Música é a nossa voz.

Havia uma pessoa calada, logo ali na primeira fila, grudada no palco. No meio daquela multidão que celebrava, pulava, dançava, uma pessoa calada, silenciosa, contemplativa, olhos brilhando e sorriso no rosto. A festa ao redor tinha uma velocidade, intensidade, profundidade. E essa pessoa estava em suspenso, como uma nota que ainda há de vir na canção. Aliás, todos os outros ao seu redor cantavam, menos ela. Cheguei perto e, no intervalo que o som do palco me deu, perguntei se estava tudo bem e por que ela estava calada.

MIMO Festival em Olinda

– Estava ouvindo, estava ouvindo essas vozes todas cantarem juntas.

O MIMO é um festival de vozes. Seja através da música, do cinema, dos painéis e fóruns educativos, dos workshops, em tudo que atravessa a programação há essa preocupação: que as vozes ali sejam ouvidas e, assim, o diálogo aconteça.

E cada ferramenta de diálogo serve para isso. Para que a gente se entenda, se reconheça, viva e conviva.

Tom Zé, por Carolina Lopes
A alegria de Marlene, por Suann Medeiros
Olinda, por Suann Medeiros

Música — e tudo que gira em torno dela — é para a gente dialogar, falar e ouvir, trocar. É sobre ser, como disse Lirinha [Cordel do Fogo Encantado] no nosso primeiro encontro, ainda antes da etapa do MIMO em Paraty: “essa é a menos racionalista das artes”. É sobre entrega, sobre não tentar arrazoar tudo. É também como nos disse Tom Zé: “o palco é o sítio dos tímidos”. É sobre entrega, sobre não esconder quem verdadeiramente somos.

As vozes do MIMO, nessa celebração de 15 anos do Festival, estavam gritando. A urgência era visível. Nas mãos dadas durante a ciranda de Lia, nos saltos de alegria dos palestinos da 47 Soul, no abraço coletivo do público na Banda Eddie, que estava tocando em casa, nos momentos de calma e euforia — sempre alternadas, criando uma montanha-russa emocional — nos belíssimos concertos de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Bruno Sanches. Para onde a gente apontasse o coração, recebia esse carinho.

A ciranda de Lia, por Duda Portella
Lia de Itamaracá, por Duda Portella
Os brinquedos sonoros de Hermeto, por Carolina Lopes

Muita gente já passou pelos palcos do MIMO nesses 15 anos. Muita gente já cantou em coro nos shows. Muita gente no entorno faz parte do festival: ambulantes, famílias na porta de casa observando o movimento, crianças brincando na praça, turistas desavisados que se espantam com a beleza dos concertos gratuitos. Desde sempre. Desde quando ainda era a MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda). Aqui mesmo, onde tudo começou, Olinda.

Uma pessoa e sua voz. É importante que seja ouvida. Duas pessoas e suas vozes. É fundamental que sejam ouvidas e respeitadas. Cem pessoas e suas vozes. Iremos ouvi-las, querendo ou não. Milhares de pessoas e suas vozes. Acredite: a sua voz também irá desejar fazer parte deste coro.

Chegamos aqui para ouvir essas vozes, fazer parte, trocar. A essa altura, não havia mais silêncio dentro de nós.

47 Soul
Dançar descalça na praça, ser regada por uma chuva de poesias, sentir o amor do cinema ao ar livre
Xilogravuras: Vitória Barreiros