Ana Paula e Marcelo no Santos Dumont/Foto: Pedrinho Fonseca

Valsa da gente.

Antonio Maria nasceu no Recife, mas morou a vida inteira numa máquina de escrever. Sua casa ficava a duas esquinas das vírgulas, logo abaixo dos números, com vista para a crase. E quando se mora muito tempo num mesmo endereço, vamos nos tornando, também, este lugar. É uma troca que o tempo permite, que faz os lugares ficarem mais humanos — e as pessoas virarem quintais que nos acolhem com sapoti, pés descalços e brisa. O escritor que escreveu Rio de Janeiro, gosto de você, gosto de quem gosta desse céu, desse mar, estava falando menos sobre a cidade e mais sobre essa gente feliz que habitou a sua Valsa da Cidade. E mesmo sendo recifense, aprendeu a ver o Rio.

Cheguei no Rio e eles estavam prestes a embarcar. Ana Paula e Marcelo são padrinhos de Irene, minha filha do meio e, sem que a gente combinasse, um encontro-desencontro essencial, no aeroporto Santos Dumont. Tudo muito rápido — coincidências sempre têm pressa — mas foi o tempo necessário para que eles me lembrassem a razão de estar aqui. Vim acompanhar os Jogos Paralímpicos Rio 2016 — e eles vieram com o mesmo intuito. Nesse intervalo entre o que eles viram e eu ainda iria ver, estava a nossa vontade, em comum: nos inspirar. Em velocidade máxima, me contaram sobre as provas no Velódromo. Quase sem respirar, me falaram das provas de natação. Enquanto corriam para o embarque, me falaram da sua emoção na pista de atletismo.
 
 Lembro de cada motivo que fez com que convidássemos Ana Paula e Marcelo para serem padrinhos de Irene. Eles são um quintal de afeto. Foram o primeiro colo a nos acolher quando chegamos em São Paulo. Nos ofereceram ombros a cada choro de dúvida. Nos deram as mãos a cada salto de conquista. Em torno deles, tantas amigas e amigos novos e bons, outros quintais. Minha filha tem saudade deles — e materializa esse sentimento, do alto dos seus poucos quatro anos, dizendo que queria ir na casa da madrinha e do padrinho no domingo. Neste quintal que eles se transformaram para a minha família, é possível sentar domingos inteiros e apenas observá-los brincando de viver.

Saí do encontro com eles e decidi que iria ao Boulevard Olímpico — simbolicamente, era importante para a minha jornada neste dia de descobertas. Um lugar que até bem pouco tempo andava abandonado e transformou-se num ponto de encontro de muita gente, de todas as partes. Que abriga o Museu do Amanhã, que parece nos engolir para uma viagem no tempo. E que tem os calçadões largos para comportar o vai e vem de tantas famílias. No telão enorme, os jogos dos atletas brasileiros são acompanhados com atenção e emoção — e nos intervalos, música. Há uma festa em curso ali. Uma festa de gente.

O vendedor de algodão doce cercado de pequenos fãs. Enquanto o sol se põe, ele brinca de ser arco-íris com seus saquinhos coloridos contra a luz. Passo um tempo olhando para ele e vejo que é um mensageiro para aquelas crianças. Mesmo as que não compram, ganham. A cidade precisa ser pequena, feliz e colorida. Ele faz sua parte.

Vendedor de algodão doce/Foto: Pedrinho Fonseca

A moça sozinha que parecia estar olhando para o nada. Engano meu. Me aproximo e descubro que ela olhava, na verdade, para tudo. Este é o seu único dia de folga e ela aproveitou para conhecer o lugar que ainda não conhecia, na cidade tão sua. E o olhar que parecia perdido, no fundo, estava fazendo com que a moça achasse um pedaço de si em cada canto daquele lugar que, até bem pouco tempo, era seu desconhecido.

Gleice Kelli/Foto: Pedrinho Fonseca

O homem enrolado na bandeira que na verdade era uma canga. Eu mesmo que fiz, me disse. Fez a canga para que outros levem uma recordação deste lugar, que também é dele. Nessa canga sentam mais de um, olha só o tamanho. E abre os braços. Ninguém se abraça sozinho, né? — ele me pergunta. Não nessa cidade — ele mesmo me responde.

Lembrei a razão de estar aqui. Vim ver, olhar, enxergar. Vim admirar o Rio — e admirar é contemplar essa gente que faz a cidade e tanto nos inspira. Vim admirar os atletas dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 — e admirar esses atletas é compor uma valsa sobre o tempo que devemos dedicar a olhar para o outro. Para aquela ou aquele, tão diferente ou tão parecido, que passa a ser percebido por nós como um lugar, um quintal, uma acolhida. Até poderia tentar fazer uma valsa dela, da cidade — mas por falta de literatura e de ritmo à altura do meu conterrâneo Antonio Maria, paro por aqui. Admirado.

Alexandre Moreira/Foto: Pedrinho Fonseca
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