Qual foi a última vez que você viu algo pela primeira vez?

A curiosidade daquela bebê no show de Virgínia Rodrigues virou a minha curiosidade também. Cada vez que a pequena se aproximava do palco montado dentro da Igreja Matriz de Paraty, a plateia prendia a respiração e depois suspirava baixinho, a cantora a chamava para subir e dançar junto e o pai, preocupado com o fato de que aquela movimentação poderia atrapalhar a artista, nem pensou na hipótese daquela cena ser a lembrança mais forte do show. O olhar de uma criança diante de algo que nunca havia visto antes.

Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado

Sexta, 28 de setembro. O Cordel do Fogo Encantado sobe ao palco. A chuva sobe um cheiro de saudade. Depois de 8 anos de pausa, a banda se apresenta no MIMO Festival e fãs de vários lugares cantam do começo ao fim do show. Quem não conhece a banda talvez não saiba–penso comigo– que aquela moça à esquerda do palco não fazia parte da formação original.

Isadora Melo: a Liberdade, Filha do Vento

E é ela mesma quem representa a personagem central da odisseia-álbum que marca o retorno da banda, Viagem ao Coração do Sol. Ela é Isadora Melo e ali canta e representa Liberdade, a Filha do Vento [música deste álbum recente que narra a saga contemporânea, nossa, em busca de horizontes].

Walter Hernández Romero, do Systema Solar.

Sábado, 29 de setembro. Pela manhã, Walter nem parece o inquieto vocalista da banda Colombiana Systema Solar. Se na noite anterior ele comandou o sound system no meio da praça e fez o chão tremer, agora ele tem a fala mansa e o sorriso sereno de quem conhece profundamente as raízes do picó, o poderoso movimento popular artístico caribenho que atrai multidões às festas na periferia. E fala sobre isso com um orgulho que nem cabe nos seus quase dois metros. Ver o olho de Walter brilhar por uma manifestação cultural tão parecida quanto as nossas [carnavais, congos, maracatus, tecnobregas e guitarradas] nos dá uma sensação de déjà vu. Parece que nós já estivemos na Colômbia antes. Talvez tenhamos mesmo.

Clara Lazarim, diretora do filme Tetê.

Sábado à tarde encontramos Clara Lazarim, que levou seu belo filme Tetê, sobre a cantora-passarinha, Tetê Espíndola, para a mostra de cinema do MIMO. A curadoria dos filmes que são apresentados no festival é sempre muito especial–e desde sempre nos move a assistir, dialogar com diretoras e diretores, produtores, roteiristas. Não foi diferente dessa vez. E a conversa com Clara nos fez ver o filme dela duas vezes: na tela e também nas palavras de quem pensou, concebeu, criou, dirigiu. Um privilégio e tanto descobrir que existe amor à primeira e à segunda vista.

Letrux

Sábado à noite foi a vez de Virgínia Rodrigues na Igreja da Matriz, seguida de Letrux no palco da praça, seguida pelo Songhoy Blues, uma banda especialíssima do Mali. Palcos distintos, altares diferentes para a mesma reza: para a deusa música. Mulheres de características completamente diferentes, shows tão complementares. Um banda de dialetos tão distantes, mas que conseguiu se conectar o tempo inteiro com o público. Com Virgínia, a precisão emocional e vocal, a capacidade sublime de cantar como se fosse um instrumento. Com Letrux, a coragem como regente, a música como mensagem ética, um palco que parecia explodir a cada música. Com o Songhoy Blues, a vontade incontrolável de dançar.

Ainda no sábado, o DJ Montano assumiu o som e fez a praça inteira bailar com sua pesquisa musical profunda sobre o Brasil. Ritmos, texturas e cores do país, traduzidas num repertório que ia além de uma playlist. Era uma lembrança sobre nós mesmos, um conjunto de músicas selecionadas para que todos ali fizessem uma viagem no tempo.

Carol Panesi

Domingo, 30 de setembro. A manhã começa com um concerto impecável de Carol Panesi, umas das vencedoras do Prêmio MIMO Instrumental. A precisão de cada nota, cada arranjo, cada melodia transporta o público que lotou a Igreja da Matriz para um tempo desconhecido, onde tudo parece mais lento, mais leve, mais solto. Um toque de leveza que nos prepara para o momento final do festival, em Paraty: a chuva de poesia. Dessa vez, o tradicional momento do MIMO, quando poesias voam da sacada em papéis coloridos e fazem a festa das pessoas que, embaixo, desejam colecionar cada poema, apresentou obras de Hilda Hilst. Um final poético e apoteótico.

A chuva de poesias no domingo.

Cordel do Fogo Encantado. Systema Solar. Mostra de cinema. Painéis educativos. Workshops. Letrux. DJ Montano. Songhoy Blues. Carol Panesi. As poesias de Hilda Hilst. E nós, que diante de tanta arte junta, mais parecíamos a bebê no show de Virgínia Rodrigues, vendo tudo pela primeira vez, descobrindo mundos novos, engatinhando na direção da descoberta desse festival que se repete há 15 anos–mas que sempre parece ter começado hoje mesmo, com tanto frescor e autenticidade. Vida longa ao MIMO.

Muita chuva, muito calor humano. Valeu, Paraty.
O Coletivo Temporário foi ao MIMO em Paraty a convite do Bradesco com: Alexandra Kalogeras, Alice Bento, Barbara Secco, Carolina Lopes, Danielle Pinheiro, Duda Portella, Suann Medeiros, Vitória Barreiros. E queria agradecer a participação mais que especial de Gabriela Antoniassi e Leandro Tanuri.