Segredos de Dois

Não existe segredo se outra pessoa também sabe. Talvez por esta razão tantas atividades extracurriculares (por assim dizer) são descobertas. Num caso recente de vazamento de informações de um site de encontros para casados, várias situações de infidelidade ou busca de outros parceiros foram expostas no mundo inteiro. Além das consequências legais de separações, indenizações e outras questões morais, existe um aspecto social para ser considerado. E também vários aspectos de marketng que podem ser estudados.

A primeira discussão aqui é de invasão de privacidade. As pessoas têm direito a ter segredos? Voltando ao título do texto, uma comunicação qualquer na internet raramente tem apenas duas pessoas envolvidas; pelo contrário, os canais de comunicação podem ser monitorados por uma série de pessoas e robôs, pertencentes ou não ao circuito da comunicação enviada. Internet, celulares, telefones, conversas: tudo pode ser interceptado. Para que objetivos? Além dos tradicionais (chantagens, divórcios, processos), existem ainda as possibilidades de simplesmente divulgar publicamente as informações obtidas e com isso causar alguns danos de imagem, com maior ou menor potencial de causar danos, dependendo do interesse na exposição de uma determinada pessoa. Dica prática: se não quer que ninguém saiba, não faça.

A segunda discussão é da mudança de comportamento, com a internet sendo utilizada como mediadora para diversas atividades e relacionamentos. Programas como o Tinder, Par Perfeito (um avô do Tinder), Ashley Madison, Second Love servem uma comunidade solitária ou em busca de variedade e, mais que isso, servem um mercado que aparentemente sempre existiu. Os dados tornados públicos do Ashley Madison indicam 30 milhões de usuários no mundo todo (quase 2 vezes a cidade de São Paulo ou 15 vezes Brasília). Incluindo alguns lugares com predominância feminina, o que seria uma surpresa em outras épocas. Um cruzamento de dados interessante aqui seria entender o quanto existem casais que traem separadamente e com isso entender estágios de evolução cultural e da permissividade do comportamento, além de alguns vetores de propagação de doenças e de influências.

A terceira discussão está relacionada ao mercado e possui aspectos de economia e de marketing. Em resumo: onde há demanda, cedo ou tarde é criada uma oferta. Para que uma oferta eficiente seja criada é preciso entender que necessidades e desejos serão atendidos com um produto ou serviço novo. A percepção do comportamento de consumo pode ser feita em ao menos três momentos: entender a história (passado); avaliar o momento atual (presente); e prever tendências (futuro). As três percepções podem ser mais ou menos precisas, dependendo da forma de análise. Prever tendências com base no passado é um exercício falho se não considerar as componentes presentes desta análise com suas possibilidades de desdobramento. Existem alguns comportamentos que se repetem ao longo das épocas mais diversas. Alguns comportamentos que são comuns a várias culturas, seja por razões biológicas ou por questões culturais (ou numa vertente mais polêmica pela interação evolutiva de ambas). E alguns comportamentos imprevistos. Entendê-los demanda esforços de pesquisa constante, desde pesquisas de satisfação até conversas mais elaboradas. É preciso sair do ambiente fechado das empresas e encontrar os consumidores reais. Não resolve tudo, mas é um bom começo.

Adaptar soluções existentes e desenvolver novas soluções para suprir demandas motivadas por necessidades e desejos de possíveis clientes em constante estado de evolução e aprendizado exige um foco muito mais amplo em entender pessoas que em saber das novas tecnologias. Criar aplicativos que facilitem algumas situações — dentro das duas categorias básicas de aplicativos: time savers e time killers — é desejável, considerando nossa tendência ao menor esforço e a usar mais os dedões que as pernas em busca do que quer que seja. Esse conforto que sentimos ao usar as tecnologias disponibilizadas em plataformas móveis (ou mobile para os mais puristas) também aumenta nossa possibilidade situações de exposição de dados sensíveis e pessoais. Com o passar do tempo, tudo o que dissermos na rede, ainda que em mensagens privadas, poderá e será usado contra nós. Se tenho medo que esse dia chegue? Não. Esse dia já chegou.

Sempre que compartilhar um segredo, pessoalmente ou digitalmente, ele deixa de existir. Com isso em mente, talvez os segredos possam ser bem melhor guardados. A melhor criptografia é o silêncio. E não existe segredo de dois!