Má gestão no Botafogo Chega ao Limite: Diretoria se Fecha e Sócios Reagem

Reunião secreta e convocada às pressas pode sacrificar o futuro do Botafogo

Quando se faz um relato, o mais importante não é se o fato relatado é triste ou feliz: ele precisa ser verdadeiro. Se você estiver doente, mas, mesmo assim, mentir ao médico sobre seus sintomas e hábitos, e depois mentir para a sua família sobre o diagnóstico, as pessoas acreditarão que você está bem, enquanto você nada faz e sua saúde só piora. Elas só descobrirão que você está com algum problema quando os sintomas estiverem tão evidentes que será impossível escondê-los. Porém, pode já ser tarde demais para você ser salvo.

Com dirigentes de clubes é a mesma coisa. Eles devem satisfação aos torcedores e, por força de estatuto, aos sócios. Quando Carlos Eduardo Pereira assumiu o Botafogo em novembro de 2014, todos sabiam da situação caótica deixada por Maurício Assumpção — e ele teve amplo apoio para adotar as medidas que julgasse necessárias. Daí em diante, porém, era necessário lidar com novas questões que surgiriam ao longo de seu mandato. Contar a verdade, assumir erros, reconhecer limitações e buscar ajuda. Se contasse a verdade, todos entenderiam e apoiariam, ainda que pudesse haver discordâncias pontuais.

A opção de CEP e seus militantes foi outra: continuar sempre atribuindo todos os problemas a Maurício Assumpção e anunciando sempre ótimos resultados de sua gestão para se vangloriar. Custe o que custasse, o lema era manter sempre a versão de que tudo estava sendo bem feito, tudo era correto. Isso significa negar até o fim verdades inconvenientes ou criar factóides, como os tais R$ 40 milhões de patrocínio da Topper anunciados na cara dura pelo vice de Comunicação.

Agora, com a crise batendo à porta, sem muitas opções de postergação e ilusão, a diretoria decidirá o futuro financeiro dos próximos anos em uma reunião secreta, com diversos temas de alta relevância. Como reação, sócios se unem para cobrar explicações do Conselho Fiscal.

Choque de Realidade

Agora que chegamos a uma situação extremamente crítica, não é mais possível mistificar as pessoas, já que a realidade se impôs: Nelson Mufarrej convocou uma reunião SECRETA do Conselho Deliberativo para quarta-feira, dia 25/07/2018, quando vai “pedir autorização” ao Conselho para antecipar receitas, assinar novo aditivo ao contrato da Globo e para assinar, em lote, contratos de locação de quatro imóveis (Jacarepaguá, antigo Estrela do Sul, sala no estádio Nilton Santos e andar no edifício Santos Dumont).

Transparência Zero

Um detalhe mostra bem o que é a administração de CEP e Mufarrej: os conselheiros deliberativos não receberam nenhum documento, eles estão “disponíveis na Secretaria do Conselho Deliberativo”.

Ora, está claro o objetivo de levar para aprovação uma série de contratos de extrema relevância sem que ninguém tenha tido tempo de ler nada. A reunião foi convocada sexta-feira, dia 20/07/2018, e será realizada no dia 25/07/2018. Cinco dias de intervalo. Além disso, os conselheiros precisam se programar para ir a uma reunião, que ocorre às 19h. Poucos têm condições de ir à Secretaria do Conselho Deliberativo para pegar toda esta documentação. Com um detalhe: com somente dois dias úteis de antecedência. Está óbvio o objetivo de esconder tudo.

Não é a primeira vez que os conselheiros são chamados a votar documentos aos quais não tiveram acesso. Esta prática já é uma marca do atual grupo político.

Para completar o pacote de obscurantismo, a reunião será novamente fechada aos sócios. Não é a primeira vez que o Mais Botafogo faz isso.

Reunião Secreta do Conselho Deliberativo do Botafogo

Orçamento 2018: Botafogo Sem Medo Alertou para o Risco de Atrasos

Quando da aprovação do Orçamento 2018, fizemos uma análise onde demonstrávamos grave preocupação com os números apresentados e com sua otimista apresentação. Escrevemos que:

Alguns números não ficam muito claros no livro orçamentário, como os passivos 2017 e 2018, e há manobras contábeis para fechar positivamente o fluxo de caixa, o que vai frontalmente contra o parecer emitido pelo Conselho Fiscal.

Completávamos afirmando que o déficit acumulado de 2018 seria de cerca de R$ 24 milhões se o otimista orçamento proposto se realizasse totalmente — lembre-se dos R$ 20 milhões em vendas de atletas e a projeção de aumento de 100% em arrecadação do Sou Botafogo (que não é plano de sócio, como já explicado aqui).

Sem a realização completa das receitas orçadas, isto é, supondo não realizar venda de jogadores nem aumentar em 100% as receitas do Sou Botafogo, o déficit acumulado poderia chegar a R$ 50 milhões.

Isso significa que a necessidade de receitas extraordinárias ou de aumento substancial em receitas correntes era algo urgente já para janeiro. Alertamos exatamente para estas consequências:

Caso o Botafogo não consiga R$ 18 milhões (em venda de atleta) até janeiro de 2018, o fluxo de caixa ficará comprometido já no primeiro mês de operação. Com este déficit, o clube será obrigado a recorrer a novos adiantamentos de fornecedores (o que atualmente restringe-se à Globo) ou a mais empréstimos bancários.

A confirmação disso está no fato dos atrasos de Profut e salários estarem correndo já no segundo trimestre, bem como a não obtenção das Certidões Negativas de Débito, como admitido pelo Nelson Mufarrej em entrevista ao GloboEsporte.com.

Entretanto, em dezembro do ano passado o presidente Nelson Mufarrej parecia estar vivendo numa realidade paralela, anunciando incremento de 20% no orçamento do futebol, em entrevista ao GloboEsporte:

O orçamento está sendo fechado agora, mas acho que vai ser mais ou menos por aí (20% de aumento).

Você pode ler nossa completa análise do Orçamento 2018 aqui.

Histórico de Antecipações e Empréstimos: Sempre Realizados, Jamais Admitidos

Carlos Eduardo Pereira administrou três anos com receitas equivalentes a quatro anos. Isso porque antecipou R$ 100 milhões dos contratos com a Globo — segundo documentos do Conselho Fiscal, do Conselho Diretor e do Conselho Deliberativo, R$ 40 milhões como empréstimo (na prática, tem o mesmo efeito que a antecipação, pois condicionado a redução e extensão do valor global do contrato) e R$ 60 milhões como antecipação. Em contrapartida, reduziu o valor global dos contratos e os estendeu até 2024, comprometendo os mandatos de Nelson Mufarrej (2018–2020) e de seu sucessor (2021–2024).

Você pode lembrar os detalhes deste caso aqui.

Carlos Eduardo sempre negou tais fatos com veemência e reagia atacando pessoalmente quem questionava tais práticas. A verdade, entretanto, cedo ou tarde aparece. Explicamos bem este caso aqui, motivo pelo qual sofremos retaliações e ataques de todo lado. Na época, é bom lembrar, aguardamos o futebol do Botafogo encerrar sua temporada para questionar publicamente estes atos, o que mostra a preocupação primeira com o clube, não com seus dirigentes.

Além disso, os balanços registram empréstimos novos e renegociações de antigos (significa pegar algum valor a mais e compor a dívida antiga), como com o banco Modal e com botafoguenses com alto poder financeiro. Carlos Eduardo sempre negou tais empréstimos.

Balanço Fantasia: déficit vira superávit

A reunião emergencial secreta, com impedimento prático de qualquer análise dos contratos pelos conselheiros, corre um mês após o Conselho Fiscal aprovar sem qualquer ressalva o balanço 2017, que registrou um incrível superávit de R$ 53,373 milhões. Nos outros anos também sempre foi registrado superávit. Demonstrações contábeis pelo regime de competência podem sofrer manipulações contábeis que transformem déficits em superávits.

Um caso recente ilustra bem. No balanço 2016, constava uma dívida com a Odebrecht no valor de R$ 35,5 milhões, mas no ano de 2017 tal dívida desapareceu. Em contrapartida, na rubrica “receitas diversas”, referente ao item “Receita Clube Social e Esportes Olímpicos”, em 2016 registrou receita de R$ 1,47 milhão, e em 2017 saltou para R$ 43 milhões. Tal diferença, segundo analistas, seria a tal dívida com a Odebrecht, que sumiu do passivo e apareceu em receitas, pois o Jurídico teria dito que é “causa ganha”. Assim teríamos saído de um déficit de quase R$ 20 milhões para um superávit de mais de R$ 50 milhões.

Fluxo de Caixa Não Mente

A maneira como essa história é contada induz ao entendimento de que ano após ano estamos arrecadando muito mais do que estamos gastando, o que não é verdade. São apenas manobras contábeis para deixar o resultado no azul. Na prática, continuamos gastando mais do que arrecadamos, pois não há corte de despesas não prioritárias.

Assim, saindo mais dinheiro do que entramos, e com a não realização de receitas extraordinárias que estavam equivocadamente orçadas para pagar despesas correntes, o caixa fica no vermelho, o clube perde capital de giro e começa a atrasar contas. Não se deve considerar receitas extraordinárias como se fossem correntes, nem se deve inflar receitas correntes. O gestor deve ser conservador quanto à arrecadação e equilibrar o orçamento via redução de despesas.

A reação da diretoria a esta situação é fazer mais do mesmo: antecipar receitas, alongar contratos (piorando seus valores), pegar empréstimo e ficar torcendo por alguma receita extraordinária ou fato novo que ajude (como o Profut). As despesas não são cortadas, a crise é adiada, mas certamente retornará em curto prazo mais aguda e mais complexa.

Conselho Fiscal Decorativo

Outro ponto problemático é o atual Conselho Fiscal. Na gestão passada, o Conselho Fiscal foi sóbrio e atuou no sentido de identificar problemas e indicar caminhos, além de cobrar mais transparência (pelo menos dois memorandos reclamavam de documentos não enviados). Carlos Eduardo Pereira reagiu com uma das manobras mais antiéticas da história do Botafogo: na farra de benemerência que distribuiu a seus partidários (incluindo um título de Grande Benemérito a si mesmo), incluiu o nome da presidente do Conselho Fiscal. Ainda assim, o Conselho Fiscal manteve boa atuação e fez parecer bastante técnico e com algumas ressalvas e alertas quanto ao orçamento 2018. Você pode ler este parecer aqui.

A composição atual, entretanto, é diferente. O atual presidente do Conselho Fiscal até pouco tempo era presidente do próprio grupo Mais Botafogo, do qual é um dos militantes mais exacerbados. Foi ele quem partiu para cima de um conselheiro que criticou a atual diretoria na última reunião do Conselho Deliberativo. Sim, um conselheiro foi atacado pelo presidente do Conselho Fiscal porque estava criticando a diretoria. Não é um comportamento digno do cargo que ocupa.

Conselho Deliberativo: entre Silêncio e Intimidação

O Conselho Deliberativo nunca se caracterizou por ser um espaço de debates e construção de ideias. Em geral, o presidente tem ampla maioria no Corpo Transitório (conselheiros eleitos para um mandato) e o Corpo Permanente (composto por beneméritos, que são conselheiros vitalícios) costuma apoiar seguindo orientação de alguns caciques.

Porém, o que vimos no período do Mais Botafogo no poder extrapola qualquer coisa vista antes. Os apoiadores de CEP e Mufarrej agem como torcida organizada. Nada é questionado, toda fala deles é aplaudida com vigor. Qualquer conselheiro que ouse questionar, é hostilizado. Veja, eu disse questionar, fazer perguntas, pedir explicações, dar sugestões de soluções diferentes. Isso é o suficiente para gerar uma reação agressiva, com ataques pessoais.

Um benemérito está processando Carlos Eduardo Pereira porque integrantes do Mais Botafogo partiram para cima dele quando criticou CEP numa reunião do CD. Na última reunião o presidente do CF partiu para cima de um conselheiro de oposição. Outros conselheiros já foram hostilizados verbalmente pelo grupo em plena reunião de Conselho Deliberativo.

Para piorar, as atas de reunião estão diferentes. Agora estão enxutas, omitindo várias falas e debates realizados. Isso porque nós, do Botafogo Sem Medo, sempre usamos tais atas para depois cobrar o que foi falado e prometido. Por exemplo, em 2015, ao pedirem aprovação do empréstimo-antecipação da Globo, foi prometido que o dinheiro excedente só seria usado após consultas ao CD. Tais consultas jamais foram feitas, e nós até hoje cobramos isso. Para evitar cobranças, passaram a omitir essas falas nas atas, registrando apenas o assunto e se foi aprovado ou não. As falas que ainda ficam são basicamente de defesa da gestão.

Os conselheiros também não estão mais recebendo, ou recebendo sem tempo hábil, a documentação completa dos temas a serem votados. A diretoria faz uma apresentação sucinta e os conselheiros votam no escuro, baseados apenas em breve fala da direção, principal interessada nas aprovações sem discussões. É o que foi feito para a reunião da próxima quarta, onde tudo será aprovado sem análise.

Com estas práticas, o Mais Botafogo captura, intimida e impede o debate no Conselho Deliberativo.

Sócios Também São Intimidados

A tentativa de silenciar quaisquer questionamentos não se limitam aos conselheiros deliberativos. Os sócios também sofrem com retaliações. Uma sócia foi suspensa por 120 dias no ano passado porque criticou o presidente Carlos Eduardo Pereira num grupo de WhatsApp do qual ele nem fazia parte. Ela foi “imparcialmente julgada” e suspensa, ficando fora do processo eleitoral.

Nós também sofremos com retaliações. Em dezembro de 2016, quando denunciamos que Carlos Eduardo pereira já havia antecipado R$ 100 milhões em receitas da Globo, fomos duramente hostilizados em reunião do Conselho Deliberativo, onde os conselheiros do Mais Botafogo se revezavam ao microfone para nos atacar covardemente, sem que tivéssemos direito de defesa. Infelizmente, como parte da política de omissão de informações, tais falas não foram transcritas na ata da reunião, prática que vem sendo adotada a partir de então.

Questionar o Mais Botafogo dentro do clube é atualmente uma atitude que pode trazer consequências negativas ao incauto que ousar se manifestar.

Cuidado com “especialistas” e coberturas superficiais

As história de autopromoção e ocultação da situação real acabam tendo eco na imprensa, o que ajuda a iludir a massa de torcedores. Sem inocentes úteis ou pessoas que desinformam por interesse, as narrativas fantasiosas não se sustentariam.

Também são frequentes entrevistas superficiais com dirigentes, que mais parecem feitas por assessoria de imprensa, análises superficiais de jornalistas que mal sabem as cores do Botafogo e até de supostos influenciadores, que estão mais preocupados em autopromoção e sensação de relevância do que propriamente em buscar o melhor para o clube.

Sócios cobram explicações sobre novas antecipações

Os sócios proprietários e os poderes constituídos do clube (especialmente Conselho Deliberativo e Conselho Fiscal) têm a obrigação de zelar pelos interesses do Botafogo, e não simplesmente apoiar tudo que determinado grupo político faz ou simplesmente silenciar.

É dever dos sócios e dos conselheiros fiscalizar e cobrar os gestores. Quando se omitem desse dever, estão tacitamente corroborando as más práticas de gestão nocivas ao presente e ao futuro da instituição.

Por isso, um grupo de sócios se mobilizou para fazer um requerimento para cobrar explicações do Conselho Fiscal quanto à contradição entre o alardeado superávit de R$ 53 milhões do Balanço 2017 e a incapacidade de pagar obrigações como salários e Profut, recorrendo a novas antecipações. Também questionam a forma de contabilização da dívida da Odebrecht, que pode ter sido a manobra contábil que transformou déficit em superávit.

São necessárias 200 assinaturas de sócios para convocar uma reunião extraordinária do Conselho Fiscal a fim de que o órgão dê suas explicações. Afinal, este colegiado aprovou sem ressalvas o Balanço 2017, cujos números nos parecem querer contar uma história bem diferente da realidade que afinal se impõe.

Torcedor tem que questionar e cobrar

Portanto, questionem tudo que vocês lerem e ouvirem, inclusive este blog. Questionem sempre os dirigentes. Contestar dirigentes não significa ir contra o Botafogo. Ao contrário, ao questionarmos e cobrarmos, estamos evitando que más práticas sejam perpetuadas.

O torcedor é o patrão dos dirigentes, e não o contrário. O Botafogo não é deles, é de todos nós torcedores.

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