Aquele abraço.

Sofro da Síndrome de Nostalgia Precoce. Não é nada clinicamente diagnosticado, mas algo que me acompanha há tanto tempo que, além de eu mesmo ter dado um nome, passei a receitar meu próprio remédio para aliviar o peito quando ela se aproxima, sinaliza que estou prestes a um episódio dessa saudade atípica, do que ainda não foi.

Foto: Pedrinho Fonseca

Tudo começou na abertura dos Jogos Rio 2016. Depois da avalanche histórica, retrato em movimento de nós mesmos, tive um súbito ataque de choro feliz. Pela primeira vez em muitos anos o aparelho de tv da sala havia se transformado em espelho. A partir daquele momento, eu sabia, os sintomas da minha Síndrome tão particular se manifestariam.

Na perplexidade diante do Parque Olímpico majestoso, a passarela de diversidade construída para o desfile ininterrupto de gente, people, personas, leute, mennesker, insanlar, personnes, ljudi, mensen, oameni, mga tao, persone, odamlar, iwi.

Parque Olímpico/ Foto: Pedrinho Fonseca

No calçadão de Copacabana, o tapete branco-e-preto de gala estendido para o casamento do Rio com o mundo. Noivos vendendo brigadeiros para ajudar nos custos da sua festa de casamento, um vendedor de réplicas de medalhas olímpicas oferecendo um pódio de onde qualquer um poderia sair vitorioso, uma senhora de vestido florido e chinelo, moradora do bairro, oferecendo seu sorriso gratuitamente para a paisagem humana diante dos seus olhos brilhantes.

Nos instantes curtos e inesquecíveis das pistas de atletismo, das raias da piscina, dos ciclistas-guepardos no velódromo. Nas pausas silenciosas antes do arremesso de três pontos, antes do toque da flecha no alvo, antes da pirueta inominável da ginasta, na demora perturbadora da bola que passeia pelo aro antes de cair na cesta.

Nos sorrisos gratuitos das voluntárias, das medalhistas, das mulheres da periferia de uma Atenas temporária.

Rafaela Silva/ Foto: Pedrinho Fonseca

Em cada um destes lugares, em cada rosto, em cada língua incompreensível e musical, eu me despedia. Uma contagem regressiva que ora acelerava meus batimentos, ora me baixava a pressão. Passei a olhar para tudo e para todos como se fosse a última vez. Dediquei meus últimos momentos a procurar aquilo que não irá nos deixar. Fiz um roteiro afetivo para o meu último dia.

Convidei minha amiga Carol para um almoço na zona sul — região onde trabalhávamos, há cinco anos, e justamente no restaurante que tanto frequentamos nos curtos intervalos de almoço entre um trabalho e outro. Mas dessa vez a pressa estava ausente. A urgência não havia sido convidada. Os relógios saíram para passear. Havia tanto assunto para ser atualizado. De lá para cá, minha família cresceu — duas filhas a mais. Carol está noiva de um cara incrível — que fez o pedido de casamento mais emocionante dos últimos tempos. Mudei de cidade três vezes, nesse tempo. Carol mudou de casa duas vezes. Disse a ela que havia mesmo me tornado nômade; ela me contou que o Rio havia dado esse presente a ela: agora tinha a sensação de pertencimento à cidade, por ter escolhido viver aqui, mas ainda conservava o olhar típico do turista — de admiração e encantamento constante. Você não nasceu neste lugar, suas raízes não estão fincadas nele, mas há algo na relação de vocês que é uma troca, um reconhecimento mútuo.

Carol Burgo/ Foto: Pedrinho Fonseca

Saí do almoço e resolvi caminhar por toda a orla da zona sul. E a minha Síndrome deu mais sinais de vida. Entrei no estado contemplativo permanente, um prelúdio do que estava por vir. Notei que não estava sozinho. O surfista solitário sentou e sentiu a maresia de Ipanema. O moço do guarda chuva dava passos lentos, contra o vento frio. Os casais no Arpoador, flutuando em pedra, cidade e céu, contribuíam para o cenário com a tinta da ternura.

Foto: Pedrinho Fonseca

Ainda tive tempo de mergulhar na distração profunda, na volta para o hotel, e acabei esbarrando num homem que fazia sua corrida noturna, o atleta cotidiano. Desculpe, moço. Levanto a cabeça e era Felipe, amigo desta e talvez de outras vidas, quanto tempo, o que está fazendo aqui?, vim me despedir do Rio, deixa eu te apresentar a Luísa, até quando você fica?, hoje é meu último dia, mas já?, já, infelizmente.

Sigo meu caminho de volta e procuro minha receita contra a Síndrome da Nostalgia Precoce. É tarde, agora vai virar saudade. Me apresso em ler, como quem precisa da cura imediata. Leio o papel amassado e abro um sorriso. Está escrito: peça um abraço. Mas a essa altura, a cidade já me abraça pelas memórias. É seu jeito de dizer que quer bem, que não precisa ir agora, fica mais um pouco, amanhã tem mais. E se você tiver mesmo que ir, que não seja este um abraço de despedida, mas sim de volte logo, volte sempre, a casa é nossa. Agradeço, mas sei: agora acabou. No Parque Olímpico, a cadeira vazia dos voluntários não me deixa esquecer. Peço mais um abraço. A cidade me acolhe novamente. Sussurra no meu ouvido: eu não saio daqui. E me abraça.

É, você nunca vai sair de nós, Rio.

Casal no Arpoardor/Foto: Pedrinho Fonseca
Show your support

Clapping shows how much you appreciated Bradesco’s story.