É preciso se perder para se encontrar

Viajar é a melhor forma de se perder e se encontrar ao mesmo tempo. Li esta frase num blog e achei interessante, poética, filosófica. Mas no meu caso, o “se perder” jamais teve chance. Desde a minha primeira viagem, sempre cuidei para que todos os detalhes fossem minuciosamente programados. Tudo sob o mais absoluto controle: passagens, reservas, roteiros, hospedagem. Para o imprevisto não havia espaço na minha bagagem. Até que eu chegasse a esta viagem.

No momento estou a caminho de Munique e já se passaram 15 dias desde que saí do Brasil. Este era pra ser apenas mais um dos meus super tours europeus. Tudo programado: cidades escolhidas, passagens compradas, hotéis reservados. Mas, às vésperas do embarque, eu já sentia que essa viagem seria diferente. E eu estava certa.

Estou prestes a completar 30 anos e acabo de perder meu emprego (com o qual eu já estava insatisfeita). Além desses fatores, há muitos outros pontos de interrogação tornando minha fase atual um momento totalmente desfavorável para programação. Ou controle.

O dia da viagem chegou. Arrumei as malas há poucas horas do embarque. Imprimi as confirmações das reservas na véspera. Tudo às pressas. Roteiro do que fazer nas cidades que ainda não conhecia? Nenhum. Aplicativos no Iphone para não me perder no transporte local? Oi? Eu simplesmente fui.
EU NUNCA HAVIA FEITO ISSO ANTES! Eu simplesmente pensei: chegando lá, darei um jeito. E fui.

Chegando em Frankfurt, com meu alemão básico e alguma noção de direção, eu realmente me virei. Mas, o que aconteceu depois, foi uma sucessão de fatos até então incomuns e inaceitáveis para mim e que me fizeram refletir em questões muito mais profundas.

Após a chegada de minha prima, pegamos um ônibus até a cidade vizinha, Colônia. O ponto de partida do ônibus em Frankfurt era próximo à estação Central. Eu não conseguia achar o ponto do ônibus. Depois de muito andar, eventualmente encontramos. Chegando em Colônia, ficamos aproximadamente uma hora dando voltas procurando pelo hotel. Eu simplesmente não conseguia encontrá-lo! Nem com mapas, nem pedindo informações, nem usando a lógica (ou a falta dela). E a situação se repetiu em todas as cidades pelas quais passamos. Nos perdemos em todas elas! Eu simplesmente não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Eu, uma viajante experiente, que sempre teve todas as respostas, simplesmente não sabia mais o que fazer.

Foi então que encontrei a resposta e o significado da frase do começo do texto: eu precisava me perder para me encontrar. E que maneira mais cinematográfica para refletir nisso do que perdida em Colônia, às onze e meia da noite, arrastando malas pela chuva? Ou arrastando malas pelo metrô de Paris ao som da tradicional sanfona? Ou ainda, arrastando malas sob a garoa de Londres? Sim, sempre arrastando as benditas malas! E eu descobri que elas pesam mais que o mundo que eu achava estar carregando nas costas. E isso foi um alívio (depois de um banho quente e um bom emplastro, claro).

A minha conclusão com isso tudo é que preciso me perder, errar, não saber as coisas! Preciso da opinião alheia, arriscar palpites sobre qual é a direção certa e ver onde o caminho vai dar. Se estiver errado, meia volta, começo de novo. E de repente no caminho “errado”, quando estamos lá perdidos, descobrimos lugares lindos, que talvez não teríamos arriscado conhecer. Isso é literal, vale pra viagens e como metáfora, também vale pra vida. É preciso se perder nas escolhas. Às vezes nos acomodamos numa vida infeliz, mas o medo da mudança nos amarra e deixamos de enveredar por um caminho desconhecido, que poderia nos levar a uma linda “paisagem”.

Outra coisa que descobri que vale como conselho literal e como metáfora é: viaje leve. Bagagem demais só atrapalha. Não deixe que mágoas e tristezas, experiências que não deram certo ou a negatividade alheia se acumulem em suas costas. Esse peso só atrapalha. E no final sua mala estará tão cheia que não haverá espaço para os souvenirs que encontrar pelo caminho.

E é isso. Meu voo já vai pousar. Deixa eu ir me perder lá em Munique.