O Peso da Incapacidade das Diretorias: os Erros se Repetem e o Botafogo não Cresce

Quem Será o Próximo?

Após 24 rodadas do Campeonato Brasileiro, temos números emblemáticos: a campanha do Botafogo em 2018 é idêntica à de 2014. São 26 pontos em 24 jogos, com 36,1% de aproveitamento. Na realidade, a campanha de 2014 estaria à frente da de 2018 devido ao número de vitórias (7 contra 6). Isso não é por acaso. Estamos vivendo a fase final do voo de galinha.

A expressão voo de galinha refere-se a pequenos saltos não sustentáveis. Alguém numa situação muito ruim consegue um pequeno crescimento, curte o bom momento, mas não consegue sustentá-lo, e a queda o faz retornar ao mesmo ponto anterior ou até pior.

Note como as administrações são em geral semelhantes. O presidente novo assume pintando um quadro desesperador. Nos primeiros anos, tudo de ruim é culpa da administração anterior, e qualquer coisinha positiva (ainda que seja algo básico) é celebrado como grande conquista. Se houver alguma conjuntura conspirando a favor, surfa-se no bom momento como se este fosse uma conquista exclusiva do novo gestor. Neste momento, qualquer crítica é vista como política ou como defesa do antecessor.

As quedas posteriores são simples de explicar. Quando, por alguma razão externa, a administração consegue recursos extraordinários ou condições específicas e casuais de obtê-los, sabe que tais recursos não serão recorrentes, tais situações não se repetirão. Há, portanto, duas opções para o gestor: ou ele investe tais recursos excepcionais em melhorias estruturais que elevarão permanentemente o patamar financeiro e competitivo da instituição, ou ele gasta os recursos pensando apenas no curto prazo da própria administração, promovendo a si mesmo como grande responsável por um bom momento, mas condenando o futuro da instituição.

Essa segunda opção é o que chamamos de voo de galinha, e em regra é a opção escolhida pelo gestor de momento. Foi assim com Maurício Assumpção, foi assim com Carlos Eduardo Pereira.

VOO DE GALINHA: MAURÍCIO ASSUMPÇÃO

Assumpção assumiu o Botafogo em 2009, mas já começou a comandar em fins de 2008, quando Bebeto lhe deu toda autonomia na transição. Maurício pintou um quadro catastrófico. Embora houvesse problemas, o Botafogo tinha Ato Trabalhista, Timemania, CT João Saldanha, Companhia Botafogo e estádio Nilton santos. Nada disso existia em 2003, quando Bebeto de Freitas assumiu.

Maurício viveu condições especiais e não recorrentes em seu mandato: Maracanã fechado por longo período devido às obras para a Copa do Mundo. Além disso, a economia brasileira estava em alta, com muito dinheiro circulando devido a condições externas como crises de Europa e EUA, altos investimentos chineses, preço do petróleo alto. No ambiente interno, tínhamos Copa do Mundo, que significava oportunidade de investimento no futebol pelas empresas, Maracanã fechado e Olimpíada 2016, cujo estádio olímpico seria o do Botafogo.

Veja bem as condições de Maurício: investimento em alta, economia forte, dinheiro entrando no país, Copa do Mundo e Olimpíada, Maracanã fechado e estádio Nilton Santos sendo o único do Rio por pelo menos três anos.

Tínhamos basicamente duas opções: pensar em longo prazo ou em curto prazo. Em longo prazo, o Botafogo deveria ter atraído investimentos para o estádio com contratos longos, de pelo menos dez anos, que garantissem receitas mesmo após o Maracanã fechado. Ainda que reduzisse o valor no curto prazo, estabilizaria as receitas do estádio mesmo com o concorrente retornando. Também deveríamos aproveitar o maior fluxo de dinheiro para promover investimento em estrutura (um CT, por exemplo).

Logicamente o Botafogo pensou em curto prazo. Os contratos do Nilton Santos no período com os dois coirmãos como inquilinos forçados foram desastrosos. Encerravam-se quando o Maracanã reabrisse, de modo que após o retorno do concorrente teríamos sérias dificuldade de obter receitas. Além disso, o estádio foi precificado muito baixo com três clubes jogando. Como seria a precificação de mercado com um só jogando?

Maurício surfou um bom tempo na crista do voo de galinha. Virou modelo de gestão, dava entrevista como gestor moderno, mas o tempo passou e veio a queda. Em 2014 voltamos não a 2008, mas pior, a 2002.

VOO DE GALINHA: CARLOS EDUARDO PEREIRA

Carlos Eduardo Pereira assumiu o Botafogo repetindo as mesmas coisas de Maurício Assumpção, com o acréscimo do viés moral (por exemplo, era contra fazer contratos com empresas de parentes de dirigentes) e de outras promessas, como o sócio-torcedor (que fingiu cumprir). O Ato TRT estava pronto, só aguardando a saída de Assumpção, com quem o tribunal não conversaria mais. E o Profut avançando cada vez mais (aprovado em 2015). Com esses dois fatos, Carlos Eduardo Pereira deixou de correr riscos de penhoras por dívidas fiscais e trabalhistas.

CEP teve uma vantagem adicional: a renegociação de contratos da Globo, em parte devido ao Esporte Interativo e novas mídias. Com as três renegociações que fez, Carlos Eduardo Pereira pegou R$ 100 milhões referentes ao período até 2024 (engloba todo o mandato posterior a Mufarrej). Também renegociou alguns empréstimos (na verdade, pegou novos empréstimos).

É um enorme volume de recursos, que ele sabia que não se repetiriam mais a partir de 2018. O que CEP poderia ter feito com tais recursos? Um CT, abatimento de dívidas (pagando à vista, é possível usar por exemplo R$ 10 milhões para abater R$ 30 milhões ou R$ 40 milhões de dívidas nominais, como um coirmão fez), investimento nas categorias de base (o do Botafogo é ínfimo, perdendo para todos os grandes e alguns médios), profissionalização da gestão, melhorias no estádio, etc.

Mas não. Assim como Maurício Assumpção, CEP gastou os recursos de forma perdulária, pensando somente no próprio mandato. A Arena da Ilha, usada em pouco mais de dez jogos, foi orçada em R$ 5 milhões e custou um total de R$ 13 milhões. Um coirmão jogou em Edson Passos por menos de R$ 1 milhão, tendo aproveitamento de campo semelhante ao nosso. CEP não cortou despesas, manteve investimentos em outros esportes como basquete e remo (ao passo que os rivais cortaram investimento nesse esporte), dentre outros.

FUTEBOL ALEATÓRIO

A mentira da austeridade também se fez presente no futebol. Não houve a política de contenção de gastos, o que demanda mais investimentos na base para sustentação do elenco profissional (especialmente para compor reservas).

No futebol, as contratações continuaram sendo absolutamente aleatórias, aplicando muito mal os recursos disponíveis. R$ 480 mil em Leo Valencia, mais de R$ 400 mil em Montillo, mais de R$ 300 mil com Canales, dentre outros. As contratações de Felipe Tigrão e Marcos Paquetá são emblemáticas do despreparo e da arrogância de quem comanda o futebol, lembrando muito a de Eduardo Húngaro. Pelo terceiro ano seguido teremos um time reserva mais caro do que o titular, o que denota péssimo planejamento de elenco.

Jair Ventura foi efetivado como treinador para “manter o trabalho de Ricardo Gomes”, aquele que estava nos levando à série B. Felizmente Jair mudou tudo (embora até hoje CEP acredite ter sido uma continuidade) e nos deu um ano e meio de bons momentos. Foi o suficiente para que nós, torcedores, nos divertíssemos no auge do voo de galinha, mesmo sabendo que aquilo era algo muito efêmero.

A DESCENDENTE DO VOO

Nelson Mufarrej assumiu numa situação curiosa. Não pode fazer discurso de terra arrasada, pois seu antecessor era CEP. E a parte descendente do voo de galinha começa a aparecer claramente na sua gestão. O título carioca deu certo alento e fez alguns esquecerem Tigrão e a Aparecidense, mas Marcos Paquetá nos fez lembrar do que é a gestão Gustavo Noronha no futebol.

CEP deixou o Botafogo sem os recursos extraordinários, que torrou tanto que precisou fechar 2017 com mais um empréstimo. Agora, a conta chega bem cara. Salários atrasados, nada de recursos gerados pela turma de Padilha, futebol gerido de forma aleatória, torcedor afugentado pelo time e, novamente, pela turma do Padilha.

É PRECISO QUEBRAR O PADRÃO ASSUMPÇÃO-CEP

A próxima gestão do Botafogo não pode seguir o mesmo padrão de Assumpção e CEP, cujas administrações cada vez mais parecem uma só. Quem assumir o clube precisa realizar uma profunda reforma interna no Botafogo, e os recursos precisarão ser aplicados de forma precisa e minuciosa, pensando num clube sustentável e em permanente evolução.

O Botafogo não aguenta outro Assumpção nem outro CEP.

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