E você?

Por Herbet Castro.

Desde muito pequeno, eu nunca fui o sobrinho preferido dos tios. Eu sempre ouvia: “esse moleque não é normal, ele é muito mole!” ou “fica de olho nesse menino que vocês tão tratando ele com muito carinho!”. Na vida você cresce e entende que tem uma série de etapas a seguir. Dentre elas, namorar e casar — uma moça caso você seja um moço ou um moço, caso você seja uma moça — e ter filhos. Mas não se pode fazer isso de qualquer jeito! Tem que ser da forma CERTA, no FORMATO certo. E assim seguimos, tentando nos encaixar em caixinhas moldadas por alguém (quem pelo amor da Deusa?!?!). Alguns de nós carregam um incômodo. Sabe por que? Dói diariamente esse processo de perda de si para estar certo aos olhos dos outros.

Quando entrei no Canal das Bee, eu tinha certeza de que buscava ali algo que nunca tive contato. Sentia borbulhar por dentro um desejo de parecer aquelas pessoas que se reuniram para contar suas histórias por meio dos vídeos (e eu ainda nem tinha vivido as minhas histórias!). Admirava todas elas que viviam com facilidade, sem peso nos ombros. O meu único interesse era me descobrir dentro desse universo. Um universo que no fundo eu sabia que também era o meu (pelo visto, até meus tios já sabiam!).

Até aquele momento, eu não tinha compreendido o que realmente significava ser um LGBT. E aí eu precisei me aproximar disso. Aquele foi na verdade como meu primeiro contato comigo mesmo.

Na minha vida, conversar abertamente sobre sexualidades ou sobre a minha sexualidade não parecia certo. Foram tantos anos me escondendo dos outros, evitando estar presente em situações sociais como aniversários, bares, festas de família que eu já não sentia familiaridade ali. E isso me retraía muito, eu só conseguia me sentir triste e envergonhado ali.

Precisava de algo para ajudar a mim mesmo, para conhecer a mim mesmo. Lembro da primeira vez que comecei a ser sincero comigo e com os meus amigos. Estávamos, de madrugada, dentro do carro num estacionamento de uma rede de fast food. Era a minha primeira viagem longe dos olhos da minha família. Depois de todo mundo contar bobagens sobre seus desejos mais íntimos, eu só me calei. E ouvi um: “E você?”. Algo ali me fez sentir seguro e confortável para pelo menos afirmar: “Não sei! Na verdade eu nunca fiquei com ninguém. Então não sei dizer do que gosto!”. Foi um choque! Só pra mim, né? rs Todos eles já sabiam o que isso significava.

Com o trabalho encontrei tantos outros LGBTs que sofreram outras questões que não necessariamente eram as minhas, mas que no fundo continham o mesmo desejo. O de apenas serem quem são: livres! Parece tão simples, né? E é, difícil mesmo é aceitar que para ser quem se é, é necessário abrir mão do julgamento do outro. E quando esse outro se trata de quem você ama profundamente, sua família, pode soar desesperador.

No final das contas, você só quer pertencer. Mas não de qualquer jeito, à margem. Não mais apagado por si mesmo, ou pelos outros. Com o tempo você vai descobrindo outras pessoas, outras histórias, sua própria narrativa.

E você ganha força! Enxerguei a minha beleza. E a partir daí a aceitação é uma escolha diária!

Com a minha melhora, percebi que sou capaz de ajudar também aos outros. Escolhi expor as minhas fragilidades e passei a ser referência para muitxs. O trabalho com o Canal das Bee passou a ser espaço para as minhas próprias questões e respiro para quem busca na web fugir das caixinhas antes ditas certas. Cê acredita? Vira e mexe encontro com alguém na rua que acompanha o Canal das Bee e, com os olhos marejados, ouço o impacto positivo que tem causado na vida dessas pessoas.

O dia a dia às vezes pode parecer bem duro, mas não quando você sabe que não está sozinho. Como em uma colmeia, aprendi a me conectar aos outros e me tornar mais forte. Hoje eu ressignifiquei o conceito de família. Somos muito mais do que uma estrutura social baseada em papéis pré-estabelecidos. Somos um conjunto de pessoas que enxergam no amor e na luta uma ferramenta poderosa de transformação de si mesmo e do mundo.

Sempre que algo me desmotiva, é disso que eu lembro. Todos nós passamos por situações que nos deixam com um frio na barriga. Mas mesmo nesses momentos, é possível enxergar um novo lugar, é preciso seguir em frente! Hoje se alguém me perguntar num estacionamento “E você?”, eu já sei o que dizer. Sou Herbet, sou gay. Posso não ter sido o sobrinho preferido dos tios, mas eu escolhi me amar e me aceitar. E isso é, com certeza, o que há de mais bonito e sincero em mim.

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