Aposta dobrada

O Botafogo decidiu apostar em 2018 naquilo que acredita ter sido a fórmula de sucesso de 2016 (com continuação em 2017): um jovem técnico estreante formado no próprio clube e um elenco composto de jogadores da base e destaques de times médios e pequenos do Brasil, somados a alguns estrangeiros. Mas há muitas diferenças entre os momentos e os personagens.

O comando do futebol apresenta Felipe

Os bons resultados do período Jair Ventura são muito mais circunstanciais do que fruto de um trabalho estruturado, organizado ou minimamente planejado. Como símbolo maior dessa aleatoriedade, basta lembrar que em 2016 e 2017 o time reserva era mais caro do que o titular, o que denota claro equívoco na aplicação dos recursos.

As circunstâncias de Jair e de Felipe

Jair pegou o bonde andando (mal) em 2016 e aplicou a boa e velha fórmula de arrancada curta que funciona no Brasil até hoje: jogar sem a bola, fechar a defesa com um esquema tático simples, comprar o barulho do elenco (que já era dado como rebaixado) e tirar o máximo dos jogadores em todos os jogos. O time passou a jogar com mais organização defensiva e com jogadores capazes de contra-atacar bem em velocidade. Os resultados vieram em vitórias baseadas na solidez defensiva, especialmente contra as equipes mais fortes.

Esses resultados baseados na entrega total dos jogadores normalmente têm duração curta, com o elenco relaxando após passar o sufoco maior e entrando numa rotina de atuações com menor intensidade. A classificação à Libertadores, contudo, prorrogou essa validade. Mas com o desgaste não resolvido entre elenco e treinador, a eliminação da Libertadores marcou o fim desse bom momento do time.

Felipe Conceição se disse “pronto para assumir o profissional”.

Felipe Conceição então assumiu um desafio ainda maior. Reconstruir uma equipe que vinha de bons resultados, tendo que administrar expectativas oriundas do ano anterior mais o fato do novo elenco ser mais frágil do que os anteriores.

Para dificultar ainda mais, Felipe decidiu modificar radicalmente o modelo de jogo, adotando um mais complexo que demanda maior tempo e qualidade de trabalho. O time perdeu a identidade antiga e ainda não assumiu uma nova.

Elenco mais frágil

O time de 2016 não era brilhante, mas conseguiu a arrancada no segundo semestre apoiado em jogadores experientes como Bruno Silva, Airton, Carli e Camilo combinados com jovens importantes como Sassá e Émerson.

O time de 2018 parece mais o do primeiro semestre de 2016, que acreditava em jovens duvidosos como Gegê e apostas como Lízio e Gervasio, e tinha um treinador que também acreditava que jogaria num modelo de jogo mais complexo, com bola no pé.

Não sei se jogadores bem falados como Luis Fernando, Leandro Carvalho e Renatinho vão se firmar e jogar bem. Espero que sim. O problema é que nenhum deles parece ter experiência para liderar essa equipe e administrar a pressão que haverá ao longo do ano. Até por isso João Paulo tem se destacado, por ser o jogador mais experiente e ter se tornado referência do time. E olha que a carreira dele nem é das mais brilhantes.

O VP de Futebol, Gustavo Noronha, apresenta Kieza, que ganhava R$ 250 mil no Vitória

Valencia, maior salário do elenco, e Kieza, contratação mais cara (em salário) do ano, também são mais experientes do que a maioria do elenco. Mas ontem, na eliminação para a Aparecidense, ambos estavam no banco. Os vencimentos da dupla combinam para mais de R$ 700 mil. Isso é recurso mal aplicado.

As opções

A sensação geral é que o trabalho do novato Felipe com seu elenco cheio de apostas e incertezas não deve evoluir, seja por falta de tempo ou falta de qualidade mesmo.

Uma opção para o Botafogo é entregar o time para um técnico medalhão que tenha bagagem para lidar com a situação. E torcer para ele conseguir uma arrancada o suficiente para garantir a permanência na série A. O mais pedido com esse perfil é sempre Cuca.

Outra opção é um técnico mediano, mais barato, mais experiente do que Felipe porém com carreira de altos e baixos. Ou seja, outra aposta, embora menos arriscada do que o atual.

Por fim, outra possibilidade é a diretoria manter a aposta dobrada em Felipe Conceição, uma vez que consideram que todo o trabalho do futebol desde 2015 foi muito bem planejado e executado, e que agora estão apenas mantendo a mesma linha.

Reconhecimento de erro

Vale lembrar que em 2016 o técnico Ricardo Gomes não foi demitido, saiu por conta própria deixando o time na zona de rebaixamento. Jair Ventura foi efetivado “para dar continuidade ao bom trabalho”, mas para nossa sorte mudou tudo o que vinha sendo feito. Tivessem mantido Ricardo Gomes, teria sido série B em vez de Libertadores.

VP de Futebol, Gustavo Noronha, da nova geração de “amador com orgulho”, dificilmente reconhece erros.

O contrato de Felipe Conceição é de três anos, mesmo período do mandato de Nelson Mufarrej, o que mostra a convicção da diretoria de que realmente tudo está sendo feito na direção correta. Uma mudança de rumos agora pode ser vista como reconhecimento de erro, o que jamais foi feito pelo grupo que comanda o clube. Isso pode fazer com que retardem ao máximo qualquer mudança mais radical.

Ação urgente

Entretanto, se agora optarem por bancar Felipe como fizeram com Gomes, logo pode não haver mais tempo para correção.

É preciso uma revisão urgente no trabalho do futebol. Não podemos ficar nem mais três meses dessa maneira, que dirá três anos. O Botafogo não tem tempo para isso.

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