A acessibilidade em arquivos ePub3

Acredito que seja fundamental entender como os livros digitais possam ser mais acessíveis, permitindo assim a todos o acesso à informação e à cultura. Esta é também uma forma de revolução social.

A Acessibilidade em livros digitais está sendo bastante discutida e debatida neste periodo graças ao fato que o MEC nos seus últimos editais para o PNLD deixou de pedir o formato Mecdaisy e passou a exigir dos editores o formato ePub3 com especificações de acessibilidade (ex.: PNLD 2019, anexo IV).

Porém a preocupação da WEB quanto à acessibilidade é bem mais antiga. Ainda assim, mesmo com um longo percurso nas costas é um tema sempre atual e que precisa de atenção pois parece que ainda não conseguimos passar da ideia de acessibilidade para a prática da acessibilidade.

O que é acessibilidade

Para podermos entender a acessibilidade nos livros digitais precisamos entender um pouco mais da acessibilidade na web.

Acessibilidade na Web significa que pessoas com deficiência podem usar a Web. Mais especificamente, a acessibilidade na Web significa que pessoas com deficiência podem perceber, entender, navegar, interagir e contribuir para a Web. E mais. Ela também beneficia outras pessoas, incluindo pessoas idosas com capacidades em mudança devido ao envelhecimento. (W3C, 2005a)

Para o governo brasileiro, a definição torna-se um pouco mais específica e aborda o princípio de acessibilidade como garantia de acesso para o cidadão. O Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004, considera a acessibilidade (FERRAZ, 2017):

condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida […]. (BRASIL, 2004)

Para aprofundar este tema recomendo muito a leitura do livro do Reinaldo Ferraz, Acessibilidade na web, SENAC 2017. O livro digital está disponível na Kobo e na Amazon.

Os livros digitais, sobretudo o formato ePub3 seguem de perto as recomendações da WEB por ser um formato baseado nos padrões reconhecidos pelo W3C. Portanto, muitas das regras válidas para a WEB valem também para o ePub3.

Um dos primeiros conceitos que precisa ficar claro desde o inicio é que a acessibilidade não é um acessório ao livro digital, como por exemplo pode ser as funcionalidades multimídia: “Temos um eBook vamos completar ele acrescentando um vídeo…”. A acessibilidade é um requisito básico do livro digital (e da WEB).

Accessibility is not a feature, it’s a requirement (twitter de @queenofyelling)

Acessibilidade e ePub3

Para que a acessibilidade torne-se parte integrante do nosso fluxo de produção de livros digitais (ou produtos digitais em geral) precisamos desmistificar alguns pontos e assimilar que ela não é uma etapa do processo mas faz parte de todo o processo. Do autor que escreve o texto ao diagramador, fotógrafo, especialista em HTML e editor, todos são agentes ativos desta forma de ver o produto digital. Mão é um “bicho-de-sete-cabeças”, mas um paradigma que precisamos iniciar a aprender a viver em todos os produtos digitais aos quais contribuimos.

A acessibilidade no ePub3 parte dos padrões da WEB e portanto segue as recomendações do W3C, entre elas a Web Content Accessibility Guidelines (WCAG) 2.1 que é uma documentação que dá diretrizes de acessibilidade para a WEB. Você pode ler a documentação aqui.

Além disto segue também a WAI-ARIA Accessible Rich Internet Applications que fornece indicações de semântica para o funcionamento dos softwares leitores de tela. Recomendo a leitura deste artigo do Tableless sobre este tema.

Enfim o ePub3 obedece ainda às especificações próprias, o EPUB Accessibility 1.0.

Eu sei que estas siglas podem não significar nada e estas documentações podem criar confusão na cabeça do editor, mas é bom irmos nos acostumando a elas e procurando ler e entender o funcionamento destas normativas para que possamos ter um arquivo acessível. Teremos ocasião e aprofundarmos melhor cada uma delas.

O ePub3 como vocês já sabem é baseado no HTML5 e este por sua vez não é nenhuma linguagem obscura ou difícil de entender, pois é simplesmente uma marcação do texto digital que tem como função colocar em destaque as várias partes do texto fornecendo uma hierarquia, uma semântica e a possibilidade de reutilização do conteúdo. Portanto, um dos primeiros passos para que o livro digital seja acessível é usar corretamente o HTML5!

Recomendo aqui a leitura do livro “Open Web Platform” que irá ajudá-lo a ter uma visão mais ampla da acessibilidade no contexto da web como um todo. O livro digital você encontra na Kobo e na Amazon.

Dificuldades no caminho

As dificuldades em criar um arquivo acessível nascem do fato que ainda estamos transformado livros impressos em livros digitais. Ou seja, o conteúdo não nasce sendo pensado em primeiro lugar para o digital (digital first), mas a produção do livro digital é uma fase sucessiva, uma das etapas na produção.

Este modo de produzir livros digitais causa muitos transtornos pois precisamos remediar e corrigir os arquivos pensados apenas para o impresso.

Eu poderia citar aqui muitos exemplos que mostram como este é um ponto crucial, como por exemplo o fato de consideramos o PDF como arquivo base para a produção de conteúdos digitais. O PDF é um formato final no fluxo de produção digital e não pode ser considerado a base para a produção de eBooks. As razões disto são inúmeras e quem sabe em outra ocasião podemos aprofundar.

Outro ponto é a questão dos arquivos criados no inDesign ou no word onde não é aplicada nenhuma informação do tipo semântico, como estilos de parágrafos ou de títulos, ou quando existem não são coerentes e não seguem nenhum tipo de padrão. No momento da produção estas informações são perdidas e precisam ser inseridas novamente de alguma forma.

Além disto as imagens para os nossos produtos digitais não possuem uma descrição alternativa, descrição que pode ser inserida diretamente na imagem através do software de edição (Photoshop ou outro) e depois inseridas automáticamente na produção do ePub.

O mesmo fato ocorre com gráficos, tabelas e formulas. Aliás, no caso das fórmulas muitas vezes o editor nem sabe como descrevê-la delegando isto a um terceirizado que deve resolver o problema em tempos breves e a custos irrisórios. Talvez, envolver os autores desde o início do processo produtivo possa atenuar em muito estes problemas.

Metadados para a acessibilidade? O que é isso???

Bem, acredito que vocês entenderam que tem muitos elementos de acessibilidade no fluxo de produção de um livro digital que precisamos entender melhor. O envolvimento de todos os participantes irá com certeza deixar o processo mais rápido e barato.

Concluo esta primeira etapa afirmando que não basta que seu livro digital esteja em HTML5 ou ePub3 para que seja considerado acessível. O ePub3 possui a potencialidade de ser acessivel, mas para que ele seja de fato precisamos de mais elementos e sobretudo de um modo de ver a publicação que leve a acessibilidade em conta desde o inicio do processo produtivo.