10 motivos pelos quais ter um emprego público pode ser uma fria

Alan Palhares
Nov 4, 2014 · 11 min read

Alguns países, como os EUA, cultivam o ideal de que o empreendedorismo e o trabalho podem levar o cidadão a alcançar seus sonhos. É o chamado American Dream, o Sonho Americano. Ao longo dos anos, no Brasil, convencionou-se que a única forma de um cidadão comum conquistar o seu lugar ao sol é através de um concurso público, o qual garantirá um emprego estável e igualmente público para o escolhido (no sentido quase bíblico do termo). Listas de aprovados tornaram-se tábuas da salvação, e o emprego público, com suas diversas vantagens, suas poucas obrigações e sua estabilidade perene tornou-se o grande sonho a ser alcançado por qualquer brasileiro, o nosso Brazilian Dream.

Não se sabe ao certo onde esse fetichismo pela carreira pública começou, mas é provável que a notória instabilidade econômica do Brasil, juntamente com o histórico desprezo da sociedade brasileira pelas formas de trabalho desempenhadas por profissionais sem um título de Bacharel em Direito (fruto de nossa herança escravocrata) tenha contribuído para o ideal de que somente funcionários públicos serão poupados no Dia do Juízo Final (ainda que você queira mandar todos para o inferno).

Este artigo, escrito por alguém que há três anos é integrante do baixo escalão do Funcionalismo Público do Estado do Rio Grande do Sul, tentará desconstruir o endeusamento da carreira pública, apresentando notórias desvantagens nesse caminho profissional, as quais não costumam ser apresentadas nas enfadonhas reportagens sobre o aumento na procura por cursinhos preparatórios para concursos públicos. É importante salientar que irei focar no funcionalismo genérico, isto é, toda sorte de serviço burocrático-braçal que envolva pelo menos cinco carimbos e não mais do que uma sinapse cerebral. É evidente que, em determinadas carreiras, o serviço público pode ser uma alternativa viável.

Eis os 10 motivos pelo qual ter um emprego público pode ser uma fria:

1. Você estará trabalhando para o governo.

Existem trabalhos para órgãos governamentais que podem ser considerados nobres: um abnegado professor de uma escola pública, um abnegado médico de um hospital público, um abnegado fiscal da Anatel que coloca operadoras de celular contra a parede. Até mesmo um policial emocionalmente equilibrado pode desempenhar um serviço nobre à população. No entanto, você consegue imaginar algo mais mesquinho, medíocre, ordinário, insignificante, ignóbil e torpe do que fazer um serviço burocrático para o governo? Foi para isso que você veio ao mundo? Seja sincero: quando você era criança e o perguntavam “O que você vai ser quando crescer?”, você respondia “Um escravo irracional a serviço de um monstro sem rosto de um milhão de tentáculos chamado Governo, cujo objetivo é estrangular a todos”?

Você pode achar que está apenas servindo à população e que está fazendo o bem comum, mas não se engane! Em determinado momento da sua carreira pública, um viscoso tentáculo do Governo vai entrar na sua pacata repartição pública, provavelmente escondido dentro de um processo, e vai mostrar a você quem é que manda. O povo, que você estava servindo com tanta dedicação, vai sair da sala com o rabinho entre as pernas, como um cachorrinho amedrontado ao observar o tamanho do monstro sem rosto que acaba de chegar. Quanto mais tempo você trabalhar para o governo, maiores serão as chances de você fazer algo vergonhoso com o qual discorda radicalmente, simplesmente porque “é assim que está no regimento interno do órgão” ou porque são “ordens de cima”. Se você tem opiniões, guarde-as para você. Você é funcionário público. Se quisesse fazer algo que envolvesse mais do uma sinapse cerebral, não deveria ter feito o concurso. Acostume-se, e seja bem-vindo. Vai acontecer uma porrada de vezes.

2. Você estará preso ao mesmo emprego para sempre

Ironicamente, o aspecto mais apreciado do emprego público — a estabilidade — é justamente a sua faceta mais deplorável. Pessoas que trabalham em órgãos públicos são invariavelmente atacadas por uma doença chamada Síndrome do Cagalhonismo Público Adquirido, ou SCPA. Muitas pessoas já nascem com essa condição e morrem de medo de qualquer emprego no qual exista a possibilidade de ser demitido por faltar dois dias seguidos. Não surpreende que pessoas com este perfil acabem no Funcionalismo. Todavia, há aqueles que resolvem fazer um concurso como alguém que faz uma entrevista de emprego em uma empresa privada: ou seja, estão apenas atrás de um trabalho. Se essa pessoa for aprovada no concurso e chamada pelo órgão, ela entrará em uma espiral de acomodação da qual nunca mais conseguirá sair. Isso se aplica a qualquer emprego público, mesmo aqueles (poucos) que não pagam bem ou que são muito insuportáveis (quase todos). Agora pense: se você trabalha em um emprego insuportável que paga mal, o que você faz? Vai atrás de coisa melhor, correto? Não se você estiver sofrendo de SCPA. Nesse caso, você começará a ter pesadelos com a possibilidade de trabalhar na iniciativa privada, e só irá ver uma saída possível para o seu trabalho odioso: fazer outro concurso. E aí, é um processo demorado. Mesmo se você passar, precisará conseguir uma boa classificação e esperar um bom tempo até ser chamado. E em alguns casos, estará trocando um emprego público odioso por outro.

Para quem já desistiu de viver, ficar o resto da vida em um emprego odioso é uma alternativa plenamente viável. O problema é quando uma pessoa de 20 e poucos anos, cheia de sonhos profissionais, cai em uma repartição indistinta e começa a seguir carreira, quase acidentalmente. Ganha uma promoção ou duas, vira chefe de algum setor pacato e começa a receber gratificações. No momento em que essa pessoa começar a pensar em seguir os seus sonhos, estará ganhando suficientemente bem, e terá uma crise de SCPA. É uma pena. Essa pessoa poderia estar descobrindo a cura para o câncer, ou até mesmo para a SCPA, mas ao invés disso, está fazendo um relatório solicitando a compra de mais 500 pacotes de papel para a repartição.

3. Você será desprezado por qualquer pessoa que não trabalhe no serviço público.

No momento em que você tomar posse no seu glorioso empreguinho público, estará automaticamente transformado em um tremendo vagabundo incompetente aos olhos de todos. Alguns amigos irão olhá-lo com inveja, por secretamente desejar estar em um trabalho que os ofereça a possibilidade de vagabundear livremente como o seu. Outros amigos, de perfil mais arrojado e criativo, irão olhá-lo com uma certa dose de condescendência. Vão entender que você “desistiu”, principalmente se reconhecerem algum talento em você. Nas primeiras semanas, você ouvirá piadinhas sobre ter muito tempo livre desde que se tornou funcionário público, ou sobre algum outro aspecto da carreira que costuma ser motivo de deboche. Com o passar do tempo, o riso jocoso será substituído por um riso de escárnio, e você finalmente se dará conta de que perdeu completamente qualquer traço de amor-próprio a partir do instante que resolveu virar funcionário público. Não há como fugir disso: o funcionário público é uma dessas profissões saco-de-pancada onde a população pode descontar suas frustrações profissionais. É o preço que você paga pela estabilidade, pelas mordomias e pelos altos ganhos que sua profissão oferece. Você será sempre um catártico boneco-de-Judas para o povo. Essa é uma carreira em que você poderá ter altos ganhos em um curto espaço de tempo, mas enfrentará estigma social. Mais ou menos como ser prostituta de luxo.

4. Colegas de trabalho psicóticos e incompetentes serão eternos

Pense num colega de trabalho fictício. Ele trabalha em um setor fictício que é crucial para o bom andamento do seu trabalho. Vamos chamar esse setor de “Setor de Andamentos”. Mas sempre que você pede para que ele atenda algum serviço fundamental para o seu trabalho ele 1) não está na sala 2) não está no prédio ou 3) não está de bom humor. Aliás, está de péssimo humor, e acabou de jogar um grampeador na sua direção… Resultado: você vai ter que dar um jeito de realizar esse trabalho de uma forma que não envolva o seu peculiar colega do Setor de Andamentos, ainda que a maioria dos serviços em repartições públicas obedeçam à lógica de uma linha de montagem da Ford no início do século 20.

Agora, imagine que esse colega fictício trabalhe em uma empresa privada. Ele será demitido. Pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas ele será demitido, porque ele coloca todo o fluxo de trabalho da empresa em risco. Mas no Serviço Público, é impossível demitir maus funcionários. Até existem casos de demissões, mas são tão fáceis de reverter que chegam a ser risíveis. Funciona assim: o funcionário demitido entra com um processo alegando perseguição dos chefes que o colocaram para a rua. (É bom citar motivos políticos — juízes adoram isso). O Poder Judiciário então dará ganho de causa para a “vítima de perseguição” (sempre), e ele voltará como se nada tivesse acontecido.

Como o seu colega do Setor de Andamentos não será demitido, reze para que ele seja transferido de setor, a fim de que esse entrave na sua rotina de trabalho seja removido. Aproveite também e peça intervenção divina para que ele não seja transferido para o seu setor. É bom deixar essas coisas bem claras com a divindade de sua escolha.

5. Você não estará totalmente imune ao estresse

Outro erro comum que pessoas perseguindo o Brazilian Dream cometem: acreditam que o serviço público é um oásis de tranquilidade e segurança, onde jamais irão se incomodar com nada. Pode até ser verdade se você for colocado para trabalhar em um setor particularmente inútil, mas não se engane: o nome desse troço é “Serviço Público”. Onde há serviço público, há público. Pessoas. Já pensou em ter que trabalhar em atendimento ao público? “Mas eu gosto de trabalhar com atendimento ao público!”, você pode dizer. Espere só até atender um advogado perverso que segura sua OAB como uma submetralhadora (não sei por que, mas parecem ser a maioria). Não se esqueça que você estará atendendo principalmente brasileiros, pessoas que têm o péssimo hábito de achar que seus direitos são mais urgentes e importantes do que os direitos de outras setecentas pessoas que requisitaram exatamente a mesma coisa naquele mês, e com maior antecedência. Além do mais, a organização que você representa não é exatamente um modelo de gestão eficiente. Como você vai explicar para essas setecentas pessoas emperradas no kafkaniano fluxo de trabalho de uma burocracia estatal que suas solicitações não foram atendidas porque o seu colega psicótico do Setor de Andamentos mantém todas as solicitações como reféns? Se você não é bom inventando desculpas esfarrapadas, vá se preparando.

6. Há muita política no Serviço Público

Existe um senso comum de que todos os problemas da administração pública serão magicamente resolvidos no momento em que excelentes gestores da área privada assumirem a liderança de órgãos públicos. Esses gestores irão colocar os funcionários para trabalhar, seguindo princípios de uma administração eficiente, inovadora e proativa. Pessoalmente, acho que os defensores dessa ideia se esquecem de um aspecto fundamental que nem todo gestor da área privada possui: a capacidade de ser “político”, levada às últimas circunstâncias. Porque para conseguir as coisas no Serviço Público, é necessário uma quantidade atroz de tapinhas nas costas, uma vez que você trabalha em um local onde o administrador não têm a sua principal moeda de troca: a ameaça de demissão.

Quando estava começando a trabalhar no Serviço Público, um colega meu resolveu me apresentar à repartição. Ele me apresentou aos meus demais colegas e mostrou quais setores seriam importantes para o meu trabalho. Uma frase que ele falou ao pé do ouvido, quando me apresentou o nevrálgico Setor de Reprografia, ficou na minha cabeça para sempre:

“É bom ficar amigo dos caras aqui. Sabe como é, pode surgir alguma coisa urgente para tirar cópia…”

Na hora, não assimilei direito o conselho. “Se é urgente e esse é o trabalho deles, eles terão que fazer, correto?” Não é bem assim que funciona, no Serviço Público. Aqui, é fundamental ter uma relação de falsa amizade com todos. Somente isso garantirá que você consiga “tocar as coisas em frente”, “fazer a máquina girar”, “manter esse trem desgovernado nos trilhos”, etc. É isso que separa um gestor público bem sucedido de um gestor público malsucedido. Você pode achar que é um MBA em Harvard, mas a resposta é bem mais simples: Curso de Tapinha nas Costas Básico, com Ênfase em Vaselinagem.

7. Você verá homens de sandália

Em nenhuma outra profissão do mundo você irá se deparar com uma quantidade tão grande de homens de sandália. Ninguém deve ser obrigado a ver isso, dia após dia.

8. Há muita política no Serviço Público (Já falei isso?)

Partidos políticos no Brasil existem para dois motivos 1) dar contratos para financiadores de campanha 2) colocar gente do partido em órgãos públicos. Se você virar funcionário público, terá que se acostumar a trabalhar com o CC, essa instituição brasileira. Por experiência própria, o CC é como tirar cara ou coroa: pode até trabalhar mais do que um concursado, mas também pode superar em todos os níveis concebíveis a vagabundagem humana. Uma das lideranças do Partido colocou o filho de 18 anos para trabalhar no seu setor, e ele quer ler o jornal e atualizar o Facebook antes de começar a “trabalhar” (geralmente às 11h da manhã). O problema é que você precisa que ele finalize uma tarefa até às 10h30. Boa sorte.

Um amigo meu que trabalha em um órgão do Judiciário diz que isso é uma característica específica de órgãos do Executivo, onde os CCs são todos “amigos do Rei”. Segundo ele, os CCs carregam o seu órgão do Judiciário nas costas, enquanto lá os concursados são todos uma cambada de vadios. Só sei que deve ser uma tremenda ironia ver o Judiciário demitir um concursado vadio para depois readmiti-lo quando ele entrar com um processo alegando perseguição!

9. Cometeu uma falha? Diga olá para o Ministério Público.

Não é preciso trabalhar em órgão público para saber que esses locais não são exatamente incorruptíveis. Aliás, se você trabalhar em um órgão público relativamente grande, pode ter certeza que já cruzou com um corrupto pelo corredor: você apenas não sabe. Assim, é fundamental redobrar a vigilância em relação aos seus colegas de trabalho e às pessoas que você atende.

No entanto, mesmo se você for uma pessoa totalmente honesta, que não tem orgasmos ao pensar em enriquecimento ilícito, poderá se complicar. Digamos que você tenha perdido um processo em meio a uma quantidade de papel maior que as Pirâmides do Egito. E digamos que este processo trate de questões criminais e que ele esteja sendo solicitado com urgência por um órgão de Segurança, uma Procuradoria ou o próprio MP. É bom ter uma boa explicação para dar ao juiz, quando ele abrir um inquérito para apurar o sumiço do processo, do qual você é o principal culpado.

10. O Serviço Público fecha portas

Você acabou de se recuperar de um surto de SCPA e decidiu que tentará a sorte na iniciativa privada, pois ouviu falar de pessoas na sua área que estão ganhando mais do que você, trabalhando em empresas que oferecem maiores possibilidades de crescimento profissional. É bastante improvável que alguém irá contratar você quando olhar esse seu currículo que, de tão estatal, tem cheiro de poeira de arquivo e tinta de carimbo.

As portas são fechadas até em situações mais sutis. Além de ser um escravo irracional a serviço de um monstro chamado Governo, trabalho como tradutor freelance. Posso citar pelo menos duas situações onde clientes torceram o nariz ao descobrir que eu era funcionário público. Na cabeça deles, há uma incongruência: “Por que ele tem um emprego público se é tradutor? Ele não é bom o bastante para ser apenas tradutor?” Na cabeça do cidadão médio, o único trabalho freelance que você poderá desempenhar no Serviço Público é o de vendedor de Avon ou Natura.

Por esse motivo, tenho pensado em sair do Serviço Público e me dedicar exclusivamente às traduções. Mas acontece que atualmente fui atacado por um forte surto de SCPA, e não tem sido fácil me recuperar… Talvez se eu fizesse um outro concurso, quem sabe… Um com uma carga horária reduzida, de 6 horas diárias… É isso…

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