Carlos Eduardo adiantou R$ 100 milhões da Globo

Se você, torcedor, ouvisse alguém dizer que o Botafogo adiantou R$ 100 milhões do contrato com a Globo, comprometendo dois mandatos subsequentes, imediatamente pensaria: “maldito Maurício Assumpção, mas ainda bem que elegemos o Carlos Eduardo, que sempre combateu esse tipo de prática”.

É, mas foi exatamente isso que a atual gestão fez em apenas dois anos de mandato. Carlos Eduardo adiantou R$ 100 milhões da Globo e estendeu o vínculo até 2024, tirando receitas de dois mandatos subsequentes ao seu.

CEP repete práticas de Assumpção (foto: Extra online)

08/12/2015: R$ 40 milhões, contrato até 2019

Em reunião do Conselho Deliberativo de 08/12/2015, o contrato com a Globo, que se encerraria em 2017, foi estendido até 2019, com adiantamento de R$ 40 milhões, atingindo dois anos do próximo mandato.

A justificativa foi de que o Botafogo precisava de R$ 16 milhões para fechar o ano de 2015, obter Certidões Negativas de Débito e aderir ao Profut, programa de refinanciamento das dívidas fiscais.

Os R$ 24 milhões restantes só seriam utilizados com autorização do Conselho Deliberativo e do Conselho Fiscal, conforme ata da reunião destacada abaixo:

Página da ata da reunião de 08/12/2015: último parágrafo é bem claro.

“Concluiu o Vice-Presidente Executivo que é um compromisso da Diretoria que o saldo remanescente do adiantamento, depois de retirados os dezesseis milhões (R$ 16 milhões) para pagamento das dívidas correntes, será preservado fora do orçamento, sendo utilizado apenas nos casos de despesas julgadas necessárias pelo Conselho Diretor e com a devida aprovação dos Conselhos Fiscal e Deliberativo.”

Entretanto, jamais foi solicitada ao Conselho Deliberativo qualquer autorização para uso desses recursos, como pode ser visto nas atas das reuniões de 2016. Se foram usados na Arena Ilha ou em qualquer outra coisa, tal uso foi feito sem cumprir o escrito na ata de 08/12/2015.

18/10/2016: adiantamento de R$ 60 milhões, contrato até 2024

No primeiro semestre, surgiu uma informação de que novo adiantamento havia sido negociado com a Globo, desta vez referente a um contrato até 2024. A diretoria não confirmava, evitava se pronunciar sobre o assunto, até que o tema entrou na pauta da reunião do Conselho Deliberativo de 21/06/2016

A nova renegociação com a Globo, assinada sem passar pelo Conselho Deliberativo, deveria ser discutida na reunião de junho, mas este item foi retirado da pauta durante a reunião. Tal fato só foi devidamente tratado posteriormente, em 18/10/2016, numa reunião fechada, coisa que os atuais dirigentes sempre combateram eram oposição.

Nesta reunião, o Conselho Deliberativo referendou o que o presidente já assinara: adiantamento de R$ 20 milhões em 2016, mais R$ 40 milhões em janeiro de 2017, por um contrato que vai até o distante ano de 2024.


Total de adiantamentos: R$ 100 milhões

No total, renegociaram contratos com a Globo estendendo-os até 2024, isto é, indo até o 3º ano do segundo mandato após o atual.

E recebendo de adiantamento dividido assim: R$ 40 milhões em 2015, R$ 20 milhões em 2016 e mais R$ 40 milhões em 2017, totalizando incríveis R$100 milhões de adiantamento em dois anos, tirando receita de sete anos de mandatos subsequentes ao atual.

Note que os R$ 100 milhões de adiantamento serão recebidos no intervalo de 14 meses, de dezembro de 2015 a janeiro de 2017. Para comparação, o total de despesas de 2016 foi de R$ 129 milhões. 

Ou seja, Carlos Eduardo adiantou valores equivalentes às despesas de um ano inteiro. Está governando três anos com recursos correspondentes a quatro anos, comprometendo gravemente os mandatos 2017–2021 e 2021–2025.


Consulta ao Conselho Fiscal

Diante da gravidade do fato, questionamos o Conselho Fiscal, consultando três conselheiros.

1 — Em 21/11/2016, perguntamos informalmente a um conselheiro fiscal sobre o destino dos R$ 24 milhões do adiantamento de 2015. A resposta foi que o dinheiro foi usado para pagar várias contas no final do ano de 2015, com anuência do Conselho Fiscal. Entretanto, não sabemos o destino de tais recursos e fica o fato de não ter havido nenhum pedido de autorização ao Conselho Deliberativo.

2 — Em 24/11/2016, mandamos email a outro conselheiro fiscal, também questionando o destino desses R$ 24 milhões. Ainda não recebemos resposta. 

3 — Em 09/12/2016 enviamos email à presidente do Conselho Fiscal, ampliando o questionamento:

A) Qual o destino dos R$ 24 milhões que só poderiam ser utilizados com autorização dos Conselhos Fiscal e Deliberativo?
B) Sobre o adiantamento total de R$ 100 milhões, compromentendo os mandatos 2017–2021 e 2021–2025, existe restrição de uso? Por exemplo, existe necessidade de autorização dos Conselhos Fiscal e Deliberativo para que seja usado? 
C) A atual diretoria poderá utilizar este adiantamento para despesas correntes ou somente para investimentos e abatimento de dívida?

Ainda não recebemos resposta. 


Reunião de 15/12/2016 — Conselho Deliberativo tem dever de cobrar

É provável que a diretoria alegue que não tinha escolha senão aceitar os adiantamentos, que as propostas eram boas e que as circunstâncias não apresentavam melhores alternativas. Se o Conselho Deliberativo concordou com isso, mesmo nos casos em que o presidente assinou o contrato antes de consultar os conselheiros, é uma etapa. Outra é discutir como o dinheiro será gasto.

É imperativo que a diretoria venha a público esclarecer o destino de cada centavo desses R$ 100 milhões adiantados. Uma boa oportunidade é a reunião do Conselho Deliberativo de 15/12/2016, próxima quinta-feira.

Nesta reunião será apresentado o orçamento 2017, que mostra números preocupantes. As despesas aumentam, mas as receitas só têm algum crescimento graças aos R$ 40 milhões de adiantamento. Ou seja, sem o adiantamento, a conta não fecha, o que indica que o dinheiro será usado para cobrir a diferença negativa entre gasto e arrecadação.

Se esses recursos forem gastos sem agregar nada ao Botafogo em patrimônio, estrutura ou redução significativa de dívidas, isto é, se forem gastos em despesas correntes, Carlos Eduardo estará salvando seu mandato às custas do futuro do Botafogo.

A diretoria nos deve uma explicação. O Conselho Deliberativo deve cumprir seu papel de questionar e fiscalizar. E os sócios não podem mais se omitir como sempre fizeram.

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