E o Bolsa Família tem dono?
Por favor, parem de discutir quem pariu o dito cujo
Eu achava que isso era só papo chato de debate, na crença dos candidatos que isso realmente faz diferença, mas vi que muita gente ainda tá perdendo tempo discutindo o assunto da bendita PATERNIDADE de BOLSA FAMÍLIA. É, falam de paternidade por que discutem se foi Lula ou FHC. Aí falaram até de DNA. E o que me fez parar pra rir mesmo foi o Aécio dizer que a mãe é a Ruth Cardoso. Pelamordedeus.
Pois vamos lá. É claro que tudo DEPENDE. Você pode dar razão ao Aécio por considerar que os programas do governo FHC já eram parecidos, e que Lula só aperfeiçoou. Ou você pode dar razão à Dilma pensando que a diferença não é só de quantidade, mas de qualidade, e que o BF está tão longe daquilo que não é a mesma coisa. Sinceramente, não me interessa.
A verdade é que no Brasil já começamos antes disso. Em 1991, Suplicy (PT) apresenta projeto no Senado com uma ideia bem parecida com BF, mas não passa; Em 1995, Distrito Federal (governo PT) e Campinas (prefeitura PSDB) fazem as primeiras experiências de transferência condicionada de renda; Em Brasília foi o famoso Cristovam Buarque, que tem a educação como bandeira, e o primeiro a colocá-la como condicionalidade, o Bolsa Escola. Em Campinas, o programa se chamava “Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima”, e o foco era a qualidade de vida das crianças, sem condicionalidades.
Quer conhecer melhor essa pré-história do BF? Não é que Cristovam Buarque e Eduardo Suplicy publicaram um artigo contando tudo isso? Tá aqui, é de 1997, e foi publicado em uma excelente revista científica de Ciências Sociais.
FHC tira daí os seus programas; Lula cria o Fome Zero que não pega no tranco, fecha tudo no BF e pronto. O resto vocês conhecem.
Pra completar, o Brasil não foi o primeiro a criar esse tipo de programa. Empurrados pelo Banco Mundial, vários países da América Latina criaram os seus. Hoje, o BF é o maior do mundo em termos de cobertura. Dá uma olhada nesse quadro comparativo desse tipo de programa na América Latina:

Mas se os programas locais de 1995 foram pioneiros, em termos nacionais, o Brasil ficou pra trás. Lá por 1999, o Bolsa Escola de FHC antedia ali pouco mais de 200 mil famílias (fragmentados em diferentes programas, uns melhores outros piores), no México já eram 2.3 milhões de famílias.
Se quiser conhecer mais sobre a história das Transferências Condicionais de Renda (como são chamados esses programas), olha esse relatório do Banco Mundial de 2000, bem antes do BF, hein?
Mas ao que interessa: Se o PT nunca tivesse entrado no poder, o PSDB faria um Bolsa Família? Com certeza. O Brasil não ficaria por fora dessa onda mundial.
E qual o mérito de Lula então? Ele tirou o atraso de FHC e jogou o Brasil lá na frente, e hoje o programa é não só o maior, mas modelo de eficiência para todo o mundo.
FHC não teria feito o mesmo? Impossível saber.
E o Aécio, vai acabar com o BF? Nem se ele quiser. O partido que fizer isso está morto politicamente, além de ser retardado, por que esse tipo de programa faz sucesso não é à toa. Eventualmente podemos discutir os benefícios deles, mas nem sei se vou perder tempo nisso. É fato que não existe AINDA modelo melhor que esse para acabar com a pobreza intergeracional (pobreza que gera pobreza entre gerações), que tenha tão bons efeitos sobre a saúde, educação, etc…
Então o BF é perfeito? Longe disso. Mesmo sendo um dos melhores, ainda tem coisas a aprender e melhorar.
E quem não gosta do Bolsa Família e acha que ele tem que acabar? Pois eu sugiro que sente e chore, por que ele não vai pra lugar nenhum, e você bem que podia usar essa energia toda pra discutir estudar e discutir o programa de uma forma construtiva.
Moral da história: PSDB deu um passo interessante para diminuir o aspecto eleitoral do BF, propondo lei para torná-lo programa de estado. O PT deveria ter feito isso antes, mas não fez. Mas a verdade é que nem os beneficiários do programa estão preocupados com quem criou o programa; são os mitos e lendas urbanas que têm mais efeito, e estes que devem ser combatidos e evitados (mas falaremos do uso político do BF outra hora, que aliás é um dos temas centrais do meu doutorado).
Os beneficiários do BF não votam em Lula só por que ele é o pai do BF, mas por que foi ele quem, pela primeira vez, colocou essas mesmas pessoas no centro do seu governo. Você quer julgá-las por isso?
E pra terminar: tem gente que entra em cólera quando vê o cruzamento do post anterior de beneficiários e votos na Dilma. Mas e se eu te mostrar um gráfico exatamente igual com aumento no IDH na última década e votos na Dilma, qual seria sua reação? Vou conseguir esse dados com uma amiga e faço as devidas referências em breve.