Topei com Hideo Kojima na lojinha | BGS 10

Quando que ia imaginar que ele andaria livremente entre nós?

Afinal, como essa foto foi tirada?

A Brasil Game Show no geral é cheia de atrações e sua décima edição foi repleta de momentos marcantes, mas pra mim, essa foi uma das experiências mais surpreendentes e incríveis de toda a feira.


Saindo da sala de imprensa, Letícia e eu resolvemos que seria uma boa ideia ir conferir os produtos oficiais em primeira mão.

A feira de modo geral continuava bem vazia. Alguns estandes nem estavam funcionando em toda sua potência ainda. Sabíamos que em não muito tempo teríamos Hideo Kojima no palco, pronto para participar de um painel com o público e responder algumas perguntas. Mas ainda tinha um certo tempo para explorar o centro de convenções.

Mal havia entrado na loja e notado: uma pilha enorme de almofadas ao lado da prateleira de copinhos térmicos. Se tem algo que eu sou bem mais chegada do que brusinhas, são esses recipientes próprios para levar café pra faculdade.

Lá fui eu, toda determinada, para a seção de bugigangas.
Vejamos… canecas, copinhos com canudo… Copinhos térmicos!” sorri.

Notei que bem ao meu lado havia um homem que mantinha sua câmera apontada para as canecas “Kojima Productions”. Como recentemente havia comprado uma Canon, aproximei-me a fim de constatar o tipo de lente que ele usava.

Ué… esse moço me é familiar… ele parece o… o… eita.

Olhei pra trás loucamente procurando a Letícia, que examinava as camisetas uma a uma. Como uma boa jornalista em formação, ela logo percebeu minha fitada monstra em direção à ela, e arregalou os olhos como quem dizia “é, meu, tô vendo”, e já sacou o celular. Eu, por minha vez, dei dois passos pra trás e me preparei para registrar o momento.

A cautela era muita, ele não havia nem mesmo notado nossa presença ali. Continuava entretido, mantendo seus olhos calmos no visor ocular.

O objetivo era simples: calmamente registrar o que estava acontecendo mantendo o máximo de respeito, o mínimo de afobamento e sem chamar a atenção de ninguém — nem do Kojima, nem de qualquer outra pessoa que estivesse ao nosso redor.

A câmera já estava posicionada em meu pescoço, liguei-a calmamente e apontei-a para ele.

Estava há cerca de sete ou oito pés de distância, fazendo uso de um pouco de zoom em uma lente 18–55mm.

Ele locomovia-se pela loja, procurando novos alvos para suas lentes. Mantendo uma certa distância, acompanhava-o pela DSLR, tomando cuidado para não esbarrar nas muitas prateleiras à nossa volta.

Logo, percebia olhares curiosos se dirigindo para dentro da loja, tal como a presença de seguranças, que pareciam brotar do chão. Não queria perdê-lo de vista, nem ser incômoda; mas ao mesmo tempo também não queria perder Letícia, muito menos o momento inédito que estávamos vivenciando ali.

Foto por: Stéfanie Neuman

Voltei meus olhos para ele. Após acompanhá-lo por dentro e por fora da loja em suas muitas aventuras fotográficas angulares com os objetos ali dispostos, finalmente desliguei minha câmera. O vi regressar ao interior da loja para checar as camisetas. Nesse momento, pensei em arriscar um outro vídeo.

Um vídeo literalmente pra mandar no grupo da família e dos amigos mais chegados, da época de Ensino Médio. Aqueles que costumavam vir em turmas de dez à doze em casa, em plena sexta-feira, prontos para comer besteira e levar altos sustos com os estrondos, ruídos e uivos vindos do jogo P.T., de Hideo Kojima.

A galera mal cabia na sala de casa, ficava todo mundo apertadinho. A disputa pelo sofá era árdua, só para os vencedores mesmo. Os mais medrosos alojavam-se nos arredores, com almofadas pré-posicionadas em frente ao rosto e saquinhos de pipoca pronta.

Lisa, Lisa, are you there?” alguns arriscavam por meio do fone plugado ao controle do PS4. Enquanto outros berravam “Cala a boca! Ela vai aparecer!!” apertando os olhos.

Olhava para ele e imaginava todas as nuances e detalhes que havia experienciado em seus jogos.

Observava a forma como angulava sua DSLR e tentava captar a realidade de jeitos diferentes, depositando em cada uma delas um pouco de si mesmo. Não era um simples registro, era notável como não se deixava envolver pelo que acontecia a sua volta por manter-se focado ali.

Os muitos fãs iam aparecendo, os seguranças não paravam de brotar, iam se unindo, uma escolta se formando quase tão rápido quanto a multidão que logo tomara consciência de sua presença e apropriara-se da lojinha.

De Kojima, nada, mas os olhos fixos no visor ocular.

O buxixo formava-se às nossas costas. Afastei-me. Meu irmão de quatorze anos, Nicholas, estava em casa ainda. Só viria para a feira dali dois dias, e como um bom jogador de Metal Gear Solid V, precisava dizer a ele o que estava acontecendo. Saquei o celular.

O Hideo Kojima tá aqui!” — disse filmando, virando o celular para onde se encontrava, enquanto isso ele caminhava em minha direção.

Antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ele ergueu dois dedinhos para o vídeo, em um breve e apertado sorriso.

Recolhi o celular, rindo surpresa. Não passou de 15 segundos.

O amontoado estava formado. Nem sabia mais onde Letícia estava. Pensei em me afastar ainda mais e juntar-me ao resto. Kojima olhava para os lados, finalmente alerta, procurando uma saída. Alguém o chamou novamente no setor que inicialmente o encontrei. Aproximei-me. Ele não pareceu incomodado. Observei em volta. Olhares atentos à ele, e agora à mim também. Tremia. Hideo Kojima estava bem ao meu lado. “Tá tudo bem, fica calma”. Seus olhos fitaram-me, curiosos. Não hesitei.

- Excuse me, Kojima-san… — seus olhos continuavam atentos e curiosos — may I take a picture with you?

Ele me olhou todo simpático, apertou os olhos e consentiu com a cabeça.
Minha mão tremia. Saquei o celular rapidamente e deslizei-o iniciando o aplicativo da câmera.

- Rápido, rápido! — disse um segurança, já pronto para levá-lo dali.

Sorrimos.

- Thanks for your time!

Ele continuava sorridente, e despediu-se com um suave aceno. Observei-o partir, e sumir em meio a multidão, que o engolia e acompanhava. Impressionante como um conglomerado havia se formado em pouquíssimos minutos.

Quem ia imaginar que esse mito estaria andando assim, livremente entre nós?