Quantos carnavais cabem em um país?

A costura de Cristina, em Duque de Caxias, nos ensina muito sobre o carnaval do Rio.

O fato de o Brasil ser um país com um território de dimensão continental não é a resposta para tanta festa. Não é pelo tamanho, espaço, grandiosidade geográfica — nem tampouco pelo contingente populacional enorme. O carnaval não é — apenas — uma ocupação de espaços com passos de danças. Há uma outra imensidão nesse país da gente — que é preciso olhar, lembrar, cuidar, lutar por ela. É precioso demais habitar um lugar que extrapola suas próprias fronteiras quando o assunto é cultura. O Brasil não cabe apenas no próprio Brasil — e assim seu carnaval também não cabe nisto: um único carnaval. São tantos carnavais porque somos um país e tanto. Imenso.

São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador foram as cidades escolhidas e o Coletivo Temporário seguiu exatamente esta ordem nas viagens para encontrar gente com uma história, em cada uma delas, que nos abrisse o coração com o seu próprio e mais particular carnaval.

Parênteses importantes. Convidamos fotógrafos residentes em cada uma dessas cidades para, também, nos trazer um olhar de dentro sobre cada protagonista. Fotógrafos que não clicam o carnaval — e sim que vivem o carnaval. Em São Paulo, Mariana Caldas. No Rio, Éverson Verdião. No Recife, Flora Negri. Em Salvador, Amanda Oliveira. Fazia parte da nossa ideia para essa imersão que os quatro não soubessem quem seriam os protagonistas de cada cidade — para que ninguém chegasse lá com alguma opinião formada. Essa é a matriz do Coletivo Temporário: promover grandes encontros. Deu certo.

Enricco Benetti [São Paulo] e Allana Gama [Salvador].
Cristina Melo [Rio de Janeiro] e Flaira Ferro [Recife].

Os protagonistas são esses que ilustram as fotos acima. Enricco Benetti, São Paulo. Cristina Melo, Rio. Flaira Ferro, Recife. Allana Gama, Salvador.

Em São Paulo, as rodas de samba conduzem o carnaval que nasce no subúrbio, floresce, adentra vilas e pequenas comunidades até que, enorme, se manifesta nos desfiles das escolas e em blocos que crescem a cada ano. O carnaval de São Paulo ainda é novo — faz pouco tempo que colocou os blocos na rua, mas é antigo nas esquinas onde compositores e músicos se encontram para compor. Enricco nos levou para beber nessa fonte inesgotável de ritmos, harmonias e assuntos que dizem muito sobre nós mesmos.

Músicos e compositores, na Barra Funda, São Paulo.

Nossa segunda estação, Rio. Pousamos na capital, mas é em Duque de Caixas que a festa nos espera. Para ser mais preciso, a festa estava pronta na casa de Edna Cristina Melo, 50 anos de idade, 45 de carnaval. Cris é costureira e isso nos hipnotiza. O funcionamento da máquina de costura dela é uma engrenagem tão complexa quando uma escola de samba entrando na Marquês de Sapucaí. É poliritmia pura. Os pés fazem o andamento, as mãos conduzem a ala dos tecidos, a agulha marca o batimento, o resultado é uma fantasia para a neta — que os olhos da gente não enxergaram antes disso tudo começar, mas Cris já visualizava antes mesmo de começar a puxar esse enredo. É dela a frase que nos tira o chão: “se Deus me desse a chance de escolher onde morrer, eu queria morrer na Avenida”. Saímos em silêncio, como quem acabou de ver uma escola campeã desfilar impecavelmente.

Cristina prepara-se para a festa. Ela própria é uma festa, aliás.

Pousamos no Recife e o ritmo acelera. O frevo é uma repetição do cotidiano da cidade. Os passos frenéticos dos operários a caminho do trabalho, a efervescência, o rebuliço, o vuco-vuco. Os caminhos traçados por nós passam pelo Mercado de São José, Rua das Calçadas, Rua da Concórdia, Forte das Cinco Pontas, Rua Imperial e finalmente a Ponte de Ferro, que nos leva a Flaira. Flaira dança desde que nasceu e habita nossa memória: a pequena menina que fazia estripulias com a sombrinha colorida. Flaira cresceu, nos lembra o Galo da Madrugada — que era apenas isso: um pequeno bloco que pretendia acordar antes do galo que nos acordava, para dançar e brincar carnaval. O Galo cresceu, desfila com milhões de pessoas ao redor. Flaira cresceu, virou essa mulher forte que usa os passos (do frevo e da vida) para falar das nossas origens. O carnaval na rua, nós na rua. A cidade é nossa. Nós somos esta cidade.

No vuco-vuco, Flaira mistura seus passos com os passos de quem passa.

Salvador nos dá as boas vindas com um sorriso do tamanho da Baía de Todos os Santos. O carnaval daqui se revela no olho brilhante de Allana Gama, nossa protagonista-surpresa: chegou com este sorriso, mas escondia o destino que nos esperava. Desaguar em lágrimas diante do seu depoimento sobre o que é o carnaval para ela. “Você deixa um pouco de ser você e vira a massa de gente. Você é levado e leva ao mesmo tempo. Se você está aqui, você já faz parte dessa festa. Então não procure entender exatamente o que é. Só viva”. O sorriso continua, mas as lágrimas escorrem dela e de nós. Carnaval na Bahia é feliz e é coisa séria. Allana se despede com uma tradução sobre liberdade. Escolhe sair todo ano na pipoca, nos trios que não tem cordão de isolamento, porque acredita que carnaval é para ser solto.

A emoção de Allana Gama.

Agora estamos presos a essas quatro pessoas e seus quatro carnavais. Agora estamos presos à ideia de que carnaval, no singular, é palavra que não cabe no Brasil. Agora estamos presos ao pensamento que antes era apenas uma sensação: precisamos olhar, lembrar, cuidar, lutar pela nossa cultura porque ela é maior que nós mesmos, maior que um país. Ela vem dos povos indígenas, vem da África, vem de diversos lugares da Europa, das Américas, da Ásia. Nosso carnaval é um mundo.

Flaira ferve corações com seus passos [ao fundo, painel do coletivo V de Vacilante, que frevam com pincéis].

Enricco, hoje, deve estar num bloco. Amanhã numa escola. Depois, não sabemos. Cris vai desfilar em sua escola preferida — mas disse que se pudesse desfilaria nas treze agremiações. Flaira está dançando, cantando, abraçando nas ruas que carregam tantos passos, tanta História. Allana está livre, sem amarras, sem cordão, sem isolamento. E nós estaremos em São Paulo, Rio, Recife e Salvador para ver #QuantosCarnavais ainda cabem até a Quarta-feira de Cinzas.

Assista aos vídeos de cada personagem, abaixo.

São Paulo, Enricco:

Rio, Cristina:

Recife, Flaira:

Salvador, Allana:

Salvador, onde o Brasil chegou primeiro, onde os carnavais começaram a se misturar — para nunca ser apenas um.
#QuantosCarnavais é um projeto criado, desenvolvido e produzido especialmente pelo Coletivo Temporário para o Bradesco. Acompanhe aqui, no nosso Instagram [@coletivotemporario] e nas redes sociais do Bradesco os vídeos, textos e fotos desse encontro inesquecível de carnaval.