O Fantástico Mundo de Carlos Eduardo Pereira no Botafogo

RESUMO: A passagem de Carlos Eduardo Pereira pela Presidência do Botafogo sempre foi vista como positiva. Mas o seu legado, agora duramente comprovado por Nelson Mufarrej, é de adiantamentos e orçamentos fantasiosos. Aqui está a verdade sobre os números da gestão CEP no Botafogo.

Em 2016 e 2017, o então presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira, recebeu um total de R$ 100 milhões em adiantamentos da Globo. A venda de jogadores feitas por Maurício Assumpção também rendeu recursos ao clube. Isso compensou a incapacidade de CEP e seus vices de obter patrocínios e outras fontes de receitas — para nossa sorte, botafoguenses influentes obtiveram o patrocínio da Caixa.

Carlos Eduardo Pereira sabia o que estava entregando ao seu sucessor, mas não podia (e ainda não pode) admitir. Afinal, é preciso preservar a imagem de super-herói, de “CEP mito”. É aqui que entra a história por trás dos números.

Se CEP é um reconhecido fracasso na captação de recursos, poderia ao menos ter a dignidade de reduzir as despesas a patamares compatíveis aos das receitas. Em vez disso, CEP manteve despesas elevadas bem além das receitas recorrentes, escondendo os buracos gastando as extraordinárias.

Mas eis que surge um problema: como fazer em 2018, sem as receitas extraordinárias?

CEP resolveu o seu próprio problema. Como papel aceita tudo, inflou a previsão de receitas até que cobrissem as despesas previstas para 2018. Aumento de 100% de sócio torcedor, R$ 20 milhões em venda de jogadores, captação de R$ 7 milhões via leis de incentivo… CEP sabia que nada disso se realizaria, mas não era essa a sua preocupação. O importante para CEP era entregar o papel com um número azul. Quando a realidade se impusesse, o problema não seria mais dele, mas de Nelson Mufarrej.

Não é à toa que o sumiço de CEP se deu após ele conseguir aprovar as contas de 2017. Desde então, garantiu que o problema não fosse mais dele. Agora basta deixar o desastre com Mufarrej e se eximir de qualquer culpa.

“IMPREVISTOS” FORAM PREVISTOS: R$50 MILHÕES DE DÉFICIT

Na última reunião do Conselho Deliberativo, em 16/10/2018, o vice executivo, Luis Fernando Santos, explicou que o ano de 2017 fechou com R$ 18 milhões negativos e que esse déficit foi carregado para 2018, gerando uma despesa ainda maior. O vice-financeiro, Luiz Felipe Novis, disse que a previsão é fechar o ano com déficit de caixa de R$ 49 milhões. Veja, neste caso estamos falando de caixa mesmo, vão faltar R$ 49 milhões para fechar as contas desse ano (contando com os R$ 18 milhões deixados em aberto por CEP).

Novis alegou que não era possível prever o déficit de R$ 18 milhões deixados por CEP em 2017 e por isso eles não entraram no orçamento. Alegou que “o orçamento é feito em outubro e as contas só fecham em dezembro”. Isso não é verdade.

Para fazer o orçamento 2018, utilizou-se como base o realizado 2017 até setembro e foi projetado o último trimestre para que fosse estimado o fechamento 2017.

Ao projetar o resultado 2017, estava claro que haveria déficit significativo. E ao analisar o orçamento, estava claro que o buraco aumentaria bastante em 2018. Novis pode não ter visto, mas o Conselho Fiscal e este Botafogo Sem Medo viram.

CONSELHO FISCAL: PREVISÕES “EXTREMAMENTE OTIMISTAS”

Você pode ler o parecer comentado do Conselho Fiscal (CF) sobre o orçamento 2018 aqui. Nele, o CF alerta para vários pontos aqui abordados:

Queda de 10% nas receitas. Essa queda só não foi maior porque muitas previsões foram infladas de forma irreal:

“2 — Com uma redução de 10 % das receitas em relação ao realizado no ano de 2017, entendemos que esta variação está embasada principalmente na inexistência de recursos oriundos da antecipação de contratos de Direitos de transmissão de TV, que foram de 40 milhões de reais, recebidos em janeiro/2017. Esse decréscimo de receita poderá ser minimizado pela projeção de receita de possíveis vendas de direitos econômicos de atletas e aumento de 100% dos sócios torcedores, projeção extremamente otimista em relação ao histórico do programa em questão.”

Não houve redução de despesas. As receitas cairiam, mas isso não foi acompanhado pelas despesas. Isso porque CEP subiu as despesas a um patamar impossível de cobrir sem as receitas extraordinárias. Daí a necessidade de inflar o orçamento para tentar fechar a conta virtual no azul:

“4 — Devemos salientar que não houve redução significativa de gastos para 2018, já que as diferenças numéricas dos custos foram transferências de linhas operacionais para o passivo devido às novas regras de apresentação do balanço e a não alocação de premiação da Libertadores, ou seja, a redução real foi de 3%, fazendo com que as despesas continuem seguindo da mesma dimensão de 2017.”

O Conselho Fiscal conclui alertando que 2017 teria déficit e que as contas de 2018 também fechariam no vermelho, pois as receitas seriam insuficientes para cobrir as despesas:

“Destarte, o Conselho Fiscal, ressalva que a situação que o clube passou em 2017, poderá ser ainda mais dificultosa em 2018, já que os valores recebidos de antecipação de receitas de transmissão recebidas no início de 2017 (que não constavam do orçamento) e utilizadas ao longo desse ano, não foram suficientes, já que pelas projeções, o resultado operacional previsto para 2018, não será capaz de suprir as despesas não operacionais, além de que poderemos ter um possível resultado negativo no final de 2017, o que poderá impactar o orçamento de 2018 substancialmente, obrigando renegociações com os credores para garantir o funcionamento operacional do clube e também urge que se defina uma estratégia a curto e médio prazo para elevar receitas e reduzir despesas, cumprindo o compromisso de “só se gastar o que está previsto no orçamento”.”

BOTAFOGO SEM MEDO ALERTOU PARA OS DÉFICITS DE 2017 E 2018

Nós, do Botafogo Sem Medo, analisamos o orçamento 2018 e os números de 2017 utilizados como referência. Nas nossas contas, verificamos um déficit de R$ 18 milhões em 2017, e projetando o pior cenário do orçamento (excluindo as receitas mais fantasiosas), chegamos a um déficit acumulado de R$ 50 milhões em 31/12/2018. Esta análise pode ser lida aqui.

Esses números dos déficits de 2017 e 2018 sempre foram negados, mas na última reunião de 16/10/2018, o vice executivo confirmou exatamente este valor de déficit para 2017 e o vice financeiro confirmou o valor de déficit para 2018. Ou seja, como das outras vezes, esconderam a realidade para protegerem a si mesmos.

Primeiro, com base nos números deles, projetamos os resultados de 2017 e 2018:

Depois, fizemos o exercício do pior cenário para 2018, que seria excluindo receitas improváveis como venda de jogadores e sócio torcedor:

SITUAÇÃO PODE SER PIOR

Como as receitas são projetadas, deve-se ter em mente que algumas possuem maior ou menor grau de incerteza. É preciso considerar, portanto, o pior cenário, isto é, que algumas delas podem não se concretizar.
Destacamos duas receitas que consideramos que tenham alto grau de incerteza: a venda de atletas, em R$ 20 milhões, e o aumento de R$ 6 milhões no sócio torcedor, que totalizam R$ 26 milhões. O parecer do Conselho Fiscal considerou o aumento de 100% do sócio torcedor como “extremamente otimista”.
Mantendo o valor das despesas e do passivo e retirando essas duas receitas, a receita total de 2018 cai de R$ 204 milhões para R$ 178 milhões, reduzindo o lucro operacional de R$ 65,6 milhões para R$ 39,6 milhões e aumentando o déficit do resultado de 2018 de R$ 6,2 milhões para R$ 32,2 milhões.
Incluindo os R$ 18 milhões de déficit deixados em 2017, chegaríamos a 31/12/2018 negativos em R$ 50,3 milhões.
Há outros riscos contidos na previsão de receitas do orçamento. Como afirma o parecer do Conselho Fiscal, caso não se concretize na plenitude a captação de recursos via lei de incentivo fiscal, o dinheiro oriundo do futebol terá de cobrir novamente as despesas dos outros esportes.
Portanto, qualquer não realização de receitas previstas no orçamento aumentará o déficit projetado. E sendo o orçamento extremamente otimista quanto a algumas receitas, é improvável que as mesmas se realizem na plenitude das previsões.

Portanto, se Novis tivesse lido o parecer do Conselho Fiscal ou acessado este blog, não teria sido pego de surpresa. Estava tudo escrito.

CEP MILAGREIRO: A DÍVIDA QUE VIRA RECEITA

Os demonstrativos contábeis em regra utilizam o regime de competências, exceto o demonstrativo de fluxo de caixa. Pelo regime de competência, as operações são registradas na data em que ocorrem, mesmo que naquela data não haja entrada e saída de caixa. Por essa razão, é possível que uma entidade apresente lucro mas tenha caixa negativo, ou apresente prejuízo e tenha caixa positivo. O fluxo de caixa é o que mantém a instituição em funcionamento, e é pelo caixa que as empresas quebram.

Um dos casos mais emblemáticos de mau uso dos números para contar uma história fantasiosa é o da dívida da Odebrecht. Arredondando os números, o empréstimo de R$ 20 milhões contraído em 2013 estaria no ano passado em torno de R$ 35 milhões. Esta dívida deveria ser registrada no balanço patrimonial. Entretanto, o Jurídico teria dado garantias de que essa é “uma causa ganha”, e Carlos Eduardo Pereira então registrou esse valor como receita na rubrica “sede”.

Com essa manobra, R$ 35 milhões negativos foram transformados em R$ 35 milhões positivos, uma diferença de R$ 70 milhões. Desta forma, o que seria um déficit de R$ 20 milhões se transformou em superávit de R$ 50 milhões.

Mas note que isso não representa entrada e saída de caixa nem representa que no ano de 2017 o Botafogo arrecadou R$ 50 milhões a mais do que gastou. Entretanto, a maneira como CEP alardeou o superávit (e muita gente boa repercutiu) dava a entender que, financeiramente, sua gestão teve um saldo positivo de R$ 50 milhões de reais, como se isso fosse uma sobra de caixa.

Não à toa nos últimos dias de sua gestão CEP pegou um empréstimo com o banco Modal. Se as finanças iam tão bem, esta operação deve ter sido só pelo hábito de fazer empréstimos e antecipações.

POR QUE CEP NEGA A REALIDADE?

A esta altura, você deve estar se perguntando por que dirigentes como CEP não contam a história real dos números. No caso do orçamento, um dos motivos para inflar as receitas é o limite de antecipação de receitas. Este limite é fixado pelo Conselho Fiscal e é calculado sobre as receitas orçadas. Portanto, quanto mais infladas as receitas no orçamento, mais dinheiro o presidente consegue antecipar.

Outra razão é mais simples: promover a si mesmo. Nada mais velho e repetitivo do que passar a vida botando a culpa de tudo de ruim na administração anterior e comemorando qualquer coisa básica como um feito heroico seu. Assim foi o mandato de CEP.

Ao longo de três anos, talvez a única coisa a destacar seja a pintura do estádio de Nilton Santos. De resto, CEP limitou-se a gastar um dinheiro que não tinha, a comprometer o futuro do Botafogo e se defendendo por meio de retóricas agressivas ou bobagens como forçar brigas com rivais para tirar o foco de sua má gestão.

E na falta do que apresentar de concreto, resta torcer, contorcer e distorcer os números até que contem a história que ele quiser. Por mais absurda que seja.

Carlos Eduardo Pereira legou a Mufarrej uma crise financeira pior do que a de 2014. E naquele ano tínhamos certeza de que não havia como piorar. Mas está aí CEP para provar que sempre pode piorar.

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