Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre

Fundação Gilberto Freyre

Uma visita à casa do escritor, sociólogo e mais um milhão de outras coisas, Gilberto Freyre. Não deixe de conferir.

Dezesseis horas. O sol pintava a tarde em tons alaranjados quando estacionei sob um céu de mangas-rosas, pendente de duas árvores muito bem acomodadas naquele pedacinho de mata preservada. Uma placa de azulejo na entrada cuidava da apresentação: Vivenda Santo Antônio de Apipucos, local onde Gilberto Freyre e Magdalena fizeram morada.

O horário não foi escolhido por acaso. Desde as primeiras pesquisas sobre o lugar decidi que faria a visita à tardinha, como quem vai à casa de um amigo em busca de histórias e um golinho de café. O que não imaginava era que as porcelanas e objetos de decoração do casal fariam tão bem a sua parte, ajudando a entrar no clima, enquanto o cheiro dos móveis de madeira, livros e a poeira garantiriam a experiência sensorial.

Muito simpático, o guia se demorou uns trinta segundos em orientações do pode-não-pode do lugar e já começou a se aprofundar em detalhes e curiosidades. Falando muitas vezes em tempo presente — “é aqui que Gilberto senta para escrever os seus rascunhos”, “é neste espaço que faz suas pinturas, por achar a luz apropriada”, “com essa fruta que prepara o seu famoso licor…”-, o rapaz só aumentava a sensação de que os anfitriões que habitaram aquela casa tão pouco tempo atrás, de alguma forma, ainda viviam ali.

CASA-MUSEU MAGDALENA E GILBERTO FREYRE

Reconhecida como casa-grande original do século XIX, passou por uma reforma em 1881 e uma pequena ampliação na década de 1950, garantindo espaço para a criação de uma biblioteca apropriada para os livros e outros objetos da família Freyre. As paredes cheias de história abrigaram o casal até 1987, ano do falecimento do sociólogo.

Atualmente não são permitidas fotos na área interna da casa, mas a internet está aí pra deixar a vida da gente mais fácil, né? Encontrei imagens bem legais de uma matéria que vão ajudar a falar das belezas que vi por lá. As fotos são de Rogério Maranhão.

A sala de visitas é o primeiro dos 14 cômodos. Como se fosse padrão da casa, móveis de madeira e objetos de decoração vindos dos quatro cantos do mundo se espalham por todo lugar. O ambiente também é cercado por retratos de familiares de Gilberto, estantes de livros com parte do seu acervo pessoal e várias imagens de santos católicos, entre eles, Santo Antônio, por quem tinha uma devoção especial.

Ele acreditava que o santo deu um empurrãozinho para o casamento com Magdalena acontecer. Sim, rolou promessa. A coisa era tão séria que quando o casal juntou as escovas, o sítio recebeu o nome do casamenteiro.

Ainda na sala, uma mesa central concentra algumas das obras mais conhecidas do autor e uma edição raríssima de Os Lusíadas, de Camões, que teve apenas 150 exemplares, sendo que apenas dois encontram-se no Brasil.

A sala de jantar é cercada por oito painéis de azulejo trazidos da Igreja de Nossa Senhora da Soledade, em Portugal. No centro, uma mesa de jacarandá com mais obras e, no canto direito da sala, uma última garrafa do licor de pitanga preparado pelo próprio Gilberto, o qual ele fazia questão de oferecer as visitas.

O próximo cômodo é uma varanda, onde Gilberto costumava se dedicar à pintura. Me chamou atenção nesse ambiente uma coleção de cachaças, organizada no lado esquerdo da varanda e uma mesa com banquetes de azulejo, presentes da família real. Observe que cada azulejo da mesa apresenta um símbolo diferente, representando as antigas províncias do Brasil.

Na mesa, as inconfundíveis cerâmicas de Francisco Brennand, que tem um post exclusivo sobre sua oficina aqui no blog. Digo logo que vale a pena conferir.

Poucos degraus acima, chegamos aos quartos. Esses dispensam comentários. A dica aqui é atentar aos detalhes: uma peça aqui outra ali, fotografias, acessórios e bijuterias de Madalena. Minhas definições de bucolismo foram atualizadas.

Terminado o andar de cima, a visita continua na área externa, mas depois de tanta coisa incrível, confesso que não sobra muito para ver.

A varanda serve como espaço para acomodar o visitantes. O que é ótimo, porque depois de rodar a casa inteira é natural que a gente se sinta um pouco cansado. Minha dica é aproveitar pra fazer uma foto nesse banquinho simpático. E olha mais azulejo português aqui de novo.

Seguindo por uma pequena trilha entre árvores frutíferas, chego ao Mausoléu do casal. Um painel côncavo exibe pinturas que representam os principais temas tratados por Gilberto em suas obras: escravidão, açúcar, mistura de povos etc.

Assim como na visita, termino o post com um poema que, a seu próprio modo, representa a relação afetiva de Gilberto com o todo que cerca aquele lugar.

“As mangueiras
o telhado velho
o pátio branco
as sombras da tarde cansada
até o fantasma da judia rica
tudo esta à espera do romance começado
um dia sobre os tijolos soltos
a cadeira de balanço será o principal ruído
as mangueiras
o telhado
o pátio
as sombras
o fantasma da moça
tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno.”
(Silêncio em Apipucos, Gilberto Freyre)

Fundação Gilberto Freyre | Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre
Onde?
R. Dois Irmãos, 320, Apipucos, Recife. (Acesso pela Av. 17 de Agosto)
Quando? Segunda a sexta, das 9h às 16h30
Quanto? R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (meia)