Orçamento 2018: redução de 6% no Futebol e déficit de pelo menos R$ 24 milhões

Ontem, 19/12/2017, o Conselho Deliberativo do Botafogo aprovou o orçamento 2018 proposto pelo Conselho Diretor.

Alguns números não ficam muito claros no livro orçamentário, como os passivos 2017 e 2018, e há manobras contábeis para fechar positivamente o fluxo de caixa, o que vai frontalmente contra o parecer emitido pelo Conselho Fiscal, que publicamos comentado aqui.

Ainda assim, pelo cenário projetado pela diretoria, o Botafogo deve fechar o ano de 2018 com um déficit acumulado de R$ 24 milhões. Caso algumas receitas com alto grau de incerteza não se realizem, esse déficit pode ultrapassar a casa dos R$ 50 milhões.

O resumo da proposta orçamentária é o seguinte:

Vamos agora explicar estes números do orçamento de 2018 do Botafogo.

Futebol: redução de 6% no investimento

Em 2017 (com números do 4º trimestre projetados), o Botafogo informa que gastou no futebol R$ 119,37 milhões, sendo R$ 67,47 milhões em “Gastos com Pessoal”. Entretanto, o próprio parecer do Conselho Fiscal diz que há “diferenças numéricas dos custos” em virtude das “novas regras de apresentação do balanço” — algumas despesas que estavam na rubrica futebol foram realocadas em outras rubricas. Feitos os ajustes, os números reais das despesas do futebol em 2017 passam a ser de R$ 104,9 milhões, sendo R$ 53,4 milhões em “Gastos com Pessoal”.

Para 2018, o orçamento prevê gastos no futebol de R$ 98,9 milhões (-6% em relação ao ajustado 2017), sendo R$ 53,4 milhões em “Gastos com Pessoal” (-3% em relação ao ajustado 2017).

Dos “Gastos com Pessoal” orçados para 2018, R$ 48,9 milhões referem-se ao item “Atletas Profissionais”, sendo R$ 37,1 milhões em “Despesa com Pessoal” e R$ 11,8 milhões em “Despesas Gerais”. Os Direitos de Imagens estão incluídos na rubrica “Despesas Gerais” e somam R$ 8,2 milhões.

Estes números do futebol contradizem a declaração do futuro presidente Nelson Mufarrej, que durante o período eleitoral disse em entrevista ao Globoesporte.com que haveria aumento de 20% na folha salarial:

“O orçamento está sendo fechado agora, mas acho que vai ser mais ou menos por aí (20% de aumento).”

Resultado 2017

Para entender os números de 2018, primeiro precisamos saber o que 2017 nos deixa. Ainda não há o número consolidado do último trimestre, uma vez que o ano ainda está em curso. Portanto, o resultado projetado baseia-se no realizado até setembro e no projetado de outubro a dezembro.

Em 2017, o Botafogo contou com o recebimento de R$ 40 milhões da última parcela de adiantamento da Globo referente ao contrato de TV de 2019 a 2024. Somados ao R$ 188,9 milhões de receitas de 2017 e outros financiamentos, o clube obteve receita total de R$ 228,9 milhões.

As despesas operacionais somaram R$ 169,2 milhões, gerando um lucro operacional de R$ 59,8 milhões. Entretanto, o passivo, isto é, pagamento de dívidas como Profut, Ato Trabalhista e outras despesas financeiras, foi de R$ 77,8 milhões, fazendo com que o resultado projetado para 2017 seja negativo no valor de R$ 18 milhões, caso não haja nenhuma receita nova até 31/12/2017, como uma venda de jogador.

Portanto, 2017 ficou assim:

Orçamento 2018: o planejado pelo Conselho Diretor

Para 2018, primeiro veremos o resultado final caso tudo projetado pela diretoria se realize. Um orçamento, lembremos, é composto de receitas e despesas projetados pelo Conselho Diretor. Algumas são certas, outras possuem maior ou menor grau de incerteza.

Analisaremos posteriormente o resultado caso as receitas com maior grau de incerteza não se concretizem.

Pelo orçamento proposto pela diretoria, a receita cai de R$ 228,9 milhões para R$ 204 milhões. Se desconsiderarmos o adiantamento de R$ 40 milhões da Globo que entrou em 2017, na verdade há um aumento projetado nas fontes de receitas de R$ 188,9 milhões para R$ 204 milhões.

Este aumento de receita baseia-se especialmente em duas projeções bem otimistas. R$ 20 milhões em vendas de atletas e aumento de 100% nas receitas de sócio torcedor, o que representa incremento de mais R$ 6 milhões (de R$ 6 milhões em 2017 para R$ 12 milhões em 2018).

Conforme o item 4 do parecer do Conselho Fiscal, as despesas sofrem redução real de 3%, isto é, no mesmo patamar de 2017, embora em 2017 tenha sido de R$ 169,7 milhões e o orçamento preveja quase R$ 140 milhões para 2018. Isso devido principalmente a adequações contábeis para atendimento a novas regras da CBF.

O lucro operacional (receitas menos despesas operacionais) projetado é de R$ 64 milhões. Ao incluirmos o passivo previsto de R$ 71,8 milhões, o resultado final de 2018 passa a ser negativo em R$ 6,2 milhões.

Este número de R$ 71,8 milhões do passivo foi calculado a partir da informação do parecer do Conselho Fiscal de que estas despesas correspondem a 34% das despesas de 2018. Como as despesas operacionais somam R$ 139,4 milhões e correspondem a 66%, basta fazer a conta. Entretanto, na reunião de ontem o VP Financeiro Luiz Felipe Novis chegou a afirmar que esse passivo em 2018 seria de R$ 73 milhões, o que tornaria o saldo ainda pior.

Vimos que 2017 deixou déficit de R$ 18 milhões, que somado ao déficit de R$ 6,2 milhões de 2018 deixa o clube negativo em R$ 24,3 milhões em 31/12/2018 (a soma de 24,3 e não 24,2 deve-se a arredondamento).

Este é o melhor cenário, isto é, se tudo previsto no otimista orçamento de fato se concretizar.

Situação pode ser pior

Como as receitas são projetadas, deve-se ter em mente que algumas possuem maior ou menor grau de incerteza. É preciso considerar, portanto, o pior cenário, isto é, que algumas delas podem não se concretizar.

Destacamos duas receitas que consideramos que tenham alto grau de incerteza: a venda de atletas, em R$ 20 milhões, e o aumento de R$ 6 milhões no sócio torcedor, que totalizam R$ 26 milhões. O parecer do Conselho Fiscal considerou o aumento de 100% do sócio torcedor como “extremamente otimista”.

Mantendo o valor das despesas e do passivo e retirando essas duas receitas, a receita total de 2018 cai de R$ 204 milhões para R$ 178 milhões, reduzindo o lucro operacional de R$ 65,6 milhões para R$ 39,6 milhões e aumentando o déficit do resultado de 2018 de R$ 6,2 milhões para R$ 32,2 milhões.

Incluindo os R$ 18 milhões de déficit deixados em 2017, chegaríamos a 31/12/2018 negativos em R$ 50,3 milhões.

Há outros riscos contidos na previsão de receitas do orçamento. Como afirma o parecer do Conselho Fiscal, caso não se concretize na plenitude a captação de recursos via lei de incentivo fiscal, o dinheiro oriundo do futebol terá de cobrir novamente as despesas dos outros esportes.

Portanto, qualquer não realização de receitas previstas no orçamento aumentará o déficit projetado. E sendo o orçamento extremamente otimista quanto a algumas receitas, é improvável que as mesmas se realizem na plenitude das previsões.

Resultado Acumulado 2018

Caso não venda atletas nem aumente em 100% a receita com sócio torcedor, o Botafogo chegará a 31/12/2018 com um déficit acumulado em 2017 e 2018 no valor total de pelo menos R$ 24,3 milhões.

Para evitar tal déficit, o Botafogo precisará criar receitas novas ou aumentar a rentabilidade das já existentes, além de reduzir ao máximo as despesas.

Em situações de escassez de recursos, é preciso fazer escolhas. De um lado, ser meticuloso na aplicação dos recursos, sem investir em supérfluos, reduzir despesas e otimizar investimentos. E por outro lado, atuar para ampliar as receitas.

OS GRAVES EFEITOS DO DÉFICIT

Financiamento mais difícil

Caso o Botafogo não consiga R$ 18 milhões (em venda de atleta) até janeiro de 2018, o fluxo de caixa ficará comprometido já no primeiro mês de operação. Com este déficit, o clube será obrigado a recorrer a novos adiantamentos de fornecedores (o que atualmente restringe-se à Globo) ou a mais empréstimos bancários.

Antecipações são mais difíceis hoje

Como a atual gestão já pegou R$ 100 milhões em adiantamentos com a Globo em troca de estender contrato até 2024, inclusive renegociando redução de valores de contrato vigente, novas antecipações não seriam algo simples. O clube seria obrigado a estender ainda mais o já longo contrato ou renegociar novas reduções no valor global em troca de mais dinheiro na mão hoje. Isso comprometeria gravemente a maior fonte de renda do Botafogo para as próximas gestões.

Empréstimos

Buscar empréstimos no mercado significa comprometer-se com altas tarifas bancárias e colocar ativos ou receitas em contrapartida. O dinheiro é caro para um clube como o Botafogo, devido ao alto risco que o clube representa. O Botafogo já tomou empréstimos na atual gestão, especialmente com o Banco Modal.

Retorno a 2014

Caso haja demora na captação desses recursos e o clube volte a conviver com atrasos de salários e impostos, poderemos retornar à situação vivida em 2014, último ano de Maurício Assumpção, com penhoras e exclusão do Ato Trabalhista.

NECESSIDADE URGENTE DE AUMENTAR RECEITAS E REDUZIR DESPESAS

Novas receitas

Embora o marketing seja das áreas mais criticadas atualmente, é preciso reconhecer que a ampliação de receitas advindas de sócio torcedor em 2018 seria bastante improvável mesmo com um departamento mais qualificado, dadas as circunstâncias do final de ano de 2017. A busca por novas formas de parceria e arrecadação devem ser o foco do trabalho da área comercial.

Venda de atletas

Uma das mais imediatas e possíveis formas de aumentar a arrecadação talvez seja a venda de atletas. Neste caso, não basta formar bons jogadores, o que, reconheçamos, o clube tem feito já há alguns anos. O problema nos últimos dois anos não reside na capacidade de formar, mas de reter e vender bem os jogadores formados em casa.

Como comparação, o Botafogo conseguiu boas vendas com o zagueiro Dória, o meia Vitinho e mais recentemente o atacante Ribamar, mas não teve sucesso com Émerson e Sassá, por exemplo. O clube precisa retomar essa capacidade de vender jogadores por bons valores, especialmente para o mercado europeu.

Redução de Despesas

Do ponto de vista das despesas, um clube que projeta tal situação financeira não pode se dar ao luxo de ter déficits recorrentes nas rubricas clube, remo e esportes gerais. Deve haver trabalho forte de contenção de despesas no clube, e outros esportes não sustentáveis não podem ser fonte de despesa dos recursos obtidos pelo futebol.

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