Mais Botafogo: Preso ao Passado, Sacrifica o Nosso Futuro

CEP e Mufarrej, Mufarrej e CEP

Hoje, dia 16/10/2018, o Conselho Deliberativo do Botafogo se reunirá para votar (e certamente aprovar) mais uma antecipação de receitas, desta vez no valor de R$ 18,8 milhões. Uma hora antes, o Conselho Fiscal se reunirá para debater o tema, que deve ser aprovado — o parecer deverá ser lido na reunião do Conselho Deliberativo. Pior: esta não será a última antecipação do ano. Ainda há mais uma prevista, o que comprometerá ainda mais os próximos anos. Já fica difícil até saber quanto o Botafogo já perdeu de dinheiro de 2019 e 2020 e até de anos mais distantes.

Na última reunião sobre antecipação de receitas, em 25/07/2018, houve forte reação da torcida a esta prática. A reunião foi secreta, houve um protesto que começou pacífico mas terminou com a invasão à sede de pessoas que não sabem protestar com paz. Dentro do clube, a habitual truculência do Mais Botafogo foi usada para aprovar tudo a qualquer custo, a ponto de um membro da Mesa Diretora do Conselho Deliberativo renunciar por não concordar com os procedimentos dos colegas de Mesa.

Estas antecipações desesperadas vão contra tudo que Carlos Eduardo Pereira sempre propagandeou sobre si mesmo, geram questionamentos da torcida e por consequência a uma reação mais fechada e agressiva do Mais Botafogo, recusando-se a reconhecer que o modelo que defende não funciona e não tem mais espaço hoje.

TORCIDA ESTÁ DÉCADAS À FRENTE DA DIREÇÃO

O mais emblemático disso é estarmos vendo pela primeira vez uma torcida se preocupando com questões financeiras, e não apenas com resultado de campo. Logicamente, sabemos que CEP legou a Mufarrej um clube com as finanças no fundo do poço, de modo que não há escolha senão aprovar um dinheiro qualquer agora para fechar os meses que restam. Quando sócios e torcedores protestam, há um objetivo maior: impor limites, mostrar que essa prática não pode ser recorrente, que soluções devem ser buscadas em outro modelo. O atual se esgotou.

E então temos a diferença entre torcida e diretoria. Os torcedores, ainda que ninguém seja necessariamente um especialista em gestão, governança, marketing, etc.; hoje já compreendem que o globalizado futebol atual, com orçamentos de centenas de milhões de reais, não pode mais ser gerido como era o clube social de décadas atrás. O Mais Botafogo, por outro lado, tem a convicção de que o modelo amador, voluntarista e personalista é o único caminho viável.

O Mais Botafogo é um grupo de amigos que acreditam em si mesmos como salvação única para o clube. Certa vez, um dos vice-presidentes fez discurso acalorado na sede contra dirigentes profissionais que, segundo ele, “não se importam com o clube”. Defendia que os amadores, sim, como se orgulham de serem chamados, é que se importam com o Botafogo, portanto devem estar sempre à frente da execução das ações.

Entretanto, para não nos repetirmos em críticas a pessoas, que hoje já são um senso comum, e para não nos limitarmos a dizer o que não queremos, vamos tentar explicar brevemente o Botafogo que queremos quanto à forma de gestão.

Todo mundo apresentando o desastre Felipe Tigrão

É PRECISO REDESENHAR O MODELO COMPLETAMENTE, NÃO APENAS MUDAR NOMES

Muita gente fala em mudança de modelo de forma bastante abstrata. Palavras como “profissionalização” acabam se banalizando. Porém, essa mudança é real e já está em curso no Brasil, e ocorre a partir de conceitos já compreendidos e aceitos pelo mundo do futebol.

Basicamente entende-se que o futebol atual não pode mais ser tocado pelo clube social e seus dirigentes amadores de décadas atrás. A simples mudança para o tal clube-empresa também não funciona, resultando numa empresa natimorta por inadequada ao negócio futebol.

O modelo que funciona é o da separação total entre futebol e social. O clube social, o Botafogo de Futebol e Regatas, continua existindo, mas o futebol passa a ser tocado profissionalmente por uma subsidiária sua, digamos a Botafogo Football Club AS (em homenagem ao Botafogo Football Club, de 1904), que seria propriedade do Botafogo de Futebol e Regatas, com contrato amarrando bem questões financeiras, patrimoniais e de uso de imagem, e tocada por profissionais qualificados para tal, sem amadores e curiosos se metendo no dia-a-dia.

BOTAFOGO SEM MEDO — RESUMO DA NOSSA PROPOSTA DE NOVO MODELO

Para reunir resumidamente o que defendemos e já escrevemos, explicamos em três fases como se daria a mudança do Botafogo do século XX para o século XXI, dos amadores para o profissionalismo.

Fase 1: Ações de curtíssimo prazo na situação atual

Prazo para implementação da fase 1: imediato.

Muito se fala na incapacidade de geração de receita como causadora dos déficits. Esse é o lado mais visível do problema. O outro é lado dos gastos, tanto em quantidade, quanto em qualidade. Um clube como o Botafogo, com problemas sérios para pagar salários de sua atividade principal, não pode se desdobrar em atividades paralelas, especialmente quando elas são recorrentemente deficitárias.

O Botafogo deve concentrar esforços e recursos no futebol, eliminando tudo que não for obrigatório e não tiver relação com esta atividade. Sendo sede social e remo obrigatórios, é preciso tornar a sede autossustentável, e ela tem capacidade para isso, e o remo ficar com o menor custo possível, preferencialmente via lei de incentivo.

O futebol deve ter despesas enxugadas e investimentos muito precisos, tocados por profissionais qualificados, isolado do achismo de amadores que contratam aleatoriamente com o dinheiro do clube, gerando passivos onerosos.

Estas ações imediatas seriam as seguintes:

Sede, remo e esportes olímpicos:

# Esportes olímpicos: corte drástico de despesas — fim dos esportes olímpicos (não se enganem, nenhum deles se sustenta sozinho);

# Remo: projeto social no remo, com leis de incentivo, sem contratar profissionais caros, reduzindo o custo ao mínimo para a manutenção, preferencialmente com 100% de recursos captados externamente.

# Sede autossustentável: é possível em curto prazo, especialmente com o ginásio todo voltado para geração de receita da sede, sem uso pelo basquete e outros esportes;

Lembrem-se: paciente terminal não doa sangue. Com essas medidas imediatas, o dinheiro do futebol fica todo no futebol.

No futebol:

# Redução de despesas: cortar tudo que for desnecessário, inclusive com eventuais excessos de dirigentes em viagens, distribuição de ingressos, camarotes e outras benesses custosas para o Botafogo.

# Aplicação dos recursos no futebol profissional: hoje o elenco conta com jogadores indicados pelas mais variadas pessoas de forma aleatória — um VP disso, um VP daquilo, um patrocinador, sei lá mais quem, como se estivessem brincando de videogame. Não se pode pagar R$ 480 mil no Leo Valencia. Isso é jogar no ralo um dinheiro já escasso. Portanto, o uso do dinheiro no futebol deve ser rigoroso, feito por profissionais qualificados e com critérios bem definidos.

# Venda de jogadores: melhorar contato com empresários e agentes para agilizar e rentabilizar vendas de jogadores. O Botafogo com muita dificuldade revelou jogadores e não os vendeu por incapacidade de fazer negócio. No futebol de hoje isso é feito via relacionamento com empresários e agentes, que não devem ser demonizados. É preciso estabelecer uma relação profissional, comercial e institucional de ganha-ganha entre clube e empresários (como há em vários concorrentes), visto que esta é uma inescapável realidade do mundo do futebol.

Fase 2: mudança estrutural para profissionalização do clube

Prazo para implementação da fase 2: até dois anos (tempo necessário para a elaboração, tramitação e aprovação da reforma estatutária).

A fase 2 consiste numa significativa reforma estatutária para adequar o Botafogo ao novo século. As diretrizes principais são:

# Fim do Conselho Diretor e criação do Conselho de Administração: o Conselho Diretor atual é composto pelo presidente e pelo VP Geral eleitos, mais os seus VPs nomeados, e tem como função tocar a execução das atividades do clube. O Conselho de Administração tem caráter estratégico, não executivo, sendo formado por conselheiros eleitos e com o objetivo de dar diretrizes e supervisionar o trabalho da Diretoria Executiva;

# Criação de Diretoria Executiva: composta por profissionais de mercado, é operacional, toca o dia-a-dia do clube com metas e prestação de contas, supervisionada pelo Conselho de Administração (estratégico).

# Conselho Fiscal independente: não pode ser composto por conselheiros eleitos pelas chapas, devido a claros conflito de interesse. A função do Conselho Fiscal deve ser complementada por auditoria externa independente e contratada de forma transparente.

# Separação entre social e futebol: manter o sócio proprietário ligado ao clube social e, em paralelo (não abaixo), o sócio futebol ligado ao futebol. Categorias paralelas, porém distintas: o sócio proprietário tem direitos e destinação de recursos para o social e o sócio futebol tem direitos e destinação de recursos para o futebol;

# Compliance: há mudanças importantes em termos de governança, risco e conformidade típicas das instituições modernas, envolvendo por exemplo a elaboração de política sobre conflito de interesses, criação de Conselho de Ética, dentre outras.

Fase 3: separação definitiva entre social e futebol

Prazo para implementação da fase 3: um anos após a reforma estatutária (tempo necessário para a negociação e formalização do acordo com um parceiro investidor).

A fase 3 é o momento em que, reestruturado e com condições de governança interna adequadas para uma administração profissional, o Botafogo pode buscar um parceiro para o futebol. Com tudo bem amarrado em contrato, o parceiro pode ser um investidor de porte que terá parte das ações da BFC SA. Este modelo tem variáveis, como a abertura de parte do capital em ações mais pulverizadas.

As ações desta etapa são basicamente resumidas em:

# Busca de investidor parceiro;

# Definição de tempo de contrato e metas;

# Possibilidade de novos modelos com parte das ações pulverizadas (torcedor pode ser acionista);

# Marca Botafogo e todos os seus direitos continuam com o clube social, que sempre permanece dono da SA do futebol.

A novidade importante quanto à fase três é que encontrar um parceiro investidor seria menos difícil do que à primeira vista possa parecer.

Para relembrar

Sobre a etapa 3, da criação da SA do futebol, você pode ler mais aqui.

Sobre a crise financeira atual, em 20/12/2017 escrevemos que aconteceria exatamente isso quando foi aprovado o orçamento fantasioso, com diversas receitas que sabidamente não se realizariam e com altas despesas que deveriam já ter sido cortadas. Você pode ler sobre isso aqui.

Sobre a reunião secreta de 25/07/2018, que aprovou outra antecipação e vários contratos de locação, leia aqui.

A crise atual começa com diversas antecipações feitas por Carlos Eduardo Pereira, que então passou a negá-las publicamente. Sobre os R$ 100 milhões antecipados por CEP, leia aqui.