Como é ser jornalista?

Escolhi Jornalismo, e agora?

Imagem por Stéfanie Neuman — Redação de Jornalismo Rede Bandeirantes, 2016

Verdade seja dita, estudar jornalismo é sensacional.

Talvez eu seja um tanto quanto suspeita para falar sobre o tema, sendo que o primeiro documento palpável que temos da minha escolha profissional é datado de 1999, quando era somente uma criança arteira que se posicionava descaradamente na frente da televisão usando de um controle remoto como ‘microfone’ e desenhava dezenas de bolinhas em listas telefônicas alegando que estava “escrevendo histórias sobre o que tinha acontecido”. Mas a relação entre sonhar, querer e se tornar é bem diferente. Você tem que estar preparado para o que vem pela frente.

Época em que o ser humano já alegava querer “reportar acontecimentos”

Acontece que, embora tivesse já definido durante toda a vida que “um dia me tornaria jornalista”, tudo parecia ainda muito distante. Quando me vi no terceiro ano do Ensino Médio estudando para os muitos vestibulares e a ficha caiu que no ano seguinte a vida efetivamente não seria mais a mesma, não sabia o que esperar.

Imagem de um dos melhores dias da minha vida; Entrevista com Ricardo Boechat, novembro de 2016

Coisas que me disseram sobre ser jornalista

E pensei que só queriam me assustar.

  • “Jornalismo não dá dinheiro”; Isso é relativo, não é uma regra. O número de vezes que ouvi essa frase, não tem nem como contabilizar. Quando ouvia do meu pai, dava risada, achava que ele estava tirando uma com a minha cara. Mais tarde, ouvia dos meus colegas e ignorava. Depois, dos meus professores, e achava que estavam pegando no meu pé. Mas quando me sentei na frente de profissionais renomados na área e delicadamente os questionei a respeito — é meu irmão, aí eu me assustei um pouco. Tenha em mente que a parte financeira varia dependendo do veículo, da região, do tempo e da forma como você trabalha. Me custou para aprender que o chamado “freelancer”, muitas vezes, é o que salva.
  • “Você vai trabalhar 24hs por dia, nunca vai parar”; Ouvia dos meus pais, ouvi de um repórter da Rede Record de Televisão quando ainda contava quatorze anos, ouvi do redator-chefe do Agora São Paulo no prédio da Folha aos dezesseis; A realidade sobre isso é que jornalismo se faz vivendo. Você se compromete em deixar de lado toda a sua reclusão pessoal, você deixa de se preocupar com os seus próprios problemas para se tornar um observador de pequenos detalhes no cotidiano, alguém sempre atento ao que está acontecendo, nunca alheio ao meio. Você aprende que não é apenas um espectador do mundo, mas um personagem-narrador dele.
“Eu durmo muito tarde, acordo muito cedo, tô quase entrando na fila de idoso — já entro em algumas, já me oferecem lugar no ônibus e tal. Mas eu, eu continuo muito motivado. Como eu vejo muito motivados jovens que estão dentro das redações, ou figuras que já estão há quinze, vinte anos também. É um ambiente muito fascinante, muito desafiador. Mas quando as coisas estão acontecendo ao seu lado, você está convivendo com o tempo mais contemporâneo que há independentemente da tecnologia, que atropela o tempo, você está no centro dos acontecimentos, você não se senta numa mesa e fica em silêncio, você não deixa de somar a qualquer ambiente e isso de alguma maneira é uma remuneração indireta que você tem, para a sua vida.” Ricardo Boechat, em entrevista para Stéfanie Neuman, novembro de 2016.
  • “Você vai precisar ler demais”; O certo seria dizer que você, na realidade, vai deixar de ser só mais um receptor e se tornará um formador de opinião. Você está se preparando para informar pessoas. Quais pessoas? Todas. O hábito e o gosto pela leitura são um dos pré-requisitos. Lembre-se sempre que nessa área você vai precisar se submeter a casos e assuntos extremamente polêmicos, e isso vai demandar uma capacidade de argumentação que possivelmente você não adquiriu só com a bagagem do Ensino Médio. Essa habilidade você adquire lendo muitos livros sim, mas também não se mantendo alheio ao que acontece. 
    Esteja sempre atento. Use menos fones de ouvido. Observe as pessoas na rua, observe o comportamento delas, os assuntos que as envolvem. Tente sempre ligar a televisão de manhã enquanto se arruma, ouvir um pouco de rádio, checar alguns portais enquanto espera o leite esquentar ou a torrada ficar douradinha. São hábitos simples que fazem a diferença na apreensão de conteúdo logo cedo, e com o tempo se tornam parte do cotidiano.

Dicas que nunca me deram, mas que são de extrema importância

  • A Universidade tem o papel de te orientar e te colocar em contato com as demandas do mercado de trabalho. 
    Senhoras e senhores, eu realmente pensei que quando chegasse na faculdade me acomodaria em uma mesinha e voilá aprendizado. 
    Erm, digamos que logo no meu primeiro mês aprendi que não era bem assim…

Logo no início da minha vida universitária, primórdios de 2016, estávamos em uma de nossas primeiras aulas de rádio na Avenida Paulista. Carinhas novas, recém saídos do Ensino Médio. O professor falava animadamente sobre o princípio da história do rádio quando fomos abruptamente interrompidos por sagazes urros vindos do lado de fora.

Eis que a Avenida Paulista se encontrava abarrotada de pessoas trajando camisetas verde-amarelo da seleção brasileira, emitindo gritos de ordem, levantando enormes cartazes e bandeiras com os dizeres “Fora Dilma”.

Víamos claramente de um lado um batalhão de seres enroupados com a camisa da CBF enquanto do outro era possível distinguir um grupo de talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas de camisetas vermelhas balançando os pulsos e berrando de volta para a multidão.

“Muito bem, vocês querem ser jornalistas, certo? Muito bem, desçam lá. São oito e cinquenta agora, ás onze eu quero todos de volta, no laboratório, textos prontos — sem mais.”

Considerando a ingênua e púbere Stéfanie Neuman que andava de um lado para o outro com uma legião de adolescentes que partilhavam das mesmas ideias, costumes, classe social, e frequentavam os mesmos lugares durante o Ensino Médio — acordar um belo dia (não tão belo assim, São Paulo só garoa) e ter que enfiar o caderninho debaixo do braço, preparar o gravador e sair em busca de opiniões políticas divergentes em um cenário urbanamente épico cuja batalha civil em meio a manifestação e o caos eram de extrema evidência, foi um tanto quanto impactante.

(Temos abaixo uma imagem de minha autoria feita nessa ida á rua)

Imagem de minha autoria; 2016

Foi uma das melhores aulas práticas que tive na vida. Um professor virar para nós, calouros, e nos pedir que fôssemos as ruas para fazer nossa primeira matéria com tudo que tínhamos direito — campo, fontes, um fato que poderia ter sido abordado de diversas formas diferentes dependendo da percepção de cada um.

Ser jornalista é poder registrar uma história em constante mudança, em constante construção. É poder eternizar por meio de palavras e imagens uma narrativa cujos personagens somos eu, você e tudo que abrange o mundo que conhecemos. São as camadas de detalhes que captamos em eventos cotidianos que compõem a realidade de diversos povos e nações dentro da humanidade formando uma verdade expressa por diversos prismas.

A Universidade não vai te dar uma aulinha pra te ensinar que sujeito e predicado não se separam em hipótese alguma por vírgula. Nem que “mas” e “mais” não são a mesma coisa. (Sério, por favor, não cometam este erro). O que ela vai fazer é te mostrar que não adianta se acomodar em uma cadeira na frente de um teclado achando que a notícia vai cair do céu e você redigirá cinco ou seis textos machadianos todo empetecados e vai ganhar rios de dinheiro, porque não é assim que funciona.

Uma imagem do laboratório naquele dia.

A Universidade vai te mostrar, “Olha, você gosta disso? Então faça isto, leia este livro, pegue esta câmera e ligue para esta pessoa, para que assim você tenha a chance de chegar lá.”

  • Networking é um grande diferencial;
    Talvez isso soe meio óbvio, mas há dois anos atrás eu não fazia ideia.
    Em todos os seus projetos você vai precisar de uma fonte, por mais que não requira uma entrevista propriamente dita, é sempre bom conversar com pessoas (sim, pessoas, mais de uma) sobre o tema que pretende abordar. E isso implica em desde indivíduos aleatórios até um pessoal especializado dentro da área a ser abordada.

Mas Stéfanie, o que é um Networking?
Networking nada mais é do que ter contatos, pessoas com quem você pode contar.

Como um ‘Networking’ pode me auxiliar na produção de conteúdo?
Olha, há um exemplo muito prático e recente aqui.
Exemplo:
Vou cobrir a E3 de 2017” — muito bom, para falar sobre a E3 então vamos pegar três fontes consumidoras (ou seja, três pessoas que compram games e consomem esse tipo de mídia sem necessariamente fazerem parte do evento), duas fontes que participam do evento (de preferência uma que acompanhe pela internet ao vivo mesmo e outra que esteja presencialmente no evento mas que seja consumidora) e uma especializada (exemplo, pegar o representante da Nintendo ou alguém do próprio evento para discorrer a respeito).

Como um ‘Networking’ pode me ajudar a conseguir fazer parte de uma empresa?
Considerando que estamos em 2017 e as pessoas usam da internet para tudo, o diferencial seria estabelecer um Networking ao vivo com alguém. 
Aproveite palestras, congressos, a própria rua (isso mesmo, vira e mexe tem jornalistas ou fontes em potencial pela rua, não tenha medo), encontre métodos de conhecer pessoas — sem medo. Converse sobre o trabalho, questione, apresente-se. Um dia uma porta abre. Quantos e-mails uma pessoa recebe por dia? Enviar currículo via web nem sempre dá certo. 
Além do networking, leve isso para a vida. As vezes você pode acabar topando com alguma personalidade que admira, não tenha medo de para-la nem que seja para dizer um “oi”.

As imagens abaixo ilustram bem a ideia de “não ter medo e agarrar chances”.

Encontro maravilhoso e inusitado com Nany People no Vão do MASP, 2016.
Encontro inusitado com Caco Barcellos em Maio de 2017, no Complexo Globo.
  • Seu portfólio consegue ser até mais importante que seu diploma;
    Partindo do princípio de que no Brasil não é mais necessário ser graduado em Jornalismo para exercer a profissão, seu portfólio conta absurdamente.
    Porém aqui vem um piteco de quem vive nesse meio — Universidade é importante sim. O principal motivo é que ela te dá inúmeras dicas de aprimoramento acadêmico, te dá todo um embasamento para te preparar para a área profissional. Dependendo da faculdade que cursar, ela vai te colocar em contato com esse mundo de forma prática desde muito cedo, e isso é uma porta escancarada para começar a montar seu portfólio. Seja pró-ativo.
  • Você é um formador de opinião agora — lembre-se disso;
    Você assumiu um compromisso social agora. Chega de passar vergonha na internet. Tem aquela continha do Twitter que você adora meter a boca em tudo quanto é coisa, que adora fazer piadinha sarcástica com esse e com aquele? Acho melhor não.
Twitter é sensacional para fazer parte de eventos online — mas não para passar vergonha.

É tipo a técnica do “não faça nada que teria vergonha de contar para sua mãe”. Mas nesse caso, não tuíte nada que seu superior poderia estranhar.

  • Aprender a conciliar a vida pessoal com a vida acadêmica;
    Uma coisa que eu só aprendi depois de entrar na faculdade é que o tempo é a maior preciosidade que nós temos. Sabia que viveria submergida na minha profissão, mas não sabia que isso me tomaria tanto tempo.
    Aprender a diferença entre a prioridade, o urgente e o importante foi extremamente necessário, e atrelar sua vida pessoal em cada uma dessas três caixinhas em prol de conciliá-las com a sua vida acadêmica e futuramente profissional é um passo e tanto. Requer maturidade, requer aprender a abrir mão de certas coisas em prol do seu sonho, da sua paixão.
Não, eu não os perdi — mas é para ilustrar. (Novembro de 2016)
  • Eventualmente você perderá algumas pessoas;
    Fique calmo! Não é uma regra. Ninguém está dizendo que seus amigos virarão as costas para você ou vice-versa. Mas justamente pelo fato apresentado no item anterior — é capaz que você e seus amigos entrem em faculdades diferentes e sigam carreiras diferentes, isso é normal, é saudável, faz parte do viver. Mas eventualmente por uma série de razões demandadas da própria fase, você estará priorizando eventos ligados a sua escolha. E nem sempre vocês terão agendas compatíveis no tempo livre. A única forma de garantir sua amizade da forma como ela era antes é se dedicando, caso contrário, ela está suscetível a sofrer mudanças.
  • Cursar jornalismo, é cansativo?;
    Na realidade, quando você faz o que gosta, nada é cansativo (bom, exceto a semana de provas, em que se deve acordar bem mais cedo para evitar eventuais atrasos). Mas tenha em mente que é um trabalho constante.
  • Divirta-se!;
    Faculdade não é só festa, pegue firme! Mas não se esqueça de curtir essa fase com disciplina, mas também com leveza. Lembre-se sempre do que te motivou a seguir essa profissão em primeiro lugar!
Visita técnica a Globo, março de 2017.