CT do Botafogo: o sonho virando realidade

Se o torcedor do Botafogo pensou que não viveria nesse ano uma expectativa tão grande quanto a de um jogo pela Libertadores, foi surpreendido pela notícia de uma possível aquisição de um centro de treinamento (CT). Quem entende a importância dessa estrutura certamente está mais ansioso do que em disputa de pênaltis (até porque isso já perdeu a graça para nós).

Amanhã, 11/07/2017, o Conselho Deliberativo votará a proposta de aquisição de um CT construído em Vargem Pequena, zona Oeste do Rio de Janeiro. Como conta a reportagem do UOL, os irmãos Walter e João Moreira Salles financiarão a compra, e o Botafogo os pagará em 30 anos.

Ilustração do local (Espaço Lonier)

Há anos os torcedores clamam por um mecenas, sempre sonhando com aportes financeiros a fundo perdido feito por botafoguenses ilustres. Num futebol profissional, isso não é necessário. É possível que empresários façam esses investimentos e tenham retorno, se o projeto for viável.

A ajuda dos botafoguenses ilustres

Engana-se quem pensa que o Botafogo não tem ajuda de torcedores ilustres com grande condição financeira. Como em todos os grandes o clubes, no Botafogo também há ajuda política, financeira e de relacionamento institucional por parte de grandes torcedores. Porém, quem direciona os investimentos é o próprio clube. Nunca foi apresentado um projeto bem estruturado, viável, para que fosse feito um investimento com um retorno bom para todos.

Os irmãos Moreira Salles e outros alvinegros sempre socorreram o clube em momentos de dificuldades. Seja para fazer fundo de investimento, ajudar a captar patrocínio, fechar as contas ou até pagar salários, o Botafogo sempre contou com essas pessoas.

No mandato de Bebeto de Freitas, foi feito o CT João Saldanha em General Severiano. Esta obra foi capitaneada por um grande sócio botafoguense que colaborou fortemente nos mandatos de Bebeto de Freitas, Maurício Assumpção e continua a fazê-lo na gestão Carlos Eduardo. Os irmãos Moreira Salles são muito próximos a este sócio, em quem confiam bastante quando se trata de entrar em algum projeto envolvendo o Botafogo.

Citamos aqui os irmãos Moreira Salles porque já saiu na imprensa. Não citaremos o tal sócio porque não lhe pedimos autorização. Mas por ele ter uma visão mais moderna e profissional para o Botafogo, certa vez ouvimos de pessoas da sede que o clube deveria fazer uma reforma estatutária para “impedir que alguém como ele chegue à presidência”.

As condições do CT

O Conselho Fiscal do Botafogo já analisou o Memorando de Entendimento entre Botafogo e os irmãos Moreira Salles para aquisição do CT. O memorando trata das condições financeiras do negócio, que são as seguintes:

  • Valor máximo de R$ 25 milhões para aquisição de terreno mais obras (ou já pronto) .
  • Botafogo e irmãos Salles devem aprovar local e condições.
  • Imóvel fica em nome dos irmãos e por meio de Instrumento Particular de Promessa de Compra e Venda, será adquirido pelo BFR.
  • Pagamento em 360 parcelas iguais (30 anos).

O Conselho Fiscal também recomenda que o Botafogo se desfaça de Marechal Hermes ou de Caio Martins para arcar com as despesas mensais das parcelas e da manutenção do novo CT. Seria mesmo interessante para o Botafogo se livrar dessas instalações problemáticas e concentrar esforços e recursos em algo realmente seu.

Pelas contrapartidas exigidas pelos irmãos, o Botafogo deve:

  • Construir uma escola no local que atenda ao menos 60% dos jovens das categorias de base — além da bela preocupação com o social, uma escola agrega muito valor ao clube e aos jovens que lá estão. Ajuda até na formação como jogador.
  • Repassar aos irmãos Moreira Salles 20% dos direitos financeiros que couberem ao clube, derivados de negociação de jogadores das categorias de base.
  • Manter o percentual mínimo de 60% (sessenta por cento), dos direitos financeiros de qualquer jogador que passe pelas categorias de base do Clube — essa cláusula protege os irmãos e também o Botafogo, evitando o fatiamento dos direitos de jogadores da base.

As contrapartidas não apenas parecem justas como agregam valor e protegem o Botafogo em alguns casos.

O local

Conforme já noticiado amplamente, o CT deve ser num terreno de 200 mil metros quadrados em Vargem Pequena, onde hoje funciona o Espaço Lonier. O tamanho do terreno permite com sobras a construção de um CT integrado para categorias de base e profissional.

O local tem um campo de dimensões oficiais, mas já conta com outras estruturas prontas, como as de hospedagem, permitindo ao clube definir a melhor forma de realizar obras de adaptação às suas necessidades.

Infraestrutura esportiva (Espaço Lonier)

Fosse apenas um terreno baldio em município distante, já seria algo bom. Um terreno de 200 mil metros quadrados na zona Oeste do Rio traz excelentes perspectivas para o Botafogo.

Benefícios para o futebol

A base do Botafogo, blindada por Manoel Renha, conseguiu excelentes resultados com os bons profissionais capitaneados pelo diretor, mesmo padecendo de investimento muito baixo e infraestrutura modesta. Por isso o Botafogo desenvolve muito bem seus jogadores, mas não atrai os melhores talentos. Daí a tendência a revelar bons defensores inteligentes taticamente, mas poucos jogadores de ataque.

A nova estrutura do CT pode trazer o que faltava para a base dar um salto de qualidade, ainda mais num momento em que já perdemos um excelente profissional para o Cruzeiro e temos risco de perder outros para clubes mais estruturados.

Os profissionais, por sua vez, poderão trabalhar isolados da sede, com mais tranquilidade, privacidade e menos pressões e distrações. O treinador do profissional poderá acompanhar de perto os jovens das categorias de base.

A evolução da estrutura do Botafogo

Em 2014, durante o processo eleitoral, conversamos com algumas chapas e fizemos a todos a pergunta: o que você pretende deixar de legado para o Botafogo? A surpresa com a pergunta nos deixou preocupados com todas as chapas.

Em 2003, Bebeto de Freitas pegou um Botafogo rebaixado, endividado, até com computadores sumidos. Seu legado foi: Estádio Nilton Santos, CT João Saldanha, Ato Trabalhista, Timemania (o antecessor do Profut). A administração Bebeto teve inúmeros problemas, mas deixou este legado estrutural. Seu sucessor deveria manter as conquistas e avançar em dois pontos principais: um CT definitivo e categorias de base, abandonadas por Bebeto.

Em 2009, Maurício Assumpção assumiu nesse cenário. Teve dois méritos: conseguiu gerar receita e avançou nas categorias de base, que não tinham nada. Mas, além de tudo que já sabemos, ele depreciou as conquistas anteriores ao ser excluído do Ato Trabalhista, atrasar impostos, degradar o estádio Nilton Santos e não fazer CT — o Botafogo de Assumpção regrediu.

Em 2014, Carlos Eduardo assume esse Botafogo. Primeiro volta ao Ato Trabalhista e depois adere ao novo Profut. O Botafogo desfazia alguns retrocessos de Assumpção. Em 2017, passa a utilizar melhor o Nilton Santos. A categoria de base, agora nas mãos de Manoel Renha, dá sequência e melhora o trabalho que já vinha de alguns anos.

Note que não abordamos resultado de campo, pois não nos interessam bons resultados fortuitos. Mais do que ganhar um título, queremos que o Botafogo tenha estrutura que lhe permita disputar todos os grandes títulos ano após ano.

O legado de Carlos Eduardo

Carlos Eduardo, quando cobrado para que fizesse um CT, sempre alegou que o clube não tinha condições para tal. Apesar disso, esbanjando os R$ 100 milhões adiantados junto à Globo, o clube gastou R$ 13 milhões na Ilha do Governador e anunciou mais R$ 3 milhões em obras no Nilton Santos para receber treinos do profissional (ninguém sabe em quanto ficou essa obra). Esses R$ 16 milhões gastos em menos de um ano já seriam 64% desses R$ 25 milhões do Memorando de Entendimentos.

Em janeiro deste ano, em entrevista à Rádio Botafogo, Carlos Eduardo pensava em utilizar Marechal Hermes e trabalhar com as categorias de base descentralizadas mesmo, pois entendia ser o possível a ser feito. Não se cogitava um CT, o que nos leva a crer que esta proposta tenha surgido recentemente.

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Entretanto, ao assinar este contrato pelo CT, Carlos Eduardo preenche a lacuna que faltava para o Botafogo entrar no século XXI e passar a ter condições estruturais em nível semelhante às de seus competidores.

A torcida tem acompanhado como o estádio Nilton Santos é uma vantagem para o Botafogo dentro e fora de campo. E no seu aniversário de dez anos, ganha a companhia do CT.

O Botafogo terá os seguintes pilares para continuar evoluindo:

Futebol:

  • Estádio Nilton Santos.
  • CT integrado.

Financeiro:

  • Ato Trabalhista.
  • Profut.

Precisamos evoluir na questão administrativa:

  • Profissionalizar o clube.
  • Isolar o futebol do social.
  • Gerar receitas.
  • Aplicar os recursos corretamente.

Esperamos que o sim dito pelos conselheiros nesta terça seja o início de uma nova era para o Botafogo.

Daqui a alguns anos, quando o Botafogo for candidato a título nas principais competições, lembremos de 2007 (Nilton Santos) e 2017 (CT).