Brasil In The Darkness
Apr 16 · 8 min read

Escrito por Porakê Martins

Capas das quatro edições de Lobisomem: O Apocalipse

Os livros básicos de Lobisomem: O Apocalipse sempre reservaram uma seção para abordar, em linhas gerais, a visão Garou sobre as mais diversas regiões do planeta. O Brasil, nunca chegou a ser abordado diretamente nesses livros, mas a Floresta Amazônica, que tem 60% de sua extensão em território brasileiro, sempre recebeu destaque quando o assunto é a América do Sul. Na primeiríssima edição, que jamais chegou a ser traduzida para o português, o continente foi retratado assim:

“De todos os continentes, os Garou estão menos ativos na América do Sul, principalmente devido ao fato da região ser o último refúgio da maioria dos outros licantropos do planeta. Uma variedade de homens-jaguar, homens-serpente, homens-morcego e homens-crocodilo vivem espreitando nas florestas da Amazônia. Os Garou, preocupados com a destruição da floresta tropical, tentam se aliar com esses outros licantropos, mas os habitantes das selvas se lembram bem dos dias do Impergium, quando outros metamorfos foram rotineiramente destruídos como ‘blasfemadores da Wyrm’; Garou invadindo seus domínios são frequentemente punidos com a morte. Os Garou podem tentar fazer uso de locais sagrados de outros licantropos, mas isso geralmente é um empreendimento extremamente perigoso.

Há rumores de que o desenvolvimento recente da Amazônia é um estratagema da Wyrm para obter novos criadouros; certamente as selvas são densas o suficiente para esconder muitos dos maiores súditos da Wyrm que de outra forma seriam obrigados a permanecer no subsolo”. (Werewolf: The Apocalypse, First Edition, 1992, página 50).

O interessante aqui é observar como muito antes da ideia do Ahadi e das Cortes Bestiais, que só surgiriam com o advento da edição revisada (a terceira edição), a Amazônia já era apontada no core do jogo como o “último refúgio da maioria dos outros licantropos”, um refúgio extremamente hostil à presença Garou e muito cobiçado pela Wyrm.

Em um primeiro momento, o olhar Garou sobre a América do Sul parece se resumir à preocupação com a icônica floresta amazônica. Apesar de se estabelecer que a floresta é cobiçada pela Wyrm, ainda não se falava na Guerra na Amazônia, que só viria a ser mencionada a partir do infame suplemento Rage Across The Amazon, um suplemento dessa Primeira Edição deLobisomem, publicado em 1993, ecoando a repercussão mundial da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, sediada no Rio de Janeiro no ano anterior, a RIO 92.

Também é interessante notar que desde o início, estava sendo plantada a semente para a criação dos Nagah (homens-serpentes) e Camazotz (homens-morcego), originalmente relacionando-os à America do Sul, tanto quanto os Balam (homens-jaguar) e Mokole (homens-crocodilo). O texto dá a entender que num primeiro momento os Nagah são seriam tão intimamente relacionados à cultura indiana, como vieram a ser, e os Camazotz não apareciam como uma raça metamórfica completamente extinta. Outra curiosidade é perceber como o texto confunde o Impergium com a Guerra da Fúria. Ao longo das edições as diferenças e a localização desses dois eventos na cronologia oficial do universo de Lobisomem se tornaria mais clara.

Apenas dois anos depois da primeiríssima edição de Lobisomem, nós teríamos a segunda edição, que também foi a primeira a ser traduzida para o português pela Devir no mesmo ano de lançamento da nova edição estrangeira, onde a América do Sul passava a ser retratada assim:

“Poucos Garou chamam a América do Sul de lar. O continente há muito tem sido território dos outros licantropos do mundo ̶ os metamorfos que foram levados para as vastidões pela Guerra da Fúria dos Garou. Uma variedade de criaturas ̶ homens-jaguar, homens-jacaré e outros ̶ reinam nas selvas minguantes da Amazônia. Os Garou, preocupados com a destruição da floresta tropical, têm feito propostas de aliança, mas as outras criaturas lembram bem demais da Guerra da Fúria. Os Garou que invadem o território dos outros licantropos costumam ser punidos com a morte.

Recentemente, as depredações causadas pelas Empresas Pentex forçaram os Garou a uma invasão em massa da Amazônia. A guerra de duas frentes contra os agentes da Wyrm e os outros licantropos enfraqueceu seriamente os Garou”. (Lobisomem: O Apocalipse, Segunda Edição [Primeira Edição Brasileira], 1994, páginas 43–44)

Nesta segunda edição, desaparecem as referências diretas aos homens-serpente (Nagah) e homens-morcego (Camazotz), as atenções se mantém focadas apenas na floresta amazônica, ainda retratada como um território extremamente hostil aos Garou, mas a Guerra da Amazônia já é mencionada como uma guerra em que os lobisomens combatem tanto a Wyrm como as demais raças metamórficas, dando a entender que os Garou estão em desvantagem, tendo sido “enfraquecidos seriamente”, embora já admita alguma presença, pequena, de Garou nativos da região, afinal, “poucos Garou chamam a América do Sul de lar”.

Já na edição revisada (terceira edição), a América do Sul passaria a ser muito mais detalhada no livro básico, passando a ser retratada assim:

“Poucos Garou consideram este continente seu lar. Há tempos é o refúgio de outros metamorfos, que ainda nutrem um grande ódio pelos lobisomens por causa da Guerra da Fúria. Embora Espanha e Portugal reivindicassem vastas porções de terra no século XV, uma população relativamente pequena de Parentes acompanhou os colonizadores. Bandos ardilosos de Fera isolaram as comunidades de Parentes Garou e seus familiares lobisomens, chegando até mesmo a atacá-las diretamente para ferir os Garou. As maiores cidades sul-americanas são maravilhas da era moderna, mas a pobreza e o desespero são lugar-comum nas profundezas do terceiro Mundo. Os Uktenas e os Roedores de Ossos conseguiram conquistar alguns Caerns nesse continente, mas seus parentes estão acostumados à opressão, á exploração e à violência. Os Senhores das Sombras tentaram organizá-los séculos atrás, cooperando com os conquistadores espanhóis, mas sofreram uma derrota homérica. As Feras sul-americanas lutaram bravamente para defender suas terras e, apesar de muitas terem morrido, continuam no continente até hoje. Algumas começaram a acasalar com Parentes Garou, para o horror dos lobisomens que descobriram o fato. Outras tribos só começaram agora a perceber o tamanho da população de Parentes nesse continente. Apesar de apenas algumas pontes da lua levarem à América do Sul, existem muitos caerns isolados que ainda podem ser reclamados… ou roubados. Os Parentes perdidos podem ajudar a virar a maré da batalha, mas só se os Garou também conseguirem ajudá-los. Um dos locais de maior destaque na América do Sul sobrenatural é a Amazônia. Nos últimos dez anos tornou-se um dos grandes campos de batalha dos Garou contra a Wyrm. os lacaios da Wyrm corromperam algumas mega-empresas interessadas no lucro obtido com a destruição da floresta tropical. No interior das florestas cada vez mais reduzidas, brutais ‘deuses-onças’ metamorfos defendem seus Territórios Umbrais com selvageria, atacando lobisomens e invasores a serviço das empresas com igual ferocidade. É uma batalha perdida para todos os envolvidos. Mesmo sem a influência do Grande Dragão, a invasão humana está eliminando um reino de que a Terra precisa desesperadamente para sobreviver.” (Lobisomem: O Apocalipse, Terceira Edição [Edição Revisada], 2000, páginas 46–47)

A edição revisada trouxe muitos detalhes e informação nova sobre a região. Aqui é cimentada a visão de que embora a América do Sul siga sendo um território hostil à presença Garou, em consequência da Guerra da Fúria, há, desde antes da colonização europeia, alguma presença de lobisomens, ainda que pequena. Parece que foi só a partir desta edição que alguém avisou a White Wolf que a colonização do continente não foi exclusivamente espanhola e que há mais do que a Floresta Amazônica para se explorar por aqui, embora o destaque ainda seja mantido em relação à floresta e à Guerra na Amazônia. Pela primeira vez, o livro básico aborda as cidades sul-americanas, relaciona os Senhores das Sombras aos colonizadores espanhóis e destaca a presença de Uktenas e Roedores de Ossos na região. É aqui também que se estabelece a compatibilidade entre Parentes Garou e Balam como parceiros sexuais capazes de produzir metamorfos verdadeiros de ambas as raças, o que tem uma enorme relevância para o entendimento da reprodução entre raças metamórficas e para entendermos as possibilidades e os desafios da manutenção da presença Garou na região.

A Edição de 20 anos de lobisomem, basicamente mantêm os novos elementos apresentados na edição revisada, mas sinaliza um “esfriamento” da Guerra na Amazônia, diante do que parece ser uma relativa vitória parcial dos Garou, ainda que a região se mantenha bastante isolada do restante da Nação Garou e seja considerado um território hostil aos lobisomens, como se pode conferir nesse trecho:

“Embora as Tribos Puras já tivessem viajado para a América do Sul, apenas os Uktena se instalaram em números notáveis. Entretanto, o lugar era o lar de poucos Garou até a colonização europeia, mas mesmo assim os lobisomens eram raros e dispersos, com apenas os Roedores de Ossos como uma moderna exceção. Na maior parte, essas terras tradicionalmente pertencem aos Fera — os outros metamorfos tão maltratados pelos Garou na Guerra da Fúria.

Os Fera perseveraram mesmo após os sangrentos conflitos com os lobisomens invasores (como os Senhores da Sombra que trabalhavam com os espanhóis). Eles até se infiltraram nas populações de Parentes Garou, causando extrema surpresa quando uma Primeira Mudança resultava em um jaguar metamorfo em vez de um lobisomem.

Uma das razões pelas quais o continente ainda continua a ser um mistério para a maioria dos lobisomens é a relativa falta de acesso de pontes da lua aos seus Caerns. Muitas vezes, eles são intencionalmente fechados pelas Seitas nativas, para evitar o assédio de Garou estrangeiros, porém muitos se perderam. Há alguns caerns, no fundo das selvas e esquecidos, mas ainda lembrados nas lendas, esperando o intrépido Garou ou Fera para encontrá-los e recuperá-los … antes que a Wyrm os encontre.

Da mesma forma, muitas linhagens de Parentes foram perdidas, suas tentativas espirituais de rastreá-las não obtiveram sucesso. Os poucos Garou nascidos aqui desconhecem seu povo e são perseguidos pelos servos da Wyrm, que os procuram para convertê-los antes que eles se conheçam melhor.

Durante as últimas décadas do século XX, a floresta amazônica foi alvo de um dos maiores esforços conjuntos dos Garou contra a Wyrm. A Guerra da Amazônia causou vítimas incontáveis em todos os lados e continua sem um vencedor claro, embora o conflito tenha esfriado de forma intensa à medida que a expansão das companhias de petróleo está paralisada. Não importa — a Pentex mudou suas operações de petróleo para outras zonas, como testemunharam os derramamentos de petróleo da plataforma de perfuração no Mar Negro e no Golfo do México. Existem poucos lobisomens para proteger os mares e os oceanos.” (Werewolf: The Apocalypse 20th Anniversary Edition, 2013, página 61).

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Confira também: AMÉRICA DO SUL: AS SELVAS DO CORAÇÃO — Trecho traduzido do suplemento oficial “A World of Rage”.
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Fanpage brasileira do universo clássico de RPG de Mesa, Mundo das Trevas (World of Darkness).

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