Como o Bolsa Família influenciou a votação em Dilma

comentando o gráfico do Estadão


Gente, vou quebrar duas promessas em um só post. Primeiro, quanto ao assunto, por que prometi escrever sobre o princípio que norteia programas como o BF. Depois quanto ao material, por que tinha falado que só ia discutir trabalhos acadêmicos. Mas acabei me empolgando e quero escrever mais. O tom, acredito, permanece o mesmo, assim como a natureza do que é discutido.

Mas acontece que eu, como bom sociólogo que sou, e interessado no tema, fiquei fascinado com o gráfico que o Estadão lançou hoje sobre a correlação entre BF e votos na Dilma.

Não é a primeira vez que fazem isso, e os resultados não são inesperados. Ainda assim, vale a pena fazer alguns comentários.

  1. O gráfico é simples e não deixa espaço para manipulações. São duas variáveis plotadas em um espaço 2D. O que resta é interpretação dele e conclusões que se pode tirar.
  2. Existe uma correlação clara entre as variáveis. Ponto.
  3. Essa correlação não pode ser entendida a priori como causa/consequência. Isso é introdução à estatística, método científico para iniciantes. Existem outros fatores que interferem em ambas variáveis, que ficam invisíveis no gráfico como uma armadilha para pegar gente afobada.
  4. Esses fatores podem mudar de estado para estado, o que complica ainda mais…

Dito isso, vamos mencionar alguns resultados por alto.

Quanto se pega Brasil, fica clara a concentração do Nordeste (e Norte um pouco menos) no canto superior direito (de alta taxa do BF e alta votação na Dilma). Do mesmo jeito, o Sudeste está no canto oposto. Até aí nenhuma surpresa. O Nordeste é a base forte do PT, onde a concentração de pobres ainda é maior, e onde o governo federal foi relativamente mais atuante na última década. O Sudeste é o mais rico (menos pobres e menos BF) e onde o PSDB domina há duas décadas. Na prática:

Serrano do Maranhão (MA): BF 94%; Dilma 90%
São Caetano do Sul (SP): BF 2%; Dilma 15%

Mas e os outros cantos? Agora que fica interessante. No canto inferior direito (muito BF pouco voto pra Dilma) estão vários pontos do Nordeste. Quando selecionamos a região, o que fica nesse canto então: Pernambuco e Alagoas. Em Pernambuco foi o fenômeno Eduardo Campos/Marina. Em Alagoas? O governador eleito no primeiro turno foi o filho do Renan Calheiros (PMDB), apoiado pelo Collor (que levou pra senador) e onde os votos de Dilma foram dos menores da região, dividos com Aécio. Em Alagoas, foi comum ver foto do novo governador com ambos candidatos à presidência. Exemplos:

Porto de Pedras (AL): BF 75%; Dilma 33% | Flexeiras (AL): BF 74%; Dilma 31%
Barreiros (PE): BF 73%; Dilma 37% | Agua Preta (PE) BF 80%; Dilma 51%

No canto superior esquerdo (pouco BF e muito voto pra Dilma), destaca-se a região Sul, principalmente com Rio Grande do Sul, que diferente de SP, não é dominado por um partido, mas ainda assim o PT tem um bom desempenho e o atual governo. Para o segundo turno temos uma disputa entre PT e PMDB. Também alguns municípios de SC e (surpreendentemente?) alguns de Minas. Nesse canto encontramos:

Capitão (RS): BF 1%; Dilma 61% | Cunhatai (SC): BF 3%; Dilma 52%
Prata (MG): BF 7%; Dilma 59% | Canudos do Vale (RS) 12%; Dilma 73%

Bom, pra concluir: é claro que existe uma tendência estatística, ela é inegável. Mas correlação, por mais forte que seja, não é necessariamente explicativa, e esses exemplos (e a distribuição dos pontos em geral), são suficiente para lançar alguns alertas:

  • Cuidado na hora de falar que pobre não sabe votar. Nem todo beneficiário do Bolsa Família vota no PT. Nem todo beneficiário que vota no PT o faz SOMENTE por causa do BF. Nem todo beneficiário que vota no PT por causa do BF é um alienado político.
  • Depois, forças políticas locais são uma variável interveniente de peso nessa relação BF/voto (ou seja, ela interfere). Casos como Pernambuco e Rio Grande do Sul deixam isso bem claro.

Então, frases como esta que o próprio Estadão colocou na explicação da tabela:

As cidades do Nordeste estão localizadas mais à direita e para cima, ou seja, têm maior parte das suas famílias recebendo o Bolsa Família e também votou em maior proporção para Dilma que no Sudeste, por exemplo.

são estatisticamente corretas enquanto tendências, mas não podem ser usadas para explicar o complexo processo que é escolher um candidato.