Neve Negra: o demônio do artista plástico

Neve Negra na prateleira String e acessórios Bo Concept, no meu apartamento hipster em Helsinki — o personagem central se familiariza

Há muito se discute o que é um autor, e hoje sou um dos que discutem no que consiste essa entidade criativa. Em alguns desses estudos — vendidos ao social-capitalismo em euros, no meu trabalho diário — analisei no que diferem autores e usuários “não-autores” no Twitter. É o que chamei de paramídia — os elementos midiáticos dinâmicos que circundam a mídia, e nos preparam e afetam quando a consumimos (é a primeira adaptação digital da teoria do paratexto de Gérard Genette, mais aqui). Entre algumas conclusões distintas, uma dessas investigações sobre as diferenças entre autores e não-autores na rede social é desconcertantemente simples: é a consciência de sua obra.

Pode-se ir além e entender que o autor passa por mais tormentos que o escritor que é ciente de sua produção, mas não totalmente ciente de sua obra: a angústia por avaliar essa obra própria, e a angústia seguinte, que é avaliar-se como autor. Neve Negra, de Santiago Nazarian, é em grande medida uma obra de auto-avaliação de seu personagem central, um “pintor de sucesso” — abrindo o leque de implicações, clichês e conformidades que o título lhe acarreta.

Na internet contemporânea, ser um autor é mais que a conhecida ideia de imiscuir-se com sua própria obra — é imiscuir-se com a mídia da sua própria obra, e outras, e ainda dentro dessa mistura, imiscuir a mídia de sua própria biografia com a mídia em que se tece, promove, publica a obra. São equações complexas e, ao mesmo tempo, tão embrenhadas no tecido diário da nossa produção de mídia, que fica difícil distanciar-se para notar como ocorre.

Aqui, venho fazer a resenha de Neve Negra, do Santiago Nazarian. Sabemos, graças às teorias pós-modernas do discurso, que um texto independe de seu autor para existir; sequer depende de outros textos para “parar em pé”; um texto (como certa vez, numa aula, parafraseei num rompante de inspiração: um texto é um texto, é um texto, é um texto). Mas como seria minha experiência de texto — e minha resenha — se não conhecesse, como conheço (através da mídia, prioritariamente), o autor do livro?

Em Biofobia, o romance anterior de Santiago, o mote do livro são as cenas. Elas ardem, à beira do fogo de uma casa de campo, vagarosas, num slow burner habilidoso que desenrola (novamente, para o bom entendedor) o próprio Santiago: um vampiro-roqueiro, condenado à envelhecer, como os mortais. Há maior e mais vagaroso terror que esse? O clímax daquele livro é, assim, a metadata confessional simbolizada na escolha fácil que o personagem-duplo faz: a revista Granta, cânone da literatura, deve ser guardada ou atirada ao fogo para aquecer a carcaça ressaqueada do narrador? A escolha é fácil: “Fogo.”

Se em Biofobia a metalinguagem é mundana, composta num Dorian Gray músico e bagaceiro, que aparece no Domingo Legal e em outras festividades prosaicas da dura vida fácil de celebridade, em Neve Negra essa lente autorreflexiva é uma pintura — é um pintor. Santiago nos conduz pelo terreno da alta-cultura, caminho que o escritor brasileiro contemporâneo faz com certa frequência. Um sinal de alerta acende para mim, quando leio a premissa: me lembro de todos aqueles livros de escritores-jornalistas, ambientados na Nova York ou Paris que se lembram de memória em algumas férias passadas num AirBnB, narradas com a ânsia de quem quer se fazer local e, no pacote, acaba importando ânsias estrangeiras. Mas Santiago conhece a pauliceia de tempos, e não cai nessas armadilhas afetadas tão facilmente.

Nos livros aos quais me refiro, o desespero pela sofisticação transparece (é a busca goela-abaixo pela cultura assimilada, como um foie-gras autoral). Aqui, Santiago chega com o narrador cheio dessa cultura, transbordando silenciosamente pelas arestas — e é destilando o personagem, pouco a pouco, que percebemos o terror em que realmente o personagem central está inserido: na missão ridícula, inescapável, de ser homem, branco, artista, de classe média, ascendendo nos círculos de cultura.

É claro, há um demônio: como o peixe que não se dá conta do que é água, o pintor de sucesso não se dá conta da sua existência mundana; é condenado a vagar tentando entender o que é que lhe falta. Talvez fosse, afinal, o filho: essa criatura feita de sua própria matéria-prima, e que talvez esteja à beira de cometer, ou ser acometido, por uma tragédia impensável. As possibilidades existencialistas são muitas. O existencialismo de Nazarian geralmente é pop, e aqui é pop-cult, consciente disso, e manobra-se dentro desse universo.

É com essa dubiedade de um pesadelo do qual não nos lembramos completamente que a narrativa é conduzida. Novamente, Santiago tem a linha do tempo firme, planejada, e continua sendo mestre na dilatação do tempo. Sem a mesma tensão quase erótica das cenas longas e dos diálogos lacônicos do livro anterior, o romance se desdobra por mais temas, cenários, definições. É mais gráfico, porque coloca a possibilidade de, no mínimo, digamos, um triplo assassinato brutal — e no suspense, para aquele que conhece sua obra, de que talvez a maior angústia seja, afinal, a paternidade, e não o crime — ou será o demônio, que aparece de vez em quando, real?

Em Biofobia o descontentamento com o establishment e a cultura supostamente refinada se dá intradiegeticamente, com Granta ao fogo. Aqui, rebeldia de Santiago transpassa o papel e chega à paramídia: é seu primeiro romance pela Cia. das Letras. Seja real o desgosto, o demônio ou a arte do pintor em questão, a crítica a uma alta-cultura pretensiosa se faz presente nos detalhes. Mais aterrador que matar a família a machadadas, é o pesadelo da contemplação de uma carreira artística que, dando certo, vaga fantasmagórica pelas galerias de arte.

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