores que os eleitores consideram antes de escolher em quem votar. Sim, mesmo os pobres; afinal, pra ser direto, o que se discute de verdade é a legitimidade dos votos de pobres, segundo um argumento implícito e bem ingênuo ou de má fé — nem sempre — de que essas pessoas não têm educação e informação suficiente para serem cidadãos, ao contrário de todos os demais que não votam pensando em interesses próprios, mas apenas pelo bem da nação, puro civismo.

Continuando o papo, e os votos que Dilma conquistou no segundo turno? Bom, diz O Globo que “se a candidata do PT dependesse apenas desses votos [aqueles ganhos de beneficiários do BF] não seria reeleita”. Os votos que Dilma teve a mais no 2o turno foram independentes da proporção municipal de beneficiários do Bolsa Família (especialmente em MG, RJ e SP). Claro, isso quer dizer que seu desempenho nos municípios com alta proporção de Bolsa Família já estava no teto, e não foi ali que ela ganhou seus votos extras. Pra quem gosta de visualizar as coisas, aí está a variação dos votos de acordo com o BF.

A linha reta nós chamamos linha de tendência, como se fosse uma média. Se ela fosse inclinada em 45 graus (de baixo pra cima, esquerda para a direita), mostraria que os votos ganhos eram DIRETAMENTE relacionados com o BF. Ou seja, nenhuma relação.


Na entrevista que segue, vale mencionar alguns pontos:

  1. Mais do que um “Lulismo”, os dados indicam um forte qualunquismo (nunca tinha ouvido falar, mas foi o que eu falei no outro post): “o voto qualunquista expressa cinismo cívico, associado à impotência e instinto de sobrevivência. Ele se expressa, sobretudo, no apoio, não ancorado em afinidades eletivas, mas ao cacique local, ao intermediário que aprova a emenda ao orçamento, frequentemente em arranjos corruptos”
  2. Agora um dado interessante: nas últimas seis eleições presidenciais o voto no Nordeste tem sido invariavelmente governista: “o que levou a esse estado de coisas foi a democracia e não a chegada do PT ao poder”.
  3. A novidade é: a “política de transferência de renda não tem intermediários: o eleitor de baixa renda vota no presidente que redistribui mais e melhor, e no oligarca local que aprova a emenda ao orçamento”.
  4. Por não pautarmos a discussão sobre política social em concepções de justiça social, mas só em política eleitoral (PT e anti-PT), perdemos de vista que as alianças constituídas em torno de programas sociais criam as condições para minar seus efeitos emancipadores. Se quiserem minha opinião, uma verdadeira oposição ao governo deveria bater nessa tecla aí.

Mas então, quais podem ser essas variáveis explicativas, que de fato mostram uma causalidade [X -> voto na Dilma] ?

Olha, apesar de ainda não conhecer nenhum estudo experimental sobre o fenômeno (um tipo de pesquisa que isola as variáveis, controlando e determinando causalidades), já que nas ciências sociais temos muito mais dificuldades em realizá-los, temos bons estudos que iluminam a questão, e prometo trazê-los aos poucos aqui. Mas adianto o meu próprio, da tese de doutorado em preparação. Apenas três pontos dessa pesquisa em andamento, realizada no interior do Nordeste:

  1. Esses dias perguntei para uma beneficiária se ela achava que Aécio acabaria com o BF caso ganhasse as eleições. Ela me respondeu: “acho que não, ele não ia querer se reeleger daqui quatro anos?” Pra quem leu, há umas semanas atrás fiz a mesma análise. Outra beneficiária, partidária de Aécio, tinha um material de campanha que mostrava a criação dos programas semelhantes pré-Lula, mostrando que o verdadeiro “pai” do BF era o PSDB. Esses casos são ilustrativos de uma realidade: o voto por medo de perder o BF é difícil de encontrar.
  2. Mas a correlação é indicativo de que exatamente? Ela aponta certo reconhecimento, mas nunca isoladamente ao BF. O programa é sempre elencado entre outras transformações na vida dos mais pobres. Aí alguém poderia argumentar que isso é apenas uma personalização da economia, do crescimento inevitável que o país experimenta, desencadeado por FHC, e que essa visão dos pobres é equivocada. Olha, eu concordo que a personalização da política é um sério entrave à cidadania brasileira (o que inclui o recente “ódio ao PT” e o coronelismo), mas tenho dificuldades em dizer que esse é um pensamento equivocado. Dito de outra forma, eu também acredito que, não fosse o governo do PT — e o BF da forma como foi desenvolvido, priorizado dentro do governo — o crescimento econômico do país (mesmo que inevitável) continuaria bem longe aqui do Sertão cearense. Mas isso é minha opinião, vocês podem ter fé em outra coisa.
  3. Mas ao que interessa muita gente: o BF é clientelista? não se trata de voto de cabresto? Olha, os dois pontos anteriores já anulam em parte esse argumento, mas se querem alguma coisa mais prática, adianto: não, o BF não é clientelista, por definição mesmo (prometo tratar disso outra hora). Mas alguém pode fazer uso político dele? Pode, como de quase todo programa (ou recurso) público. Mas minha tese principal (já apresentada e discutida em alguns congressos) indica que essa apropriação se dá no nível municipal, já que é o prefeito que controla a ponta do programa, e os mecanismos de auditoria do MDS ainda têm algumas brechas que podem ser exploradas. Pelo prefeito do PT, né? Não, qualquer um, para se beneficiar pessoalmente e transferir esse apoio para quem quiser. Por hora não posso apresentar mais dados (vão ter que esperar a tese), mas escreverei mais sobre isso futuramente.

Gente, obrigado pelo apoio, fiquei surpreso com a repercussão que os artigos tiveram, e os níveis de visualização e leituras estão incríveis (chegando a 200 em um dia!), graças aos compartilhamentos via facebook. Aqui não existe espaço para discussão em formato comentários, até por que nunca vi nada de bom sair disso, mas estou aberto para diálogos em outros lugares, e vários amigos já me procuraram.
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