Que a Noite de General Severiano Não Tenha Sido Normal

O Conselho Deliberativo do Botafogo (25/08/2017 — Vítor Silva/SSPress/Botafogo)

O fim de semana da torcida do Botafogo foi de preocupação. A derrota em um clássico e a contusão do Jefferson causaram preocupação em todos aqueles que ainda se importam com o futuro do clube. Mas o fato que iria agitar a semana alvinegra ocorrera, na verdade, na sexta.

Na “calada da noite” do dia 20, surgiu a convocação para uma reunião secreta e extraordinária do Conselho Deliberativo do Botafogo. O objetivo era adiantar a receita da Globo e assinar em lote alguns contratos de aluguel, bem como criar uma nova vice-presidência, votando em um ocupante para o cargo cujo nome estranhamente não foi comunicado na convocação.

Sábado e domingo se passaram normalmente, com exceção, claro, da derrota no clássico. Contudo, em algum momento na segunda-feira, houve um clique. A torcida despertou. Mensagens nas redes sociais eram em tom de indignação. Depois, revolta. Ninguém podia acreditar que voltaríamos ao pesadelo de adiantar receitas. E a torcida sabe muito bem para aonde isso leva.

Era surpreendente. No Facebook, Twitter e Whatsapp surgiu outra convocação para o horário da reunião de quarta do Conselho: “Protesto Botafogo (contra Insanidade Financeira)”. Não havia margem para dúvidas: o torcedor não queria antecipação de cotas.

Na manhã daquela, o Botafogo Sem Medo havia publicado o texto “Má gestão no Botafogo Chega ao Limite: Diretoria se Fecha e Sócios Reagem”. Ali, foram relatados muitos problemas financeiros e políticos da atual gestão. Aliás, já pedindo perdão pela falta de humildade, vários deles já haviam sido antecipados aqui mesmo neste espaço. Voltando ao texto, talvez ele tenha servido para auxiliar no entendimento da situação e, com isso, ajudar a torcida a fazer as perguntas certas. Havíamos cumprido a missão.

Mas não era fácil saber o que esperar do protesto. Sem ninguém à frente, torcedores de todos os tipos e grupos políticos confirmavam presença. Nas redes sociais, posts e mais posts criavam a expectativa para um grande público do lado de fora. Até que chegou quarta-feira, dia da reunião.

Havia muita gente na frente de General Severiano. Em um microfone, arrumado sabe-se lá por quem, pessoas se revezavam para discursar sobre os mais variados assuntos. Estava claro que ali não havia uma unidade, mas o fato de a reunião ser secreta (fechada para sócios), somada ao absurdo sócio-torcedor estatutário e, claro, aos adiantamentos, acabavam por criar uma espécie de federação de manifestantes, já que estes temas dominavam os discursos.

No meio dos manifestantes que acompanhavam mais afastados da aglomeração em torno do microfone, passavam conselheiros ligados à atual gestão e da oposição. Entretanto, não importava o lado, todos sabiam que os adiantamentos seriam aprovados e, provavelmente, sem nenhuma objeção. E é aqui que entra a nossa crítica:

O adiantamento é uma confissão de incompetência. Acabou. O que foi feito não deu certo e o clube precisa passar por uma medida drástica prejudicando o futuro para sobreviver no presente. Dá para entender o adiantamento nesses termos. A questão é o que se faz a partir daí. Ninguém será culpado por essas falhas? As mesmas pessoas que causaram a crise vão continuar no comando? Não faz muito sentido, exceto, claro, no Botafogo. Mas nem sempre foi assim…

O passado ensina e, algumas vezes, surpreende. Durante a campanha de 2014, houve o seguinte questionamento ao então candidato Carlos Eduardo Pereira:

Você faz parte do Mais Botafogo, grupo de oposição que possui diversos conselheiros e beneméritos como você. O Conselho não deveria ter feito algo para evitar essa crise financeira catastrófica pela qual passamos?
A resposta:
“A primeira coisa que o Conselho tem que conceder ao presidente é um limite de antecipação de receitas. E quando isso foi analisado e colocado no Conselho Fiscal (CF), o nosso membro no CF, Edson Alves Jr., a primeira coisa que [ele fez foi ser] contra o limite de quase 10% de antecipação ao mês. Esse é um problema sério do nosso estatuto que faculta ao presidente adiantar um percentual do orçamento ao longo do ano. E, dependendo do número, você coloca o presidente com o poder de adiantar um orçamento”

A torcida, os sócios e, principalmente, Carlos Eduardo Pereira, entendem o problema de se adiantar receitas.

Talvez os conselheiros também pudessem entender se fosse concedida a eles a chance de analisar a documentação, por exemplo. Ao lançar a convocação na sexta-feira, dia 20, eles foram informados que os contratos estariam disponíveis na secretaria do Conselho. Na segunda, dia 23, nada havia. Depois, admito, não sei. Mas toda essa dificuldade depõe demais contra a transparência.

Não que o contrato com a Globo pudesse ser exposto. Entendemos a cláusula de confidencialidade e não seria anormal que a reunião fosse fechada somente neste item, como já aconteceu. Agora, por que fechar a apreciação de contratos de locação? E a indicação do novo vice de Relações Institucionais — cujo nome estranhamente foi omitido da convocação — , Ricardo Rotenberg, também precisava ser secreta?

A invasão da sede ajuda depõe contra, claro. Mesmo que a maioria vaiasse os fogos disparados e os ovos que foram lançados em direção ao conselheiro que se aproximou do muro de General Severiano para aplaudir em forma de deboche, havia gente que estava disposta a fazer o indefensável. No microfone mesmo, houve reprovação àqueles que, segundo ouvimos, já escondiam o rosto e queriam ir além. Não adiantou. Pularam o muro e forçaram a entrada, quebrando alguns vidros e a bela mesa do Conselho. Pelo que foi relatado, ninguém foi agredido, embora um segurança tenha sido ferido com a porta quando ela foi forçada e um dos manifestantes socou o vidro e teve problemas na mão.

De qualquer forma, fica aqui o repúdio absoluto à invasão. Não há desculpa para quebrar o nosso patrimônio e ameaçar ninguém. Sempre criticamos a diretoria quando ela fez uso de práticas intimidatórias, não há como ser indiferente quando recorrem à barbárie contra ela. Ouvimos que as imagens da invasão foram encaminhadas à Polícia, o que é correto. Mas esse acontecimento não pode desqualificar os botafoguenses pacíficos e indignados que foram lá protestar.

Entretanto, o clima de indignação do lado de fora da sede e, talvez, apreensão do lado de dentro, não importou na tomada de decisões na noite de 25 de julho de 2018. Os conselheiros, sem nenhum questionamento, aprovaram o adiantamento, os contratos e o novo vice que voltará a ocupar um cargo no Botafogo.

Ao final da reunião, todos cantaram o hino do Botafogo, como sempre fazem. Parecia até uma noite normal.

Que não seja.

Pobre Botafogo.

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