O Brasil Contrário.

Das muitas coisas que aprendi nesta viagem recente a Parintins, no Amazonas, aqui está primeira: no Festival dos Bois, torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; torcedor do Caprichoso não pronuncia o nome do Garantido. O Boi que está do outro lado é chamado apenas de Boi Contrário.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro tem uma provocação que mexe comigo. Diz ele: “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Olhar para as trilhas das nossas origens é observar que não apenas no sangue somos ameríndios. Na nossa formação cultural mais íntima, nos costumes cotidianos que já passam desapercebidos, nas brincadeiras das nossas filhas e filhos que resistem e enfrentam as telas, na comida, nas curas, na necessidade constante de voltar a essa terra — que é de onde viemos.

O vendedor no Porto de Manaus. A chegada em Parintins.

Eu vim e não estou só. Pensei nisso durante todo o trajeto de barco, do enorme porto de Manaus ao pequeno porto de Parintins. Estavam comigo os fotógrafos Raul de Lima e Taís Valença e a jornalista e pesquisadora Gabrielle Estevans. Nós saímos das nossas origens (Recife, Brasília, Florianópolis) como um time, uma equipe de trabalho. E mal sabíamos que voltaríamos dessa mesma viagem como uma tribo. Nas nove horas de barco entre um porto e outro, meu pensamento olhava para o percurso que estávamos realizando, sobre o rio, sem sentir. Havíamos saído das nossas origens para fazer um trabalho que, verdadeiramente, era a maior viagem que fizemos para a nossa própria origem. Quanto mais dentro da Amazônia, a bordo da lancha Lana Rafaella, mais dentro de nós mesmos estávamos. E assim, navegando por dentro de nós, finalmente chegamos na terra mágica onde a cada ano se realiza o Festival Folclórico de Parintins.

O trabalhos nos galpões e o artista Emérson Brasil.

O Festival, descobri ouvindo os relatos nos galpões de cada Boi, começa em setembro. Quando as pessoas já começam a trabalhar pelo ano seguinte. Concebendo, pensando, planejando o enredo, o tema, a maneira de conduzir o Boi no ano que virá. Daí por diante, o trabalho é incessante e árduo. Compositores colocam letras, suor e lágrimas nas toadas — muitas delas atravessam décadas nas memórias. Artistas colocam tinta, cor e fé em obras descomunais, da altura de um prédio, do tamanho de uma lenda. Ferreiros, soldadoras, pintoras, faxineiros, não há quem não esteja fazendo arte dentro desses enormes galpões secretos, onde só entra uma única cor.

Vermelho: a batucada do Garantido a postos para fazer o chão tremer. Azul: o surpreendente guindaste que fez o Caprichoso voar.

O vermelho, Garantido. O azul, Caprichoso. Mas não se engane, as diferenças não são apenas cromáticas. Há no comportamento de cada torcedor, no jeito de falar, no abraço (este, sempre caloroso) com quem vem de fora, traços muito peculiares — que dão aos Bois e a toda imensa comunidade em torno dele personalidades tão distintas quanto as cores. Não use vermelho no curral do Caprichoso. Não use azul no curral do Garantido. Assim me ensinaram, assim fiz. Estava durante toda a viagem usando roupas pretas, brancas, cinzas. Mal sabia que não há como ficar neutro ou indiferente diante de tanto amor.

Os últimos preparativos de quem vai se apresentar. O sorriso de quem vê o seu Boi de perto pela primeira vez. A arte descomunal que conta histórias sobre a Amazônia.

Parintins é uma ilha. Uma cidade, mas com águas por todos os lados. Cidade pequena, mas enorme. Um município-reduto diante das capitais de onde viemos, mas a segunda maior cidade do Amazonas. Esse conflito, penso agora, talvez seja o nosso próprio — que Brasil queremos ser? A cada entrevista que fazíamos para os vídeos sobre essa viagem, a cada rápido trajeto com Jander, o taxista, a cada prato que pedíamos aos garçons para nos indicarem, a cada ajuda pedida nas ruas a uma criança que nos apontava o caminho curto e certo para chegar, a cada nova pessoa descoberta, a constatação surpreendente e tão dolorosa: havia ido tão longe para sentir-me o mais perto de mim que já senti na vida inteira. Eu descobri durante estas duas semanas em Parintins que eu sou aquelas pessoas, eu sou aquele lugar, eu sou aquela ilha, eu sou essa disputa entre vermelho e azul, eu sou este Brasil. O Brasil Contrário.

O Brasil que a gente não chama pelo nome nos chama com música e dança.

A gente não chama esse Brasil pelo nome. Como se nós fôssemos tão distintos a ponto de não reconhecer a cor do outro. Como o torcedor do Garantido que não pronuncia Caprichoso, como o torcedor do Caprichoso que não pronuncia Garantido. Como a mulher de vermelho que não pinta as paredes de azul, como o moço de azul que não veste vermelho por nada nesse mundo. Mas bastam alguns dias para a gente decifrar que, naquele lugar, estamos diante de um espelho. Aquele Brasil Contrário somos nós. Lá, tudo bem que o prato tenha feijão, macarrão e arroz, tudo junto; tudo bem que o café já venha adoçado porque de amarga basta a vida; tudo bem que a casa esteja pronta para a seca e para a cheia porque assim são as correntezas que nos ensinam sobre altos e baixos; tudo bem que a fruta doce no pé seja mais valiosa do que a árvore no chão; tudo bem que o tempo não seja tão apressado; tudo bem que saibamos exatamente que horas a chuva cai; tudo bem que a cura venha da terra; tudo bem que dancemos, cantemos, louvemos a deuses distintos que ora são lendas, ora são sonhos, ora são magias que nascem neste mesmo lugar onde estamos agora. A gente não chama esse Brasil pelo nome. Mas este Brasil Contrário, acredite, é um espelho. Sou eu. É você. Somos nós.

Deixo Parintins após os últimos três mais intensos dias, o auge da história, as apresentações do Garantido e do Caprichoso. Saio sem saber quem venceu. Mas não importa. Tenho nove horas de barco para pensar e confirmar que quem mais ganhou fui eu mesmo. Que descobri que o nosso melhor destino são as nossas origens.

Eu sou Pedrinho Fonseca, escritor, fotógrafo, brasileiro. E este texto foi escrito especialmente a convite do Bradesco, que patrocina — e acredita, portanto—no Festival de Parintins. Além dos textos e fotos, a nossa tribo (Taís, Gabrielle, Raul e eu) produziu dois vídeos sobre a experiência. O primeiro você pode assistir aqui. Agradecemos especialmente ao povo brasileiro da Amazônia.
Márcia e Eduardo vêm há 15 anos para Parintins durante o Festival. Este ano, começaram a falar sobre morar aqui. Destino: origens.