Valter Ventura: a corajosa disciplina das imagens

Fotografia de Guto

A conversa começa calma, descontraída e sem aviso, numa sala luminosa perto da Graça. Valter Ventura — fotógrafo, artista, professor, e atleta de Boxe amador — recebe as perguntas com uma consideração séria, mas de sorriso fácil. É sobre a caça que se debruça na sua mais recente exposição, “Observatório de Tangentes“, sobre a história da proximidade entre o poder das armas e a captura das imagens. Valter Ventura pergunta muito, metodicamente, como é que do apontar e do disparar, do olhar e do esperar, se constrói a fotografia. “A história da fotografia é uma história muito violenta, do ponto de vista conceptual”, diz, sublinhando a dicotomia entre quem olha, quem sempre olhou primeiro, e quem foi e é sujeito a esse olhar. As imagens, então, como uma espécie de registo de vitórias, e torna-se inevitável a pergunta — e o Boxe?

Ventura é um atleta experimentado no treino, sabido da dor e da atracção do ringue, discípulo de Mestre Pedro Guerra e agora sob a guia de Rui Martins no Belenenses. Não muda de cara o artista, quando fala do combate. “O tempo começa a passar cada vez mais devagar, até chegar a hora de subir ao ringue” — mais à frente na conversa se perceberá que a disciplina da luta e da espera é a mesma com que Valter Ventura se aproxima da fotografia. Chegou ao Boxe jovem e irrequieto, ficou e olha para o desporto com a sensatez e o envolvimento típico de quem conhece o meio. A generosidade de quem pratica mas sobretudo de quem ensina Boxe é uma constate em qualquer conversa sobre a Nobre Arte. Também a dureza e a solidão, o hábito do esforço. A repetição, quase obsessiva, do gesto e da intenção.

É uma exposição com fotografia mas é sobretudo uma exposição sobre fotografia. Fala sobre uma relação histórica entre a fotografia e a ideia de tiro ou de disparo. Ou se calhar numa visão mais abrangente, entre a fotografia e o acto de caçar.

À pergunta óbvia — sobre a ausência de imagens de Boxe no seu trabalho fotográfico — Valter Ventura responde com um desvio considerado. Vai dar a uma quase exaltação do treino e da vontade de perfeição. É dita no mesmo tom tranquilo, esta proposta de paralelismo entre quem habita as salas da cultura e as de combate: o trabalho de artista é muitas vezes inglório, feito de preparações e corridas vãs como as de um atleta. A habituação ao esforço e à derrota une essas duas personagens, faz heróico e capaz quem na dor já não encontra o medo.

Há uma ideia que muito trabalhos vão tendo, que tem esta ligação forte a uma espécie de fazer as coisas por um lado cíclico. E eu acho que há aqui um lado obsessivo que tem muito a ver com a ideia do treino.

Sobre o futuro da fotografia cabem ainda algumas palavras, sobre a partilha ou a fragmentação do poder que já foi exclusivo dos homens caçadores e ricos. Valter Ventura, professor, olha para a tecnologia como um instrumento em evolução constante, questiona os limites das noções comuns com que nos aproximamos das imagens — e sorri, firme, face ao desafio.

Imagens da exposição gentilmente cedidas por Valter Ventura

OBSERVATÓRIO DE TANGENTES — VALTER VENTURA
De 2017–02–17 até 2017–05–07
Sala SONAE
MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO CHIADO